quarta-feira, 8 de abril de 2026

Volare

 



Todo voo é queda que se deixa demorar no abraço dos ventos...
Embaixo miro as águias, plenas de planura e imensidão.
Voos que vão longe, que olham longas distâncias.

Um voo longo pousou em meus ombros
com garras rapinas e apertos ferinos.
Vindo de tão longe para Arrancar-me a alma serena.
E sem saber se é alegria ou tristeza,
Se é perda ou ventura o alçar que ascende o pobre homem
Que abismado pensa tolo estar voando...

Não sabe que adormecido caiu
Perdeu-se no tempo, nos dias,
Bem mais que nos 10 anos.
Dormiu e deu asas ao seu pesado sono, apenas...

Velho Tango

 



A dor é uma dança que sabe o compasso do meu coração.
Sabe tanger esperanças
Gritar lembranças, sabe bem confundir.
Sabe d´uma casa chamada ilusão com estranha alegria os canteiros florir.

Sabe cada passo meu
Cada cor, cada cheiro,
Cada tom de canção.
Cada peça de roupa
Sabe o corpo inteiro.
Sabe conduzir.

Sabe cada melodia,
Da filosofia, sabe o ideal.
Só não sabe que é tango
Nem se é bem ou se é mal.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Metamorfose 2




um dia a conta chega

sem avisar, sem dar tempo de se preparar


e pra que mesmo se preparar

se é uma guerra perdida

que não aceita uma rendição

e não põe um fim na questão


chega para que conviva com ela

para que ocupe todos os espaços, onde quer que vá

até mesmo na hora do descanso, do repouso e do sono

para dormir contigo


a conta chega bem maior do que se espera

te envolve e te aperta

como que cobrando todos os dias que não esteve presente

cobrando um preço impagável


só resta abraçá-la 

permitir que esteja perto

cuidar dela como a melhor memória que você tenha

para enganar a ambos

num acordo tácito e irônico


depois de um tempo, quem sabe, tudo se torna íntimo

quase rotineiro como se fosse o normal do dia a dia

quem sabe até comece um afeto

um desejo que acabe por ser mais esquisito

incompreensível e invasor

até fazer amor


um dia não saberá quando mesmo que a conta chegou

nem perceberá sua presença, agora invisível

talvez já a tenha devorado, digerido

e agora faz parte de seu corpo

pois agora você se tornou a conta de alguém...









sexta-feira, 3 de abril de 2026

 



preciso abrir essa porta

imagino...

essa que me abre para fora

e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral

com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente

com uma brisa que parece envolver o corpo

como um lençol invisível

leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros


preciso voltar para esses ares

que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto

para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite

faz todo o dia prometer inspiração

de cores e detalhes novos

belezas tão grandes que cabem numa canção


e como é bom transformar o olhar

reinventar a percepção

num espectro infinito

de sensibilidades possíveis

feito a mente duma criança

ou o coração de alguém apaixonado, aflito


ver tudo transformado

ver que nada é apenas o que é

que pode ter tantas narrativas que desconhecemos

mas que podemos descobrir 

ou, sem o menor pudor, inventar


mais que nunca, preciso deste portal...

pra me mudar para o mundo da arte

para passear no verso das canções que gosto

preciso sim desta porta ou janela que eu fuja

deste estado de ambientes fechados

estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos


quero pegar meu violão

levá-lo como convidado e amigo

prestes a romper do silêncio para a cantiga


num tempo sem pressa

e talvez, de repente, apenas parar

recostá-lo num coqueiro

e caminhar, caminhar...






inapropriado 




inapropriado nessa hora

em que todos dormem

fazer um café


justo porque não devia te-lo feito

tão tarde


mas fazer um café, nesta hora,  expressa minha liberdade

um desvio, com muito gosto

quando pensar importa


não para me manter acordado

apenas por precisar deste café noturno


sim, fora de hora

fora de tudo

desaforado e inapropriado

inapropriado para esquecer

inapropriado para guardar


esfria, ferve, mancha, derrama

perfuma...


talvez seja ele como o céu, na noite sem lua

sem permitir sequer ter estrelas

como uma rainha que rouba os olhares


como o único tema de uma sinfonia...


aprisiona e envolve na sua bruma

e qualquer que seja o pensamento

vaga, neste mar

nada...


apenas um café

nada mais

e eu que esperava que fosse apenas...






domingo, 29 de março de 2026

Entalhe

Entalhe 




preciso escrever, ainda...

ao menos tentar.


e preciso ficar o mais longe possível do olhar crítico

que não merece a confidencialidade das veleidades rabiscadas


e quisera fossem traços esses dígitos

tão incapazes de delinear o relevo do sentimento


também que fosse num papel

com todas as fibras recebendo as cicatrizes 

dos golpes duma espada de tinta escura

marcando memórias instantes

tatuando sentimentos assim como entalhamos numa árvore os nomes


ainda preciso escrever

reabrir esta página cheia de letras e palavras

tentando traduzir essa coisa

esse limite real que meu imaginário atravessa

e se acampa no meio do tempo


escrever, escrever, escrever

até me calar por dentro

quando perceber que talvez já não haja um destinatário

senão o andar em círculos

de um sentir solitário


até quando a realidade me acolher, finalmente

de forma simples, sem fantasia

sem poemas, apenas informação

sem precisar escrever...


no fundo, talvez seja simples assim

como deveria ter sido

como deve ser...




terça-feira, 24 de março de 2026

Braços Soltos

 Braços Soltos




desistir, experiência difícil

quando parece pertencer ao seu caminho

esta essência oculta e inviolável

que sobrevive por si só, no desalinho


presente, não sei de que forma

sem razão e sem cabimento

mas sempre lá

no incerto em que se esconde

e se revela em algum momento


difícil é explicar ao corpo

encontrar um argumento

quando existe e sente

sem de fato estar presente


permitir, talvez

como se fosse uma desistência

apenas não buscar, nem lutar

se render e deixar os braços soltos...


não se importar com o tempo

nem com toda essa construção de mundo

repleta de costumes rasos, toscos

ora belos ou feios, meros, medianos


tanto faz...

talvez não faça diferença entre o vale e o monte

entre o sol e a sombra

pois a natureza é sempre maior que qualquer drama humano

ela tem todo o tempo do mundo

e estará sempre ali...


braços soltos...

olhos fechados e um vento no rosto...

um sorriso leve...


desistir?

não.

apenas guardar, com todo cuidado

e fingir não saber como pode ser encontrado...