terça-feira, 11 de agosto de 2026

Rebanhos

 



o tempo mudou

do céu claro e azul para nuvens cinzas

uma neblina fina cai, chapiscando essa tela

como um véu de silêncio e mistério

um silenciar de sonhos com incertezas de orvalho


sim, é leve como o esquecimento


estranho poder olhar nesse espelho do tempo

sem me reconhecer por dentro

e perguntar, onde me perdi?


mais estranho ainda é ter nas coisas banais

o motivo que me projeta para o próximo dia

e, talvez, esperar que algo novo aconteça

que possa tentar me abraçar, e que aqueça

esse corpo cismado e descrente


quem sabe a sorte me entregue esse pavio

para a mínima centelha de um olhar

me trazer de volta um sorriso


ou talvez romper essa muralha

para que eu possa soltar os meus rebanhos

e que do amor libertos

não me sejam mais estranhos




domingo, 2 de agosto de 2026

Nobreza

 



delicado...

como a última pétala que se soltou

dessa Margarida

se as flores são vida, se vivem as estações

lágrima caída no seu rosto

puro sentimento


complicado...

se a espada é uma palavra

afiada por todos os lados

melhor não deixar perto do coração

aquieta na bainha do silêncio

até passar a guerra


confuso...

entender ao certo o que se sente

desvendar o nó de tantos laços

sem saber se ganha, ou se se perde

nem o quanto custará em sua vida

chegar até a ponta

decisão


necessário...

tempo pra entender melhor

talvez sentir de outro jeito

até se tornar um corpo estranho

para preservar os outros

e encontrar algum lugar

no meio de tudo

que tenha a nobreza da imobilidade

mesmo sendo isso o sacrifício

de sua vontade









domingo, 26 de julho de 2026

Árvore

 



agora apenas corpo, trabalho e caminho

pra que pensar mesmo?


não vale a pena o que não tem jeito

se acostumei a sempre querer voltar,

guardar sempre essa esperança,

agora apenas corpo, trabalho e andar...


seguir é dar as mãos ao tempo

pedir uma pausa ao sentimento

e cuidar desse pobre coração

ter na paz uma meta de harmonia

respirar sem dor, sem agonia

e cuidar do corpo, do trabalho e do estradar


corpo, trabalho e caminho...

sem olhar pro lado

corpo, trabalho e caminho...

basta olhar pra frente.


já não quero nada ruim em meu peito

nenhum despeito, desespero, rancor

só quero flores pequeninas a cobrirem esse monte

sentir o vento entre as cores, dando movimento, respirar...

lembrar de tudo que merece ser lembrado

e esquecer, esquecer, esquecer...

e se for preciso, afastar, afastar...


devo, sinceramente, aprender com as árvores

parecem solitárias, mas autônomas em sua copa

os pássaros fazem ninhos, a acordam antes da aurora

servem de haste para um balanço para uma criança brincar

fazer casa-da-árvore, viver fantasias

ser onde escrevem seus nomes

onde a boiada repousa, fugindo do sol


sim, preciso aprender com elas

lembrar que tenho raízes

mudar a cada estação

e mesmo depois de morta

ser uma porta, um violão

ter novas histórias, ser uma janela

onde a mais bela fica a olhar a rua

vendo a banda passar


ser onde se recosta um outro corpo, cama

uma ferramenta de um trabalhador

e ser uma ponte

seja lá pra onde for



segunda-feira, 20 de julho de 2026

Casca




não tenho tempo para sentir

tão ocupado que está meu tempo 

e a responsabilidade me obriga a seguir 


tão estranho fica o corpo

desconfiado dessa estabilidade 

que mais parece um salva-vidas 


jogo essa pedra para cima

sem esperar que caia

imaginando que corrompeu a gravidade 


sigo, já faz um tempo 

nessa marcha de qualquer destino 

e receio o retorno do sentimento 


hoje não 

por sorte, ainda não 


quem sabe assim eu vá indefinidamente 

e faça nascer uma outra história 

sem as dores invisíveis 

e sem memórias 





segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Depois

 


me dói esse passo

esse que agora tenho que dar


caminho de olhos fechados

e apenas essa direção incógnita

é o meu caminho


que Deus guarde meu caminhar

porque os destinos ainda não me acolhem

sequer são destinos


que eu apenas vá

todos meus sentidos já estão cansados de lutar

e precisam de algum descanso

e eu de um recomeço...





domingo, 5 de julho de 2026

 


eu já devia ter entendido

ter crescido

aprendido

já devia ter mudado

desacreditado

isso já devia me ter sido revelado


já devia ter saído

acabado

ter sido esquecido

ter me cansado

desistido


eu já devia

devo, não nego

pago quando puder


só está comigo

nem sei mais por que

por tanto tempo

não entendo

portanto, me rendo


que fique, que viva

que permaneça

que sobreviva o quanto quiser

se não posso lutar, eu abraço

eu escondo nesse silêncio

com todo carinho

com todo cuidado


só não quero perder a ingenuidade

que me tornou quem eu sou


só assim não me perco de mim

só assim não minto


admito

sigo

e não vou parar







sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ventania

 

bem lá

no horizonte da sertania

em giro aberto, no centro nordeste da solidão, surgia

o sol trazendo a borda incandescente, feito a beirada dum chapéu

levante dum cangaço chispando estrelas no encourado contra o céu


passo curto, corrido, aprumado que varia conforme o caminho

é o couro cozido, desquinado, é o fio, é a lã, é o linho


é o vaqueiro que enfrenta Lubião

lua nascendo no cume da serra

sonho desacordado que erra

no meio da escuridão

pêlo, crina, cela e destino

esperança que vai consumindo

no lombo do seu prateado

no trote, galope que ferra

 o catravo dessa montaria

vai pelo descampado da terra, 

na descida, é vereda, é ventania


mão-de-pilão não aponta o dedo

pra o coração do corpo fechado

vai pilando a tristeza, a esperança, 

a lembrança no tempo cortado, 

o verso perdendo o rimado

misturando no pó da estrada

a cantiga dessa cantoria

o improviso que é um quase nada

pro tamanho que foi do meu dia