quarta-feira, 1 de julho de 2026

Portas abertas

 


tem aquelas onde a beleza é imperiosa

e exercem um domínio natural que se expande

que torna o estar em subjugar-se

como uma ideia fixa interminável

que habita por um longo tempo sem querer sair

até o corpo finalmente expurgar, deixando marcas de guerra


também aquelas que conquistam

com pensamentos, presença de mistérios

abismos mágicos de cores e formas, pinturas

e são do campo do impossível

essa coisa que nos prende pela estrutura

nos afasta pelo respeito e nos une pela arte


tem as que são demasiado dos momentos

sem pensar direito deixando as coisas irem acontecendo

tornando-nos apenas pontes para uma travessia

e simplesmente passam, sabe-se lá para onde

sabe-se lá onde o afeto se esconde


outras nos adotam, como algo que escolheu

experimentam momentos e lugares 

encontros e viagens como se fôssemos algo delas

até cansar, até não se importar

até cortar o tédio, como se fosse o melhor remédio


tem as que trazem um mundo com elas

que superpõem fantasias sobre a realidade

talvez os seus projetos mui tradicionais

embora com afetos, os planos valem mais


tem as que são bem mais do que esperamos

que faz nosso mundo explodir em vida

dão sentido a qualquer coisa, mesmo tola

nos enriquecem, nos torna ao que somos

depois vão embora, pra bem longe


tem as que não sei contar

talvez nem mesmo eu possa fazer isso

melhor eu nem tentar, apenas aceitar este caminho

este destino que me chama, por todos os lados

para seguir só, abrir as portas e sair

e nunca mais deixar alguém entrar





sábado, 27 de junho de 2026

Sem palavras...

 

muita coragem vejo

nesses que adentram em ruinas

onde tudo agora é frágil 


muito cuidado ao pisar, sem sucumbir 

sem magoar as vidas fragilizadas pelo tremor


agora o coração é que treme 

é que teme e tem esperança 

e as mãos destes parteiros do renascimento 

cegas, garimpam vidas sem saber

se ali embaixo se encontra um amigo

um amor, uma criança, talvez agora sem família 


tantas narrativas rotas

tantas dores nascidas deste trauma

que habita no corpo, na alma

sem crer que o motivo disso tudo foi natural 


jamais seremos capazes de entender, jamais

o por quê desta fatalidade sem aviso

de tantas vidas que ainda agonizam

perdendo a esperança a cada instante 

contando com a sorte de que um desses anjos

possam as encontrar 


esses são os que mais sofrem

os que verdadeiramente sofrem 

privados para sempre de um entendimento 

com a única resposta, o sentimento 


só sei o tanto que são inúteis esses versos

mesmo eu querendo beijar teus olhos fechados

para dizer a dor que me amarra os braços 

de longe, bem longe

e essa dor tão perto...


[Dói demais acompanhar a situação da Venezuela após os terremotos. Celebro cada vida encontrada nos escombros, enalteço cada pessoa que se arrisca pelas vidas e choro por cada família que teve perdas...]


segunda-feira, 22 de junho de 2026

 


Hoje, apenas relendo para quem sabe aprender com minhas visões internas, já que não desejo entrar em redemoinho de versos repetidos. Muito já foi dito, pensado, sentido. Reler como revisitar o tempo passado e perceber os seus ciclos. Depois, talvez, retorne com algo novo. Mas que seja bem diferente destes caminhos trilhados ou destinos perdidos. Como a música, hoje, a pausa, o silêncio agora mais interno que nunca. Um trabalho interno lento, que escuta mais, aprende mais e espreita o salto para fora desta sela, cheia de armadilhas que renascem pelos cantos. Para elas, meu silêncio de sangue e pulsar do coração.


Polifonia (5/03/2013)


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Regresso

 

só um tolo é capaz de tantas proezas inconsequentes, 

numa noite ou num dia quente

como se comesse, como se começasse, comovesse

as tripas enlaçando o coração

e o sangue não mais viesse, para prometer a redenção

tudo como de costume e mesmo que acostumasse, 

não saberia dizer qual a razão.

contudo, se na guerra entrasse

vermelho no céu da aurora como uma explosão

senhora, senha, código, digo que só me tem a sanha

cenho que traduz a cólera, talvez essa coleira a que me reduz


o cão que aspira a liberdade, que não faz questão sequer da humanidade

da pena que não vale o sentimento, da asa de ícaro que foge ao vento

do sol que dilacera e que derrete a cera 

saindo desse maldito labirinto que o deus do amor construiu


quem vai saber talvez dessa ingenuidade

não saberá do sabor que tem, o gosto da maldade

o peso que transporta o corpo, atravessado e morto

o caos da solidão


e o uivo ressoa no vale, como o silêncio em meio a multidão

um canto de banalidades neste parque vil de diversões

caminho, pois, entre esses tantos e tantas

que urgentes marcham com tantas coisas por fazer

ignorando a intimidade sobreposta com os planos

castelos e contos, as contas, e todos os modelos ideais


recebo, porém, o olhar das crianças, essas que me veem quando ao passar

e se tenho delas um sorriso, ganho esperança e penso em algo melhor me tornar 

tornando-me o que foi esquecido, mudando de rumo para o meu regresso

talvez eu sendo novamente tolo, mas sempre acreditando ser sempre verdade

posso estar muito errado, mas para mim, isso é o que espero da humanidade.








segunda-feira, 8 de junho de 2026

Espera


 às vezes não sabemos bem lidar com a espera

se é algo que devora inteiro ou a metade

às vezes só queremos ter uma resposta

do que não se sabe só pra entender


se o sentimento não sabe ver hora

confunde o agora, agoura o depois

devemos ter de fato só um pensamento

pra cuidar do corpo quando se está só


precisa ter cuidado, sentido do vento

ver pra onde leva, onde vai parar

só pra depois voar numa ventania

mergulhar no céu, pipa de coração


tão longo esse cordão, que fica em outra mão

tão fino tremulando quase se partindo

vida por um fio, acorda esse menino

quando o vento muda sua direção


a espera é um fio que vai esticando

feito uma corda de um violão

se passa do tom e não mais afina

perde a harmonia de nossa canção








sábado, 6 de junho de 2026

Ingenuidade

 



quando eu era jovem, tinha um olhar mais puro

como quem não cresceu direito, parado no tempo

de uma ingenuidade e gentileza quase carinhosa

sempre a crer que diziam a verdade


imaginava demais, tantos devaneios

havia algo no ar que era inspirador

acreditava em qualquer pessoa

acreditava no amor


me importava mais com os mínimos detalhes

que sempre desapercebidos

ficavam quase que escondidos 

diante de todo olhar comum


me encantava com a beleza

que há em tudo, em todos

e achava que qualquer um merecia mais que eu,

o que quer que fosse


mas a vida foi me consumindo

em cada nova experiência uma nova lição

muitas investidas em que me pus aberto

senti o frio, a dor e o erro

como quem está na contra-mão


depois de colecionado muitas perdas, muitos enganos

ainda assim prefiro ser aquele menino

e não ficar brigando com o destino

e aprender de vez a não ter planos


hoje um silêncio me atravessa

e nem sei qual lição aprenderei

só me sinto como naquele tempo

colhendo os frutos de minha ingenuidade

e do amor que acreditei








sexta-feira, 5 de junho de 2026

Correnteza

 

bem mais perto, logo à porta 

o que se abre, incerto e imenso 

pra mais uma vez eu entrar nesse mundo revirado

sem apoio que me acompanhe 

para me equilibrar nessa correnteza 


é preciso ser forte para se estar só

é preciso ter coragem para dividir a vida com alguém

a coragem de arriscar quando a única certeza 

é que se tornará vulnerável 

justamente por entender que há limites 

que ora são passagens, ora simplesmente pontes intransponíveis 


olho meu caminho com a medida do tempo 

por isso espero, antes de qualquer movimento 

que me lance em mar aberto, antes de voltar ao centro

não se sabe o que virá 

não se sabe como será 


por enquanto, apenas essa vontade 

que me retorna, que me cobra a existência 

por enquanto, ausência 

talvez veleidades