(letra de uma nova composição musical que espero gravar com meu amigo Ítalo)
Escrever é uma forma de aproximar-se do outro e de si mesmo. Poesia como forma de criar alívios.
(letra de uma nova composição musical que espero gravar com meu amigo Ítalo)
não, o texto não consola
alívio? Talvez...
parece apenas ser um caminho que se pega
para desviar dos trilhos retos
ou duros demais
no fundo, tem uma esperança
como se pudesse dali brotar algum calor
para resolver esse frio, essa anestesia
ou uma dor, que seja
quebrar esse argumento de obviedades
causar um novo efeito
para ressuscitar o movimento
dar uma nova forma a essa pedra
que pertence a uma outra era
do museu do mundo
o olhar que contornando uma escultura quase soterrada
percorre essa pequena parte do corpo para adivinhar a sua forma
para se surpreender, descobrir
como se temesse ser maravilhoso o que viesse a encontrar
mas é apenas uma ruina
frágil a se fragmentar, tonando-se areia
sem nos revelar o segredo, enfim
algo melhor que qualquer truque de mágica
que fosse contra todas as leis da física
e do entendimento humano, em qualquer campo
um espanto!
não, meu amigo, minha amiga
o texto cava mais fundo
submerge a um outro mundo
aquele que se diz: interior
está em algum lugar que não conhece a gravidade
não respeita o tempo, nem a geometria que desenha os mapas
brinca com o impossível, ri da realidade
faz malabarismos com o leitor
questiona o controle de quem escreve
finge ser bem comportado enquanto é traidor
é ponte por onde passa nossa vontade
é rede que pesca o pescador
é preciso ter cuidado com a fragilidade que sustenta a vida
saber a grandeza que tem o afeto
ter a mínima ideia de quem sente
pra guiar o mínimo movimento, sabiamente
mesmo na intransponível intimidade
onde se guarda segredos
neste recinto de palavras mudas
de escritos leves em folhas finas
tão delicadas, evitando o toque
o sentimento repousa, para não acordar
mas se desperta, se alguém invade
se a palavra rompe o silêncio
se agora ela canta, plena em seu reverberar
se agora ecoa na casa do corpo
em tons inesperados
é preciso cuidar e ter cuidado
é preciso interpretar
verbo que apenas sente, sem se conjugar
que já não tem significado
apenas sonoridade, corpo em vibração
mesmo na pausa, nunca cessa
valsa que levita os passos
e em silêncio, a pulsação
simplesmente cuidado
o se importar com a sensibilidade
algo além da própria vontade
que acima brilha feito o sol
amar é o mais profundo respeito
é abraçar toda e qualquer partida
e apenas saber que a vida
não pede permissão
não sei como tirar de mim aquele olhar
que ainda me acompanha, que ressurge silente
na pausa de momentos quietos
nem sei por que permanece
se os dias correm em um momento
noutros andam lentamente
e me fazem perceber a calma que a natureza tem
como se me perguntasse, o que ando fazendo?
ela me ensina que todo movimento tem um retorno
um oscilar que move o coração da vida
que por mais que se disperse
não se acaba, não se finda
e sei que mesmo fragmentado meu sentimento
o pó de meus amores, minhas dores, se torna nuvem
e de vez em quando, quando menos espero
cai suave chuva em meu rosto
é quando olho para cima
e não sei se trago um sorriso ou um choro
só sei que neste instante em que a saudade aflora
me demora...
o tempo mudou
do céu claro e azul para nuvens cinzas
uma neblina fina cai, chapiscando essa tela
como um véu de silêncio e mistério
um silenciar de sonhos com incertezas de orvalho
sim, é leve como o esquecimento
estranho poder olhar nesse espelho do tempo
sem me reconhecer por dentro
e perguntar, onde me perdi?
mais estranho ainda é ter nas coisas banais
o motivo que me projeta para o próximo dia
e, talvez, esperar que algo novo aconteça
que possa tentar me abraçar, e que aqueça
esse corpo cismado e descrente
quem sabe a sorte me entregue esse pavio
para a mínima centelha de um olhar
me trazer de volta um sorriso
ou talvez romper essa muralha
para que eu possa soltar os meus rebanhos
e que do amor libertos
não me sejam mais estranhos
delicado...
como a última pétala que se soltou
dessa Margarida
se as flores são vida, se vivem as estações
lágrima caída no seu rosto
puro sentimento
complicado...
se a espada é uma palavra
afiada por todos os lados
melhor não deixar perto do coração
aquieta na bainha do silêncio
até passar a guerra
confuso...
entender ao certo o que se sente
desvendar o nó de tantos laços
sem saber se ganha, ou se se perde
nem o quanto custará em sua vida
chegar até a ponta
decisão
necessário...
tempo pra entender melhor
talvez sentir de outro jeito
até se tornar um corpo estranho
para preservar os outros
e encontrar algum lugar
no meio de tudo
que tenha a nobreza da imobilidade
mesmo sendo isso o sacrifício
de sua vontade
agora apenas corpo, trabalho e caminho
pra que pensar mesmo?
não vale a pena o que não tem jeito
se acostumei a sempre querer voltar,
guardar sempre essa esperança,
agora apenas corpo, trabalho e andar...
seguir é dar as mãos ao tempo
pedir uma pausa ao sentimento
e cuidar desse pobre coração
ter na paz uma meta de harmonia
respirar sem dor, sem agonia
e cuidar do corpo, do trabalho e do estradar
corpo, trabalho e caminho...
sem olhar pro lado
corpo, trabalho e caminho...
basta olhar pra frente.
já não quero nada ruim em meu peito
nenhum despeito, desespero, rancor
só quero flores pequeninas a cobrirem esse monte
sentir o vento entre as cores, dando movimento, respirar...
lembrar de tudo que merece ser lembrado
e esquecer, esquecer, esquecer...
e se for preciso, afastar, afastar...
devo, sinceramente, aprender com as árvores
parecem solitárias, mas autônomas em sua copa
os pássaros fazem ninhos, a acordam antes da aurora
servem de haste para um balanço para uma criança brincar
fazer casa-da-árvore, viver fantasias
ser onde escrevem seus nomes
onde a boiada repousa, fugindo do sol
sim, preciso aprender com elas
lembrar que tenho raízes
mudar a cada estação
e mesmo depois de morta
ser uma porta, um violão
ter novas histórias, ser uma janela
onde a mais bela fica a olhar a rua
vendo a banda passar
ser onde se recosta um outro corpo, cama
uma ferramenta de um trabalhador
e ser uma ponte
seja lá pra onde for