segunda-feira, 8 de junho de 2026

Espera


 às vezes não sabemos bem lidar com a espera

se é algo que devora inteiro ou a metade

às vezes só queremos ter uma resposta

do que não se sabe só pra entender


se o sentimento não sabe ver hora

confunde o agora, agoura o depois

devemos ter de fato só um pensamento

pra cuidar do corpo quando se está só


precisa ter cuidado, sentido do vento

ver pra onde leva, onde vai parar

só pra depois voar numa ventania

mergulhar no céu, pipa de coração


tão longo esse cordão, que fica em outra mão

tão fino tremulando quase se partindo

vida por um fio, acorda esse menino

quando o vento muda sua direção


a espera é um fio que vai esticando

feito uma corda de um violão

se passa do tom e não mais afina

perde a harmonia de nossa canção








sábado, 6 de junho de 2026

Ingenuidade

 



quando eu era jovem, tinha um olhar mais puro

como quem não cresceu direito, parado no tempo

de uma ingenuidade e gentileza quase carinhosa

sempre a crer que diziam a verdade


imaginava demais, tantos devaneios

havia algo no ar que era inspirador

acreditava em qualquer pessoa

acreditava no amor


me importava mais com os mínimos detalhes

que sempre desapercebidos

ficavam quase que escondidos 

diante de todo olhar comum


me encantava com a beleza

que há em tudo, em todos

e achava que qualquer um merecia mais que eu,

o que quer que fosse


mas a vida foi me consumindo

em cada nova experiência uma nova lição

muitas investidas em que me pus aberto

senti o frio, a dor e o erro

como quem está na contra-mão


depois de colecionado muitas perdas, muitos enganos

ainda assim prefiro ser aquele menino

e não ficar brigando com o destino

e aprender de vez a não ter planos


hoje um silêncio me atravessa

e nem sei qual lição aprenderei

só me sinto como naquele tempo

colhendo os frutos de minha ingenuidade

e do amor que acreditei








sexta-feira, 5 de junho de 2026

Correnteza

 

bem mais perto, logo à porta 

o que se abre, incerto e imenso 

pra mais uma vez eu entrar nesse mundo revirado

sem apoio que me acompanhe 

para me equilibrar nessa correnteza 


é preciso ser forte para se estar só

é preciso ter coragem para dividir a vida com alguém

a coragem de arriscar quando a única certeza 

é que se tornará vulnerável 

justamente por entender que há limites 

que ora são passagens, ora simplesmente pontes intransponíveis 


olho meu caminho com a medida do tempo 

por isso espero, antes de qualquer movimento 

que me lance em mar aberto, antes de voltar ao centro

não se sabe o que virá 

não se sabe como será 


por enquanto, apenas essa vontade 

que me retorna, que me cobra a existência 

por enquanto, ausência 

talvez veleidades 






domingo, 24 de maio de 2026

O simples




eu aqui de novo, querendo me resolver escrevendo

quando a falta reclama no corpo

de novo procurando articular qualquer palavra ou frase que me acalme

que me peça um pouco mais de tempo

sem um prazo definido

para romper com essa espera que é tão inerte


se o bonde anda com seu peso e não dá pra parar

assim, de repente

mesmo que seja o que mais preciso

quando o que mais preciso é o mais simples


invejo os que aí por perto

vão à padaria, comprar pão

invejo-os simplesmente por estarem aí

e é tão pouco, mas pra mim seria tudo, seria tanto


palavras são insustentáveis

permanecem em nossa companhia para ajudar com o tempo

enquanto que dizê-las nos torna um pouco mais serenos

como se fizesse alguma coisa, ao menos


mas sinto o passo, lento, o caminhar no rumo

me levar pra perto, pra sem mais palavras

o simples estar, silenciá-las






terça-feira, 19 de maio de 2026

Meu presente...





Queria ser uma cantiga

Pra voar por sobre as flores

Visitar todas as cores

E entrar pela janela



Do teu quarto, de mansinho

Te acordar devagarinho

Do teu sono encantado

Como se eu fosse um Beija-Flor



E você fosse um lírio

O mais belo do caminho

E um canto de passarinho

Acordaria o meu amor



Suave abrir de teus olhos

Serenos, pousando nos meus

Meus lábios sorrindo, nos teus

Com um beijo celebraria



Feliz, o raiar de teu dia

Teu Maio, minha alegria

Meu sol

Minha canção



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Erro



 

preciso cometer um erro

urgentemente...

sabendo exatamente pra o que serve

e que, depois,  me faça arrepender 


um que seja a expressão do que não quero

e que confunda tudo que espero

e não me permita retornar


preciso cometer um erro nada belo

e esse não poderei errar

terá que ser esculpido cuidadosamente

adentrando na mármore realidade

petrificando a suavidade

dando asas ao peso

para que ele possa se materializar


preciso cometer este erro

e que seja bem sincero

indo ao encontro de um desespero

para me salvar




Um Dia

 



algumas poucas horas

se contadas, todas, não darão a soma para um dia

foi tudo que tive


tento achar um culpado nessa conta e não encontro

tento encontrar o erro e não enxergo

mas suspeito ser eu o erro e o culpado

por não aceitar que tudo impedia

que tudo negava

que tudo atravessava


hoje o tempo parece ser mais precioso

assim como queremos parar um por de sol

para que fique por mais tempo

enquanto o vemos, em todos os detalhes

as cores e formas, tão belas


suspeito ter conhecido o impossível

por mais belo e profundo que seja

e foi como querer chegar no horizonte

que se desdobrava para longe cada vez que eu ia


vou tentar me explicar por dentro

só não sei por onde começar

pois sou mais aluno que professor

tenho mais dúvidas que certezas

e nada aprendi direito


no momento, prefiro apenas caminhar 

caminhar entre os eucaliptos

até passar esse atravessamento

que vem, vai e volta sempre


caminhar, talvez, para respirar um pouco

olhando para as copas e o céu


no momento, é tudo que tenho

é tudo que posso fazer

nesse todo tempo do mundo

que parece não valer 

o pouco tempo daquele dia