preciso abrir essa porta
imagino...
essa que me abre para fora
e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral
com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente
com uma brisa que parece envolver o corpo
como um lençol invisível
leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros
preciso voltar para esses ares
que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto
para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite
faz todo o dia prometer inspiração
de cores e detalhes novos
belezas tão grandes que cabem numa canção
e como é bom transformar o olhar
reinventar a percepção
num espectro infinito
de sensibilidades possíveis
feito a mente duma criança
ou o coração de alguém apaixonado, aflito
ver tudo transformado
ver que nada é apenas o que é
que pode ter tantas narrativas que desconhecemos
mas que podemos descobrir
ou, sem o menor pudor, inventar
mais que nunca, preciso deste portal...
pra me mudar para o mundo da arte
para passear no verso das canções que gosto
preciso sim desta porta ou janela que eu fuja
deste estado de ambientes fechados
estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos
quero pegar meu violão
levá-lo como convidado e amigo
prestes a romper do silêncio para a cantiga
num tempo sem pressa
e talvez, de repente, apenas parar
recostá-lo num coqueiro
e caminhar, caminhar...




