segunda-feira, 4 de maio de 2026

Erro



 

preciso cometer um erro

urgentemente...

sabendo exatamente pra o que serve

e que, depois,  me faça arrepender 


um que seja a expressão do que não quero

e que confunda tudo que espero

e não me permita retornar


preciso cometer um erro nada belo

e esse não poderei errar

terá que ser esculpido cuidadosamente

adentrando na mármore realidade

petrificando a suavidade

dando asas ao peso

para que ele possa se materializar


preciso cometer este erro

e que seja bem sincero

indo ao encontro de um desespero

para me salvar




Um Dia

 



algumas poucas horas

se contadas, todas, não darão a soma para um dia

foi tudo que tive


tento achar um culpado nessa conta e não encontro

tento encontrar o erro e não enxergo

mas suspeito ser eu o erro e o culpado

por não aceitar que tudo impedia

que tudo negava

que tudo atravessava


hoje o tempo parece ser mais precioso

assim como queremos parar um por de sol

para que fique por mais tempo

enquanto o vemos, em todos os detalhes

as cores e formas, tão belas


suspeito ter conhecido o impossível

por mais belo e profundo que seja

e foi como querer chegar no horizonte

que se desdobrava para longe cada vez que eu ia


vou tentar me explicar por dentro

só não sei por onde começar

pois sou mais aluno que professor

tenho mais dúvidas que certezas

e nada aprendi direito


no momento, prefiro apenas caminhar 

caminhar entre os eucaliptos

até passar esse atravessamento

que vem, vai e volta sempre


caminhar, talvez, para respirar um pouco

olhando para as copas e o céu


no momento, é tudo que tenho

é tudo que posso fazer

nesse todo tempo do mundo

que parece não valer 

o pouco tempo daquele dia









terça-feira, 28 de abril de 2026

Sol

 




sim

cheguei no alto desse monte

no limite entre voar ou cair no chão

nesse instante que me cobra uma decisão


lá onde todas as cargas me pesam e descansam

sabendo do tempo breve que me demorarei

e do impasse sobre o que será levado

o que será deixado para trás


resolvo passar um pouco mais de tempo

me acampar enquanto chega uma noite fria

estelar uma pequena fogueira

e deixar que o fogo queime até cessar

como meu coração em brasa

buscando extinguir um sentimento


a mesma chama que vi em teus olhos

e que agora preciso que se apague

que não me aqueça mais

que cale as palavras que eu te disse

que as torne em silêncio e cinzas


tanto que eu queria a paz da escuridão

que me acolhesse no resfriar sereno da noite

que eu me tornasse algo sem memória

e sem qualquer lembrança 


nessa minha aurora

acordo sem norte ou destino

vencido ainda, pois de nada valeu meu esforço

visto que do horizonte, ainda mais forte, ascendia

o sol, estrela do meu dia....






domingo, 19 de abril de 2026

Minha Inspiração

 



Minha inspiração

foi em busca de uma canção

que dissesse

que confessasse

todos meus pecados que não cometi


foi em busca do meu violão

que desafinado deixei ao luar

tão prateado, tão cinza e vazio

sob um céu estrelado

numa noite de frio


A minha inspiração saiu

saiu sim

pela porta do fundo

pela pausa do verso

pelo cais do meu mundo

partido, incompleto


E a palavra ficou esquecida

talvez enterrada em algum lugar

quem sabe ela esteja aqui bem perto

ou aqui dentro ela fez me calar


Minha inspiração ficou

ficou sem jeito de se aproximar

desse corpo que tem tanto medo

de de novo cantar esse corte

feito a música de Belchior


ela ao menos me tem cuidado

no instante da delicadeza

no instante em que eu desisto

única mão que me toca

e que pode me resgatar


minha inspiração é tudo que me resta

mas nunca mais quero saber os motivos

que a fazem nunca sair de perto... 








segunda-feira, 13 de abril de 2026

Uma ode à alegria


cantar, cantar pra dentro

cantar o meu tormento que parece não ter fim


se chego ao fim parece uma chegada

uma nova estrada pra dentro de mim

sentir é pranto, nuvem mais escura

cai no meu canto a falta de amor


fico isolado, lado do sem jeito

o lado do peito, o corte, o coração

mais que de lado, já não sei ao certo

se cheguei no centro desse furacão


abro a camisa, vento no meu peito

corpo que anuncia uma nova estação

se a chuva cai, leve em sua calma

lava minha alma seca do Sertão


sei que o caminho agora não tem volta

porque escolhas são o que se quer

não cruzo a linha vermelha por nada

só quero que você seja feliz


se o mal-me-quer é a pétala que falta

vai, segue em frente sem olhar pra trás

escolho ser quem não invade o espaço 

da minha metade, para nunca mais


por isso eu fiz essa sinfonia

que marca o dia do adeus

não tem concerto nem cantoria

pauto a minha vida agora sem você


só sei sentir, talvez demais

entrar num mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que amei de perto


só sei sentir, talvez demais

entrei no mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que é amar de perto


Nota - Começou como um poema, mas virou canção. Não resisti em trazer Beethoven (mestre que parece ter tocado as estrelas) com o tema da Nona Sinfonia, com uma sutil alteração modal e realizar o refrão com o prelúdio em Sol para cello de Bach (gênio imortal). E quando digo "fiz essa sinfonia", aborda o conceito do grego de sons juntos. Assim, juntei esses temas eternos no arranjo.

(Inspirada no longa metragem de Matheus Augusto, "Nosso Mundo Meu")





sexta-feira, 10 de abril de 2026

Carteiro

 



a primeira vez bateu à porta

ninguém atendeu

quem sabe lá dentro deve estar ocupada

está longe da sala

talvez no quintal

foi o que pensou o carteiro


a segunda vez, voltou a bater

um pouco mais alto

um pouco mais forte

e com uma certeza

onde quer que fosse seria ouvido

na sala, cozinha, talvez no quintal


sem resposta parou ponderadamente

por que bater a porta de uma casa vazia?

de noite, de dia, já não tem sentido


mas se dentro da casa tiver alguém

quem sabe no quarto

no centro da sala

alguém que agora não quer receber


a terceira vez 

pode ter certeza

que o moço da porta 

nunca mais vai bater



quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mozarteando

 



chega de tristeza...

chega de saudade,

pra que serve o mal estar

senão para perder o tempo, 

desafinar o coração dos versos de Tom

e ficar sussurrando com a voz dum João


mas a tristeza também pega as almas alegres

as almas leves, os João ninguém

tristeza que serve a mesa

com um banquete repleto de pratos vazios


que fazer se isso não tem hora?

não tem dia certo e não tem lugar

não dá pra esconder dessa cruel senhora

que ainda mora lá no meu quintal


mas faço o meu contraponto

com muita harmonia para colorir

os temas ou breves poemas

com ideias pequenas só pra eu sorrir


convido o menino Mozart

com a sua graça de eterna magia

ouvindo os seus conselhos

como quem conversa no banco da praça 


e sigo Mozarteando

e talvez encantando olhares rapinos

aprendendo com a natureza

sem espada, sem presa

sem pressa, sem hora


chega!

chega de tristeza

não vale a pena viver assim

pois nada é uma certeza

e por enquanto vale distrair


sei que depois ela volta

talvez não tão dura, talvez em silêncio

com passos leves, lentamente

quem sabe vem nua, mais leve, mais quente


me abrace, sem dizer nada

apenas me deixará sofrer com ternura