domingo, 18 de outubro de 2026

O Bonde

 



lá vem o bonde

com seus metros de ferro e bronze

estridente e forte

glissando comas de sem-tons

na escala dos trilhos


esperam-no paralelas vidas

um amontoado de livros e histórias cruas

o velho espera o bonde,

a mala, a camisa, 

o doce do menino

também espera o bonde


lá vem vindo esse bonde

para o desespero de todos

ele vem sem esperar

sem dar tempo a nada

sem se importar com quem vai entrar

bastará apenas ocupar os acentos

o limite das cargas e das gentes

apenas seus pesos

e não o peso das partidas


lá vem o bonde

para atropelar qualquer sonho

imponderável

na razão do horário em cumprimento

atropelar no exato instante em que ele para


atropelar o doce

as cores das roupas na mala

e suas histórias sujas

atropelar tudo em silêncio


e para qualquer desejo à bordo

parte imediatamente

e convence de que é melhor não pensar nisso

pois o preço é igual para cada nome

Aula de música

 


aquele olhar é o meu caminho

e ele me atravessou como se respondesse tudo...


foi como uma luz que vinha do rosto dela

sorriso encantado

em suas mãos um violino

uma vez primeira do inesperado 

um brinquedo novo, desconhecido

o impossível, ali, em suas mãozinhas


e ela sorria, iluminada

mesmo com tão pouco que tem em sua vida

parcas as coisas, de roupas simples

cabelinho amarrado com uma fita

e eu a pensar: tudo que sei e que sou

é tão pequeno diante dessa grandeza

mas sei que deve ser para ela

o meu empenho, a minha luta


ela nem fazia ideia do que senti

nem sabia de minhas questões existenciais

da complexidade que é entender o mundo

e todas suas questões


agora aquela imagem é pra mim um guia

uma causa para qualquer travessia

para apagar qualquer dúvida que eu tenha

qualquer dor que eu sinta


aquele olhar, caminho meu

me respondeu












sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Mutatis mutandis

 


e eu que nem percebi que tinha mudado

do tanto que eu precisei, mas não podia

do tanto que eu me apeguei, mas não servia


hoje, depois de ter me revirado por dentro

de não saber como solucionar

acabei voltando para o centro


de mãos vazias

olhar apagado

e estranhamente apenas permanece uma apatia


hoje é como um tanto faz

pois já não estou mais a insistir

hoje, apenas me resume uma palavra

desistir


agora é quando não mais espero

pois o tempo já me respondeu


agora apenas esse silêncio

esse descanso dado ao meu coração


uma paz que também é um vazio

que importa, se de mim algo partiu

depois de ter castigado tanto o meu peito

apenas aceito




terça-feira, 6 de outubro de 2026

Vagalume

 



sempre quis encontrar um verso

que fosse uma chave para mudar uma vida

que fosse um abraço  de despedida

que apenas me desse mais emoção


e ele parece estar silencioso

ou talvez apenas me esperando quieto

ao lado e invisível

dando tempo pra o meu coração


aos poucos eu chego perto

busco ao vento encontrar o toque

na pele que aflora como uma estação


e sei que já parti ao seu encontro

no imaginário, no meu devaneio

quando tudo para e é só pensamento

que logo se finda e o que me resta

é só sentimento


sim, queria muito encontrar esta frase

que reverberasse em minha voz

que encontrasse um tom de harmonia

que me encantasse

que me atravessasse


ainda espero e não tenho pressa

só estou num caminho que me arremessa

pra esse imenso vazio

tão amplo e escuro


no meio deste breu espero pelo beijo

o abrir de meus olhos em frente ao espelho

e ver a centelha desse vagalume

essa nova estrela

esse novo signo

no meu olhar


domingo, 27 de setembro de 2026

Cai o pano

 


um dia cairá o pano

verá a resposta

o engano se revelará

mas será tarde demais

o incompreensível

o irreversível

será agora o jamais


um dia terá que engolir um sapo

o luxo, o trapo, o ter que aceitar

e esse dia apenas chegará

tão forte

imponente

quando o que se sente 

não mais valerá


um dia

tanto faz, será só mais um dia

na sequência que agora é o "até o fim"


um dia perceberá

que sempre foi você

apenas você e ninguém mais

o responsável pelo erro

pela permissão, a porta aberta

para essa visita incerta

para esse temporal


quem dera fosse ontem

e tomado outro caminho

se tivesse fechado a porta

ou quem sabe apenas negado

não teria encontrado

não teria vivido esse desatino

que sempre foi em outra direção


agora, já não importa mesmo o tempo perdido

importa apenas ser o recomeço

que valha a pena seguir, se por inteiro

ter a companhia que é fora e que é dentro

encontrar o centro  e o que é verdadeiro






terça-feira, 22 de setembro de 2026

Blumen

 



Perco-me no tempo quando a aurora é perto

noite que adentro sem pensar direito

quando o caminho se abre em dois

entre o sonho e o devaneio

um diz como estou

o outro, o que quero


encontro-me na encruzilhada entre o certo e o sentimento

um que me aponta o outro lado

o outro que me fez morada

e o corpo que não pode andar sozinho

sentindo vai de qualquer jeito

pois, qualquer lado, tanto faz

seria uma cruz pesando o peito


recosto-me à beira do caminho

acampo sem saber o quanto dura

pra passar por mim essa ferida

esse punhal que corta em face dupla.


passado o tempo, depois de todas dores

fica no corpo esta cicatriz

sei que agora o caminho é reto

e se abre em tempo de primavera

agora, uma outra vida

uma nova estrada









sábado, 5 de setembro de 2026

Partida

 





eu não conheço mais

o som de sua voz

sequer me lembro o tom

daquela canção, que nos tocava tanto...



não quis acreditar

que tudo que eu pensei ter encontrado em teu olhar

agora se apaga aqui dentro em mim

demora, eu sei, mas sempre se chega ao fim



talvez muito depois

se passares por mim

não esperarei teu olhar

faça como se eu fosse um qualquer

apenas só um homem e uma mulher



é só ir em frente

passos tranquilos

finja que não me viu



dobrarei a esquina

como quem nunca partiu


(letra de uma nova composição musical que espero gravar com meu amigo Ítalo)