terça-feira, 28 de abril de 2026

Sol

 




sim

cheguei no alto desse monte

no limite entre voar ou cair no chão

nesse instante que me cobra uma decisão


lá onde todas as cargas me pesam e descansam

sabendo do tempo breve que me demorarei

e do impasse sobre o que será levado

o que será deixado para trás


resolvo passar um pouco mais de tempo

me acampar enquanto chega uma noite fria

estelar uma pequena fogueira

e deixar que o fogo queime até cessar

como meu coração em brasa

buscando extinguir um sentimento


a mesma chama que vi em teus olhos

e que agora preciso que se apague

que não me aqueça mais

que cale as palavras que eu te disse

que as torne em silêncio e cinzas


tanto que eu queria a paz da escuridão

que me acolhesse no resfriar sereno da noite

que eu me tornasse algo sem memória

e sem qualquer lembrança 


nessa minha aurora

acordo sem norte ou destino

vencido ainda, pois de nada valeu meu esforço

visto que do horizonte, ainda mais forte, ascendia

o sol, estrela do meu dia....






segunda-feira, 13 de abril de 2026

Uma ode à alegria


cantar, cantar pra dentro

cantar o meu tormento que parece não ter fim


se chego ao fim parece uma chegada

uma nova estrada pra dentro de mim

sentir é pranto, nuvem mais escura

cai no meu canto a falta de amor


fico isolado, lado do sem jeito

o lado do peito, o corte, o coração

mais que de lado, já não sei ao certo

se cheguei no centro desse furacão


abro a camisa, vento no meu peito

corpo que anuncia uma nova estação

se a chuva cai, leve em sua calma

lava minha alma seca do Sertão


sei que o caminho agora não tem volta

porque escolhas são o que se quer

não cruzo a linha vermelha por nada

só quero que você seja feliz


se o mal-me-quer é a pétala que falta

vai, segue em frente sem olhar pra trás

escolho ser quem não invade o espaço 

da minha metade, para nunca mais


por isso eu fiz essa sinfonia

que marca o dia do adeus

não tem concerto nem cantoria

pauto a minha vida agora sem você


só sei sentir, talvez demais

entrar num mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que amei de perto


só sei sentir, talvez demais

entrei no mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que é amar de perto


Nota - Começou como um poema, mas virou canção. Não resisti em trazer Beethoven (mestre que parece ter tocado as estrelas) com o tema da Nona Sinfonia, com uma sutil alteração modal e realizar o refrão com o prelúdio em Sol para cello de Bach (gênio imortal). E quando digo "fiz essa sinfonia", aborda o conceito do grego de sons juntos. Assim, juntei esses temas eternos no arranjo.

(Inspirada no longa metragem de Matheus Augusto, "Nosso Mundo Meu")

Link para a composição musical sobre a letra.




quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Como dois e dois

 


preciso equacionar minha vida

buscar a matemática, ao invés de me quebrar em pensamentos

do Zéfiro ao infinito, encontrar um teorema

que me dê melhores estimativas que esta mera tabuada de dias seguidos


preciso reaprender a somar os bons momentos

subtrair os que foram indesejáveis

dividir as alegrias

mesmo que em muitas investidas tenha eu igualado a zero


guardar segredos em nova matriz

encontrar a raiz dos problemas mal resolvidos

encontrar os valores incógnitos, quer sejam mais ou sejam menos


quem sabe eu encontre um caminho periódico, que não se repete

mesmo em companhia dos pares, dos primos


mesmo multiplicando as incertezas

vou rabiscar mil cálculos de pedras preciosas

formando colares e terços infindos

rabiscar mil palavras, poemas diversos

na areia da praia, esperando o apagar das ondas marinhas

a me dizer: era apenas risco na areia, no mar, nada






Passarela

 


é hora de dobrar a esquina

antes de ser atropelado pela desistência

é hora de trocar a cidade pelo vilarejo de dentro

aquele abandonado, empoeirado pelo tempo

esse velho endereço escondido pelo futuro

este monumento que não é invulnerável ao tempo


talvez seja necessário transportá-lo para a metafísica da arte

que é onde se pode eternizar uma flor, mesmo que passem muitas estações

ingenuamente, mas, com simplicidade

e desde que ao revisitar essa representação lhe venha um sorriso


é hora de não ter hora certa, de dar tempo

e ser como o tempo que muda

tornar inevitável o ser para além de qualquer modelo

para além do olhar de todos que estão aquém do seu

olhar esse, talvez, perdido

que espera tanto algo acontecer

esse que nem se vê

nem mesmo diante dum espelho

olhar de pedra, paralelepípedo

nesta via sem passarela



domingo, 20 de abril de 2025

Cacarecos


Não sei se por cansaço, não sei, dos redemoinhos, talvez, que não nos permite pensar
quando nada consola ou abre o dia, nessa pausa breve que muda o sentido é um momento das pequenas coisas. Coisas pequenas, sempre em volta, mínimas, as que têm apenas uma história própria.
Pequenos quebra-cabeças, miniaturas de todos os tipos, dadas por alguém. alguém conhecido, que se viveu por anos, ou apenas conheceu em um dia. Um amigo, um amor, um estranho...

Pedacinhos de papel, que se guarda por algum rabisco, como se fosse importante guardar.
Para guardar ridiculamente um momento.
cadernos de música com muitos escritos que não notas musicais, desenhos, versos...
Tantos papeis, pedrinhas, conchas pequenas, uma infinidade
Memória em pedaços que segredam seus valores, sem o valor aparente.
Coisas sem lugar, fora de lugar

Sei que tudo isso que não tem lugar cabe em mim e se uma delas sumisse, sentiria falta
e perceberia o lugar dela.
Só existem em nós. Nem é guardar coisas. O sentimento é que faz isso.

Nem sabia por que guardava com tanto cuidado, mas agora vejo mais claramente e terei cuidado se eu vir algo pequeno por aí. Pois pode ser de alguém.

E não.
isso não é um poema...




Dois Tons



Tem uma moça que é leve feito uma pluma
Mas não tem pena de quem a vê
Castiga sem dó aquele seu sorriso
Quieto querendo se esconder

Sei de  uma nuvem que é só dela
Como a vela dum barco no imenso mar
Que ora chove, ora parece pintura
Que esconde o sol e veste o luar

Ela some, ela vem à minha janela
Como flor abrindo seus botões
Breve ciranda faceira
Meninas dos olhos de dois tons

Se muda seu tempo, sai de baixo
Perigoso raio de olhar peregrino
Mas se se acalma, é doce e mansa fera
É sorte de quem se desespera
É norte e sul
Perdição e caminho
Paz e tormentos
Rosa dos ventos








sábado, 20 de abril de 2024


Calmaria




ali, o mar...
era tudo.
não cabia nem pensar

mar vem
mar ia
mar que cambaleia

mar vivo, velho e novo

tecidos de água
dançando ventos marinhos
urdimentos suaves trançados na areia

e como um sentimento
d'um horizonte que suspende o peito
verga a água nua e solta
tomba e suspira no seu leito

mar e nada
mar e sempre...

permita-me um silêncio
pulsar, pulsar, pulsar...