sábado, 6 de junho de 2026

Ingenuidade

 



quando eu era jovem, tinha um olhar mais puro

como quem não cresceu direito, parado no tempo

de uma ingenuidade e gentileza quase carinhosa

sempre a crer que diziam a verdade


imaginava demais, tantos devaneios

havia algo no ar que era inspirador

acreditava em qualquer pessoa

acreditava no amor


me importava mais com os mínimos detalhes

que sempre desapercebidos

ficavam quase que escondidos 

diante de todo olhar comum


me encantava com a beleza

que há em tudo, em todos

e achava que qualquer um merecia mais que eu,

o que quer que fosse


mas a vida foi me consumindo

em cada nova experiência uma nova lição

muitas investidas em que me pus aberto

senti o frio, a dor e o erro

como quem está na contra-mão


depois de colecionado muitas perdas, muitos enganos

ainda assim prefiro ser aquele menino

e não ficar brigando com o destino

e aprender de vez a não ter planos


hoje um silêncio me atravessa

e nem sei qual lição aprenderei

só me sinto como naquele tempo

colhendo os frutos de minha ingenuidade

e do amor que acreditei








sexta-feira, 5 de junho de 2026

Correnteza

 

bem mais perto, logo à porta 

o que se abre, incerto e imenso 

pra mais uma vez eu entrar nesse mundo revirado

sem apoio que me acompanhe 

para me equilibrar nessa correnteza 


é preciso ser forte para se estar só

é preciso ter coragem para dividir a vida com alguém

a coragem de arriscar quando a única certeza 

é que se tornará vulnerável 

justamente por entender que há limites 

que ora são passagens, ora simplesmente pontes intransponíveis 


olho meu caminho com a medida do tempo 

por isso espero, antes de qualquer movimento 

que me lance em mar aberto, antes de voltar ao centro

não se sabe o que virá 

não se sabe como será 


por enquanto, apenas essa vontade 

que me retorna, que me cobra a existência 

por enquanto, ausência 

talvez veleidades 






domingo, 24 de maio de 2026

O simples




eu aqui de novo, querendo me resolver escrevendo

quando a falta reclama no corpo

de novo procurando articular qualquer palavra ou frase que me acalme

que me peça um pouco mais de tempo

sem um prazo definido

para romper com essa espera que é tão inerte


se o bonde anda com seu peso e não dá pra parar

assim, de repente

mesmo que seja o que mais preciso

quando o que mais preciso é o mais simples


invejo os que aí por perto

vão à padaria, comprar pão

invejo-os simplesmente por estarem aí

e é tão pouco, mas pra mim seria tudo, seria tanto


palavras são insustentáveis

permanecem em nossa companhia para ajudar com o tempo

enquanto que dizê-las nos torna um pouco mais serenos

como se fizesse alguma coisa, ao menos


mas sinto o passo, lento, o caminhar no rumo

me levar pra perto, pra sem mais palavras

o simples estar, silenciá-las






segunda-feira, 4 de maio de 2026

Erro



 

preciso cometer um erro

urgentemente...

sabendo exatamente pra o que serve

e que, depois,  me faça arrepender 


um que seja a expressão do que não quero

e que confunda tudo que espero

e não me permita retornar


preciso cometer um erro nada belo

e esse não poderei errar

terá que ser esculpido cuidadosamente

adentrando na mármore realidade

petrificando a suavidade

dando asas ao peso

para que ele possa se materializar


preciso cometer este erro

e que seja bem sincero

indo ao encontro de um desespero

para me salvar




Um Dia

 



algumas poucas horas

se contadas, todas, não darão a soma para um dia

foi tudo que tive


tento achar um culpado nessa conta e não encontro

tento encontrar o erro e não enxergo

mas suspeito ser eu o erro e o culpado

por não aceitar que tudo impedia

que tudo negava

que tudo atravessava


hoje o tempo parece ser mais precioso

assim como queremos parar um por de sol

para que fique por mais tempo

enquanto o vemos, em todos os detalhes

as cores e formas, tão belas


suspeito ter conhecido o impossível

por mais belo e profundo que seja

e foi como querer chegar no horizonte

que se desdobrava para longe cada vez que eu ia


vou tentar me explicar por dentro

só não sei por onde começar

pois sou mais aluno que professor

tenho mais dúvidas que certezas

e nada aprendi direito


no momento, prefiro apenas caminhar 

caminhar entre os eucaliptos

até passar esse atravessamento

que vem, vai e volta sempre


caminhar, talvez, para respirar um pouco

olhando para as copas e o céu


no momento, é tudo que tenho

é tudo que posso fazer

nesse todo tempo do mundo

que parece não valer 

o pouco tempo daquele dia









terça-feira, 28 de abril de 2026

Sol

 




sim

cheguei no alto desse monte

no limite entre voar ou cair no chão

nesse instante que me cobra uma decisão


lá onde todas as cargas me pesam e descansam

sabendo do tempo breve que me demorarei

e do impasse sobre o que será levado

o que será deixado para trás


resolvo passar um pouco mais de tempo

me acampar enquanto chega uma noite fria

estelar uma pequena fogueira

e deixar que o fogo queime até cessar

como meu coração em brasa

buscando extinguir um sentimento


a mesma chama que vi em teus olhos

e que agora preciso que se apague

que não me aqueça mais

que cale as palavras que eu te disse

que as torne em silêncio e cinzas


tanto que eu queria a paz da escuridão

que me acolhesse no resfriar sereno da noite

que eu me tornasse algo sem memória

e sem qualquer lembrança 


nessa minha aurora

acordo sem norte ou destino

vencido ainda, pois de nada valeu meu esforço

visto que do horizonte, ainda mais forte, ascendia

o sol, estrela do meu dia....






domingo, 19 de abril de 2026

Minha Inspiração

 



Minha inspiração

foi em busca de uma canção

que dissesse

que confessasse

todos meus pecados que não cometi


foi em busca do meu violão

que desafinado deixei ao luar

tão prateado, tão cinza e vazio

sob um céu estrelado

numa noite de frio


A minha inspiração saiu

saiu sim

pela porta do fundo

pela pausa do verso

pelo cais do meu mundo

partido, incompleto


E a palavra ficou esquecida

talvez enterrada em algum lugar

quem sabe ela esteja aqui bem perto

ou aqui dentro ela fez me calar


Minha inspiração ficou

ficou sem jeito de se aproximar

desse corpo que tem tanto medo

de de novo cantar esse corte

feito a música de Belchior


ela ao menos me tem cuidado

no instante da delicadeza

no instante em que eu desisto

única mão que me toca

e que pode me resgatar


minha inspiração é tudo que me resta

mas nunca mais quero saber os motivos

que a fazem nunca sair de perto...