sexta-feira, 12 de junho de 2026

Regresso

 

só um tolo é capaz de tantas proezas inconsequentes, 

numa noite ou num dia quente

como se comesse, como se começasse, comovesse

as tripas enlaçando o coração

e o sangue não mais viesse, para prometer a redenção

tudo como de costume e mesmo que acostumasse, 

não saberia dizer qual a razão.

contudo, se na guerra entrasse

vermelho no céu da aurora como uma explosão

senhora, senha, código, digo que só me tem a sanha

cenho que traduz a cólera, talvez essa coleira a que me reduz


o cão que aspira a liberdade, que não faz questão sequer da humanidade

da pena que não vale o sentimento, da asa de ícaro que foge ao vento

do sol que dilacera e que derrete a cera 

saindo desse maldito labirinto que o deus do amor construiu


quem vai saber talvez dessa ingenuidade

não saberá do sabor que tem, o gosto da maldade

o peso que transporta o corpo, atravessado e morto

o caos da solidão


e o uivo ressoa no vale, como o silêncio em meio a multidão

um canto de banalidades neste parque vil de diversões

caminho, pois, entre esses tantos e tantas

que urgentes marcham com tantas coisas por fazer

ignorando a intimidade sobreposta com os planos

castelos e contos, as contas, e todos os modelos ideais


recebo, porém, o olhar das crianças, essas que me veem quando ao passar

e se tenho delas um sorriso, ganho esperança e penso em algo melhor me tornar 

tornando-me o que foi esquecido, mudando de rumo para o meu regresso

talvez eu sendo novamente tolo, mas sempre acreditando ser sempre verdade

posso estar muito errado, mas para mim, isso é o que espero da humanidade.








segunda-feira, 8 de junho de 2026

Espera


 às vezes não sabemos bem lidar com a espera

se é algo que devora inteiro ou a metade

às vezes só queremos ter uma resposta

do que não se sabe só pra entender


se o sentimento não sabe ver hora

confunde o agora, agoura o depois

devemos ter de fato só um pensamento

pra cuidar do corpo quando se está só


precisa ter cuidado, sentido do vento

ver pra onde leva, onde vai parar

só pra depois voar numa ventania

mergulhar no céu, pipa de coração


tão longo esse cordão, que fica em outra mão

tão fino tremulando quase se partindo

vida por um fio, acorda esse menino

quando o vento muda sua direção


a espera é um fio que vai esticando

feito uma corda de um violão

se passa do tom e não mais afina

perde a harmonia de nossa canção








sábado, 6 de junho de 2026

Ingenuidade

 



quando eu era jovem, tinha um olhar mais puro

como quem não cresceu direito, parado no tempo

de uma ingenuidade e gentileza quase carinhosa

sempre a crer que diziam a verdade


imaginava demais, tantos devaneios

havia algo no ar que era inspirador

acreditava em qualquer pessoa

acreditava no amor


me importava mais com os mínimos detalhes

que sempre desapercebidos

ficavam quase que escondidos 

diante de todo olhar comum


me encantava com a beleza

que há em tudo, em todos

e achava que qualquer um merecia mais que eu,

o que quer que fosse


mas a vida foi me consumindo

em cada nova experiência uma nova lição

muitas investidas em que me pus aberto

senti o frio, a dor e o erro

como quem está na contra-mão


depois de colecionado muitas perdas, muitos enganos

ainda assim prefiro ser aquele menino

e não ficar brigando com o destino

e aprender de vez a não ter planos


hoje um silêncio me atravessa

e nem sei qual lição aprenderei

só me sinto como naquele tempo

colhendo os frutos de minha ingenuidade

e do amor que acreditei








sexta-feira, 5 de junho de 2026

Correnteza

 

bem mais perto, logo à porta 

o que se abre, incerto e imenso 

pra mais uma vez eu entrar nesse mundo revirado

sem apoio que me acompanhe 

para me equilibrar nessa correnteza 


é preciso ser forte para se estar só

é preciso ter coragem para dividir a vida com alguém

a coragem de arriscar quando a única certeza 

é que se tornará vulnerável 

justamente por entender que há limites 

que ora são passagens, ora simplesmente pontes intransponíveis 


olho meu caminho com a medida do tempo 

por isso espero, antes de qualquer movimento 

que me lance em mar aberto, antes de voltar ao centro

não se sabe o que virá 

não se sabe como será 


por enquanto, apenas essa vontade 

que me retorna, que me cobra a existência 

por enquanto, ausência 

talvez veleidades 






domingo, 24 de maio de 2026

O simples




eu aqui de novo, querendo me resolver escrevendo

quando a falta reclama no corpo

de novo procurando articular qualquer palavra ou frase que me acalme

que me peça um pouco mais de tempo

sem um prazo definido

para romper com essa espera que é tão inerte


se o bonde anda com seu peso e não dá pra parar

assim, de repente

mesmo que seja o que mais preciso

quando o que mais preciso é o mais simples


invejo os que aí por perto

vão à padaria, comprar pão

invejo-os simplesmente por estarem aí

e é tão pouco, mas pra mim seria tudo, seria tanto


palavras são insustentáveis

permanecem em nossa companhia para ajudar com o tempo

enquanto que dizê-las nos torna um pouco mais serenos

como se fizesse alguma coisa, ao menos


mas sinto o passo, lento, o caminhar no rumo

me levar pra perto, pra sem mais palavras

o simples estar, silenciá-las






terça-feira, 19 de maio de 2026

Meu presente...





Queria ser uma cantiga

Pra voar por sobre as flores

Visitar todas as cores

E entrar pela janela



Do teu quarto, de mansinho

Te acordar devagarinho

Do teu sono encantado

Como se eu fosse um Beija-Flor



E você fosse um lírio

O mais belo do caminho

E um canto de passarinho

Acordaria o meu amor



Suave abrir de teus olhos

Serenos, pousando nos meus

Meus lábios sorrindo, nos teus

Com um beijo celebraria



Feliz, o raiar de teu dia

Teu Maio, minha alegria

Meu sol

Minha canção



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Erro



 

preciso cometer um erro

urgentemente...

sabendo exatamente pra o que serve

e que, depois,  me faça arrepender 


um que seja a expressão do que não quero

e que confunda tudo que espero

e não me permita retornar


preciso cometer um erro nada belo

e esse não poderei errar

terá que ser esculpido cuidadosamente

adentrando na mármore realidade

petrificando a suavidade

dando asas ao peso

para que ele possa se materializar


preciso cometer este erro

e que seja bem sincero

indo ao encontro de um desespero

para me salvar