terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Cadência






então a gente vai levando
mesmo que caia, subitamente
uma coisa qualquer

algum sentido
alguma força
ou, quem sabe, um dente
sempre algo cai
a coisa aparente que não se aguenta
a idéia da mente, sem experimento
a tez
o orgulho
o pano
a ficha

cai, cai o balão
que antes subia
que antes era canto e cabia na mão

cai a capoeira
cai bem, cai mal
cai a regra, a lei
o tronco
a semente
cai dentro, cai fora
aos pés
no chão

cai o pão, com manteiga para baixo
cai a sorte
cai o jogador
até o que cai levemente
a pétala
a folha
o orvalho na manhã

tudo cai, tudo cede
o muro que divide
a ordem geral
a conquista
a marcha
o símbolo
o pedestal

mas a gente vai levando
nas costas
na cabeça
nas mãos
na boca
uma vontade oca
de levantar

mesmo assim
a gente vai levando
a gente vai passando
a gente vai









sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Quietude




mais quieto, talvez
até tudo passar
sem vez, ficar de fora
e por fora, sem entrar

antes, o futuro
mas só se pode ter o agora
e o agora é uma ponte sem fim
que transforma toda chegada
em infindas pontes abertas
e a travessia, uma cruzada

andar, talvez mais tranquilo
e talvez seja tudo o que importa
esses passos, nada mais
ouvir cada instante
sem rumo
com prumo
no tempo desse coração batucador

andando cirandeiro
dançando na festa de qualquer dor
e se por acaso o amor for vilão
for a punhalada, o peso e o pisar
seja essa estrada
com curvas de sorriso
e olhares de improviso

apenas quieto
como a pausa que antecede a música
pra aumentar a fome
do banquete da vida







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

por dentro, por fora...





se eu não sentisse
talvez seria branda qualquer dor
ficaria mais leve
sem tirar-lhe uma mínima parcela
seria como uma palavra num dicionário
com significado
mas sem sentido
sem corpo do texto
conseguiria o bom comportamento
o esperado e medido
com a mais alta perfeição
se eu não sentisse

trocaria os pesos por medidas
o encontro por uma reunião bem sucedida
a alegria por um bem-estar
a possibilidade por algo mais certo

só não sei se teria sentido a cor
ou o olhar que é mais que um sentido
o gosto, o toque, tudo mais, assim
não seria esse livro aberto
temendo virar a página
e os sentidos que estão por vir
daqueles que mudam por dentro
para mudar tudo por fora
como um livro que não se fecha
mas se guarda
um livro que tem nome
como se fosse alguém

não teria ouvido as canções
mesmo as que fazem perder
os sentidos das coisas por algum motivo
não me transportaria para a voz delas
não faria sentido a saudade
nem teria lido seu olhar
se eu não sentisse...











domingo, 12 de fevereiro de 2017

Berceuse






que força tem o tempo
que é capaz de empurrar tudo para frente
até mesmo as pedras imóveis
os grandes monumentos
as montanhas
as borboletas
e os relógios quebrados

sai carregando tudo
sem a menor piedade
o momento bom que queria nunca acabar
os momentos ruins que deveriam passar

capaz de empurrar o corpo
mesmo cheio de dores
sem a menor perspectiva de um outro dia
mesmo sem forças para andar

o mesmo tempo que dançou com a alegria
e que se atreve a tocar o amor

ou terá a sutileza de cuidar das lembranças boas
no mais guardado do peito
transgredir sua própria força
e trazer consigo a brevidade dos instantes

mas tem a possibilidade de ser um amigo
sem frustrar as palavras "para sempre"
tempo...
faz dessa noite um encanto
como estória para criança adormecer









sábado, 11 de fevereiro de 2017

Peregrino





terei pecado
tocando a flor daquele arbusto
tão bela e verdadeira flor
que além de qualquer primavera
é como um sol
é como a lua

nem sabia que estaria em meu caminho
nem era para ser aquela jornada
por onde iria o meu cavalo
com passos perdidos naquela estrada

tão perto que pareceu ser minha
tão aberta que parecia sorrir
e nunca se fecharia ao meu olhar

e tornou-se o caminho da minha flor
virando destino
norte estelar

como sempre, um peregrino
flor do meu caminho
já volto sem nada
com as mãos vazias
a mente cheia
e o tempo lento

no silêncio da lua e do sol
na flor do momento
do meu estradar









terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Música







quando te ouvi
soube que era a minha casa
onde me caberia a liberdade
de caminhar por teus cantos

onde eu poderia adormecer seguro
cruzando a ponte do real para o sonho
sem notar

sabia também que era muito maior
muito mais vasto
mas o quanto eu te percorresse estaria dentro
ou quanto me afastasse te levaria
só não sabia que às vezes você se esconderia de mim

reclamo destas pausas
porque depois de um tempo
são como gritos
porque são como lugar nenhum

porque não quero perder em mim aquele som
daquele mundo se abrindo
daquele instante imenso
quando te ouvia...







quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Terna






bela vida
que nos dá, nos tira
sem discutir
sem uma voz da vida
que pudesse dialogar antes

ela chove sempre...
quem poderia parar de repente uma chuva?
pois ela não tem o verbo acabar
e essa é a permissão de tudo existir
os fins, os meios e os princípios
muitos deles

por isso é preciso achar o tempo dessa valsa
e dançar com ela
girar com ela
assim o corpo repousará em seus braços

apenas os que sofrem é que estão sentados
enquanto a música toca
enquanto não percebe a bela
tranquila e prestes aos passos

a via é bela
é terna