sexta-feira, 10 de abril de 2026

Carteiro

 



a primeira vez bateu à porta

ninguém atendeu

quem sabe lá dentro deve estar ocupada

está longe da sala

talvez no quintal

foi o que pensou o carteiro


a segunda vez, voltou a bater

um pouco mais alto

um pouco mais forte

e com uma certeza

onde quer que fosse seria ouvido

na sala, cozinha, talvez no quintal


sem resposta parou ponderadamente

por que bater a porta de uma casa vazia?

de noite, de dia, já não tem sentido


mas se dentro da casa tiver alguém

quem sabe no quarto

no centro da sala

alguém que agora não quer receber


a terceira vez 

pode ter certeza

que o moço da porta 

nunca mais vai bater



quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mozarteando

 



chega de tristeza...

chega de saudade,

pra que serve o mal estar

senão para perder o tempo, 

desafinar o coração dos versos de Tom

e ficar sussurrando com a voz dum João


mas a tristeza também pega as almas alegres

as almas leves, os João ninguém

tristeza que serve a mesa

com um banquete repleto de pratos vazios


que fazer se isso não tem hora?

não tem dia certo e não tem lugar

não dá pra esconder dessa cruel senhora

que ainda mora lá no meu quintal


mas faço o meu contraponto

com muita harmonia para colorir

os temas ou breves poemas

com ideias pequenas só pra eu sorrir


convido o menino Mozart

com a sua graça de eterna magia

ouvindo os seus conselhos

como quem conversa no banco da praça 


e sigo Mozarteando

e talvez encantando olhares rapinos

aprendendo com a natureza

sem espada, sem presa

sem pressa, sem hora


chega!

chega de tristeza

não vale a pena viver assim

pois nada é uma certeza

e por enquanto vale distrair


sei que depois ela volta

talvez não tão dura, talvez em silêncio

com passos leves, lentamente

quem sabe vem nua, mais leve, mais quente


me abrace, sem dizer nada

apenas me deixará sofrer com ternura






quarta-feira, 8 de abril de 2026

Alistamento

 


hoje eu mudarei minha vida

se for preciso

se for o que precisa

não cruzarei o limite

que o silêncio me avisa


serei como o soldado que foi convocado a ir à guerra

a lutar sem importar com o que pensa

sem cuidar do que sente

apenas seguir em frente

para que quem fique, seja feliz

tenha segurança

o simples direito de se sentir bem


irei só para a minha guerra

e bombardearei o meu desejo com todas as armas

me esconderei numa trincheira

marcharei para o front de batalha

sem temer qualquer dor

será hoje, se preciso for 


lutarei a mais estranha das guerras

a que não tem inimigo

a que destrói o abrigo que eu haveria de me deitar

que amordaça a palavra

que me torna prisioneiro

e me força a confessar mentiras


hoje, talvez, me porei em fuga

serei um traidor

exilado de meu próprio sentimento

se for preciso


se preciso for irei além

seguirei na marcha para um outro país

me esconderei, com uma outra vida

sem dar notícias a ninguém


nem contarei por que não luto mais

posto que me darei por vencido

não importa

apenas eu saberei

e ninguém mais






Volare

 



Todo voo é queda que se deixa demorar no abraço dos ventos...
Embaixo miro as águias, plenas de planura e imensidão.
Voos que vão longe, que olham longas distâncias.

Um voo longo pousou em meus ombros
com garras rapinas e apertos ferinos.
Vindo de tão longe para Arrancar-me a alma serena.
E sem saber se é alegria ou tristeza,
Se é perda ou ventura o alçar que ascende o pobre homem
Que abismado pensa tolo estar voando...

Não sabe que adormecido caiu
Perdeu-se no tempo, nos dias,
Bem mais que nos 10 anos.
Dormiu e deu asas ao seu pesado sono, apenas...

Velho Tango

 



A dor é uma dança que sabe o compasso do meu coração.
Sabe tanger esperanças
Gritar lembranças, sabe bem confundir.
Sabe d´uma casa chamada ilusão com estranha alegria os canteiros florir.

Sabe cada passo meu
Cada cor, cada cheiro,
Cada tom de canção.
Cada peça de roupa
Sabe o corpo inteiro.
Sabe conduzir.

Sabe cada melodia,
Da filosofia, sabe o ideal.
Só não sabe que é tango
Nem se é bem ou se é mal.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Metamorfose 2




um dia a conta chega

sem avisar, sem dar tempo de se preparar


e pra que mesmo se preparar

se é uma guerra perdida

que não aceita uma rendição

e não põe um fim na questão


chega para que conviva com ela

para que ocupe todos os espaços, onde quer que vá

até mesmo na hora do descanso, do repouso e do sono

para dormir contigo


a conta chega bem maior do que se espera

te envolve e te aperta

como que cobrando todos os dias que não esteve presente

cobrando um preço impagável


só resta abraçá-la 

permitir que esteja perto

cuidar dela como a melhor memória que você tenha

para enganar a ambos

num acordo tácito e irônico


depois de um tempo, quem sabe, tudo se torna íntimo

quase rotineiro como se fosse o normal do dia a dia

quem sabe até comece um afeto

um desejo que acabe por ser mais esquisito

incompreensível e invasor

até fazer amor


um dia não saberá quando mesmo que a conta chegou

nem perceberá sua presença, agora invisível

talvez já a tenha devorado, digerido

e agora faz parte de seu corpo

pois agora você se tornou a conta de alguém...









sexta-feira, 3 de abril de 2026

 



preciso abrir essa porta

imagino...

essa que me abre para fora

e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral

com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente

com uma brisa que parece envolver o corpo

como um lençol invisível

leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros


preciso voltar para esses ares

que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto

para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite

faz todo o dia prometer inspiração

de cores e detalhes novos

belezas tão grandes que cabem numa canção


e como é bom transformar o olhar

reinventar a percepção

num espectro infinito

de sensibilidades possíveis

feito a mente duma criança

ou o coração de alguém apaixonado, aflito


ver tudo transformado

ver que nada é apenas o que é

que pode ter tantas narrativas que desconhecemos

mas que podemos descobrir 

ou, sem o menor pudor, inventar


mais que nunca, preciso deste portal...

pra me mudar para o mundo da arte

para passear no verso das canções que gosto

preciso sim desta porta ou janela que eu fuja

deste estado de ambientes fechados

estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos


quero pegar meu violão

levá-lo como convidado e amigo

prestes a romper do silêncio para a cantiga


num tempo sem pressa

e talvez, de repente, apenas parar

recostá-lo num coqueiro

e caminhar, caminhar...