terça-feira, 1 de setembro de 2026

Museu do mundo

 


não, o texto não consola

alívio? Talvez...

parece apenas ser um caminho que se pega

para desviar dos trilhos retos

ou duros demais


no fundo, tem uma esperança 

como se pudesse dali brotar algum calor

para resolver esse frio, essa anestesia

ou uma dor, que seja

quebrar esse argumento de obviedades

causar um novo efeito

para ressuscitar o movimento

dar uma nova forma a essa pedra 

que pertence a uma outra era

do museu do mundo


o olhar que contornando uma escultura quase soterrada

percorre essa pequena parte do corpo para adivinhar a sua forma

para se surpreender, descobrir

como se temesse ser maravilhoso o que viesse a encontrar


mas é apenas uma ruina

frágil a se fragmentar, tonando-se areia

sem nos revelar o segredo, enfim

algo melhor que qualquer truque de mágica

que fosse contra todas as leis da física

e do entendimento humano, em qualquer campo

um espanto!


não, meu amigo, minha amiga

o texto cava mais fundo

submerge a um outro mundo

aquele que se diz: interior

está em algum lugar que não conhece a gravidade

não respeita o tempo, nem a geometria que desenha os mapas

brinca com o impossível, ri da realidade

faz malabarismos com o leitor

questiona o controle de quem escreve

finge ser bem comportado enquanto é traidor

é ponte por onde passa nossa vontade

é rede que pesca o pescador


 






domingo, 30 de agosto de 2026

Sem permissão

 




é preciso ter cuidado com a fragilidade que sustenta a vida 

saber a grandeza que tem o afeto 

ter a mínima ideia de quem sente

pra guiar o mínimo movimento, sabiamente


mesmo na intransponível intimidade

onde se guarda segredos

neste recinto de palavras mudas

de escritos leves em folhas finas

tão delicadas, evitando o toque

o sentimento repousa, para não acordar


mas se desperta, se alguém invade

se a palavra rompe o silêncio

se agora ela canta, plena em seu reverberar

se agora ecoa na casa do corpo

em tons inesperados

é preciso cuidar e ter cuidado

é preciso interpretar


verbo que apenas sente, sem se conjugar

que já não tem significado

apenas sonoridade, corpo em vibração

mesmo na pausa, nunca cessa

valsa que levita os passos

e em silêncio, a pulsação


simplesmente cuidado

o se importar com a sensibilidade

algo além da própria vontade

que acima brilha feito o sol


amar é o mais profundo respeito

é abraçar toda e qualquer partida

e apenas saber que a vida

não pede permissão








quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Aflora

 



não sei como tirar de mim aquele olhar

que ainda me acompanha, que ressurge silente

na pausa de momentos quietos

nem sei por que permanece


se os dias correm em um momento

noutros andam lentamente

e me fazem perceber a calma que a natureza tem

como se me perguntasse, o que ando fazendo?


ela me ensina que todo movimento tem um retorno

um oscilar que move o coração da vida

que por mais que se disperse 

não se acaba, não se finda 


e sei que mesmo fragmentado meu sentimento

o pó de meus amores, minhas dores, se torna nuvem

e de vez em quando, quando menos espero

cai suave chuva em meu rosto


é quando olho para cima

e não sei se trago um sorriso ou um choro

só sei que neste instante em que a saudade aflora

me demora...


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Rebanhos

 



o tempo mudou

do céu claro e azul para nuvens cinzas

uma neblina fina cai, chapiscando essa tela

como um véu de silêncio e mistério

um silenciar de sonhos com incertezas de orvalho


sim, é leve como o esquecimento


estranho poder olhar nesse espelho do tempo

sem me reconhecer por dentro

e perguntar, onde me perdi?


mais estranho ainda é ter nas coisas banais

o motivo que me projeta para o próximo dia

e, talvez, esperar que algo novo aconteça

que possa tentar me abraçar, e que aqueça

esse corpo cismado e descrente


quem sabe a sorte me entregue esse pavio

para a mínima centelha de um olhar

me trazer de volta um sorriso


ou talvez romper essa muralha

para que eu possa soltar os meus rebanhos

e que do amor libertos

não me sejam mais estranhos




domingo, 2 de agosto de 2026

Nobreza

 



delicado...

como a última pétala que se soltou

dessa Margarida

se as flores são vida, se vivem as estações

lágrima caída no seu rosto

puro sentimento


complicado...

se a espada é uma palavra

afiada por todos os lados

melhor não deixar perto do coração

aquieta na bainha do silêncio

até passar a guerra


confuso...

entender ao certo o que se sente

desvendar o nó de tantos laços

sem saber se ganha, ou se se perde

nem o quanto custará em sua vida

chegar até a ponta

decisão


necessário...

tempo pra entender melhor

talvez sentir de outro jeito

até se tornar um corpo estranho

para preservar os outros

e encontrar algum lugar

no meio de tudo

que tenha a nobreza da imobilidade

mesmo sendo isso o sacrifício

de sua vontade









domingo, 26 de julho de 2026

Árvore

 



agora apenas corpo, trabalho e caminho

pra que pensar mesmo?


não vale a pena o que não tem jeito

se acostumei a sempre querer voltar,

guardar sempre essa esperança,

agora apenas corpo, trabalho e andar...


seguir é dar as mãos ao tempo

pedir uma pausa ao sentimento

e cuidar desse pobre coração

ter na paz uma meta de harmonia

respirar sem dor, sem agonia

e cuidar do corpo, do trabalho e do estradar


corpo, trabalho e caminho...

sem olhar pro lado

corpo, trabalho e caminho...

basta olhar pra frente.


já não quero nada ruim em meu peito

nenhum despeito, desespero, rancor

só quero flores pequeninas a cobrirem esse monte

sentir o vento entre as cores, dando movimento, respirar...

lembrar de tudo que merece ser lembrado

e esquecer, esquecer, esquecer...

e se for preciso, afastar, afastar...


devo, sinceramente, aprender com as árvores

parecem solitárias, mas autônomas em sua copa

os pássaros fazem ninhos, a acordam antes da aurora

servem de haste para um balanço para uma criança brincar

fazer casa-da-árvore, viver fantasias

ser onde escrevem seus nomes

onde a boiada repousa, fugindo do sol


sim, preciso aprender com elas

lembrar que tenho raízes

mudar a cada estação

e mesmo depois de morta

ser uma porta, um violão

ter novas histórias, ser uma janela

onde a mais bela fica a olhar a rua

vendo a banda passar


ser onde se recosta um outro corpo, cama

uma ferramenta de um trabalhador

e ser uma ponte

seja lá pra onde for



segunda-feira, 20 de julho de 2026

Casca




não tenho tempo para sentir

tão ocupado que está meu tempo 

e a responsabilidade me obriga a seguir 


tão estranho fica o corpo

desconfiado dessa estabilidade 

que mais parece um salva-vidas 


jogo essa pedra para cima

sem esperar que caia

imaginando que corrompeu a gravidade 


sigo, já faz um tempo 

nessa marcha de qualquer destino 

e receio o retorno do sentimento 


hoje não 

por sorte, ainda não 


quem sabe assim eu vá indefinidamente 

e faça nascer uma outra história 

sem as dores invisíveis 

e sem memórias