(letra de uma nova composição musical que espero gravar com meu amigo Ítalo)
Escrever é uma forma de aproximar-se do outro e de si mesmo. Poesia como forma de criar alívios.
(letra de uma nova composição musical que espero gravar com meu amigo Ítalo)
não, o texto não consola
alívio? Talvez...
parece apenas ser um caminho que se pega
para desviar dos trilhos retos
ou duros demais
no fundo, tem uma esperança
como se pudesse dali brotar algum calor
para resolver esse frio, essa anestesia
ou uma dor, que seja
quebrar esse argumento de obviedades
causar um novo efeito
para ressuscitar o movimento
dar uma nova forma a essa pedra
que pertence a uma outra era
do museu do mundo
o olhar que contornando uma escultura quase soterrada
percorre essa pequena parte do corpo para adivinhar a sua forma
para se surpreender, descobrir
como se temesse ser maravilhoso o que viesse a encontrar
mas é apenas uma ruina
frágil a se fragmentar, tonando-se areia
sem nos revelar o segredo, enfim
algo melhor que qualquer truque de mágica
que fosse contra todas as leis da física
e do entendimento humano, em qualquer campo
um espanto!
não, meu amigo, minha amiga
o texto cava mais fundo
submerge a um outro mundo
aquele que se diz: interior
está em algum lugar que não conhece a gravidade
não respeita o tempo, nem a geometria que desenha os mapas
brinca com o impossível, ri da realidade
faz malabarismos com o leitor
questiona o controle de quem escreve
finge ser bem comportado enquanto é traidor
é ponte por onde passa nossa vontade
é rede que pesca o pescador
é preciso ter cuidado com a fragilidade que sustenta a vida
saber a grandeza que tem o afeto
ter a mínima ideia de quem sente
pra guiar o mínimo movimento, sabiamente
mesmo na intransponível intimidade
onde se guarda segredos
neste recinto de palavras mudas
de escritos leves em folhas finas
tão delicadas, evitando o toque
o sentimento repousa, para não acordar
mas se desperta, se alguém invade
se a palavra rompe o silêncio
se agora ela canta, plena em seu reverberar
se agora ecoa na casa do corpo
em tons inesperados
é preciso cuidar e ter cuidado
é preciso interpretar
verbo que apenas sente, sem se conjugar
que já não tem significado
apenas sonoridade, corpo em vibração
mesmo na pausa, nunca cessa
valsa que levita os passos
e em silêncio, a pulsação
simplesmente cuidado
o se importar com a sensibilidade
algo além da própria vontade
que acima brilha feito o sol
amar é o mais profundo respeito
é abraçar toda e qualquer partida
e apenas saber que a vida
não pede permissão
não sei como tirar de mim aquele olhar
que ainda me acompanha, que ressurge silente
na pausa de momentos quietos
nem sei por que permanece
se os dias correm em um momento
noutros andam lentamente
e me fazem perceber a calma que a natureza tem
como se me perguntasse, o que ando fazendo?
ela me ensina que todo movimento tem um retorno
um oscilar que move o coração da vida
que por mais que se disperse
não se acaba, não se finda
e sei que mesmo fragmentado meu sentimento
o pó de meus amores, minhas dores, se torna nuvem
e de vez em quando, quando menos espero
cai suave chuva em meu rosto
é quando olho para cima
e não sei se trago um sorriso ou um choro
só sei que neste instante em que a saudade aflora
me demora...
o tempo mudou
do céu claro e azul para nuvens cinzas
uma neblina fina cai, chapiscando essa tela
como um véu de silêncio e mistério
um silenciar de sonhos com incertezas de orvalho
sim, é leve como o esquecimento
estranho poder olhar nesse espelho do tempo
sem me reconhecer por dentro
e perguntar, onde me perdi?
mais estranho ainda é ter nas coisas banais
o motivo que me projeta para o próximo dia
e, talvez, esperar que algo novo aconteça
que possa tentar me abraçar, e que aqueça
esse corpo cismado e descrente
quem sabe a sorte me entregue esse pavio
para a mínima centelha de um olhar
me trazer de volta um sorriso
ou talvez romper essa muralha
para que eu possa soltar os meus rebanhos
e que do amor libertos
não me sejam mais estranhos
delicado...
como a última pétala que se soltou
dessa Margarida
se as flores são vida, se vivem as estações
lágrima caída no seu rosto
puro sentimento
complicado...
se a espada é uma palavra
afiada por todos os lados
melhor não deixar perto do coração
aquieta na bainha do silêncio
até passar a guerra
confuso...
entender ao certo o que se sente
desvendar o nó de tantos laços
sem saber se ganha, ou se se perde
nem o quanto custará em sua vida
chegar até a ponta
decisão
necessário...
tempo pra entender melhor
talvez sentir de outro jeito
até se tornar um corpo estranho
para preservar os outros
e encontrar algum lugar
no meio de tudo
que tenha a nobreza da imobilidade
mesmo sendo isso o sacrifício
de sua vontade
agora apenas corpo, trabalho e caminho
pra que pensar mesmo?
não vale a pena o que não tem jeito
se acostumei a sempre querer voltar,
guardar sempre essa esperança,
agora apenas corpo, trabalho e andar...
seguir é dar as mãos ao tempo
pedir uma pausa ao sentimento
e cuidar desse pobre coração
ter na paz uma meta de harmonia
respirar sem dor, sem agonia
e cuidar do corpo, do trabalho e do estradar
corpo, trabalho e caminho...
sem olhar pro lado
corpo, trabalho e caminho...
basta olhar pra frente.
já não quero nada ruim em meu peito
nenhum despeito, desespero, rancor
só quero flores pequeninas a cobrirem esse monte
sentir o vento entre as cores, dando movimento, respirar...
lembrar de tudo que merece ser lembrado
e esquecer, esquecer, esquecer...
e se for preciso, afastar, afastar...
devo, sinceramente, aprender com as árvores
parecem solitárias, mas autônomas em sua copa
os pássaros fazem ninhos, a acordam antes da aurora
servem de haste para um balanço para uma criança brincar
fazer casa-da-árvore, viver fantasias
ser onde escrevem seus nomes
onde a boiada repousa, fugindo do sol
sim, preciso aprender com elas
lembrar que tenho raízes
mudar a cada estação
e mesmo depois de morta
ser uma porta, um violão
ter novas histórias, ser uma janela
onde a mais bela fica a olhar a rua
vendo a banda passar
ser onde se recosta um outro corpo, cama
uma ferramenta de um trabalhador
e ser uma ponte
seja lá pra onde for
não tenho tempo para sentir
tão ocupado que está meu tempo
e a responsabilidade me obriga a seguir
tão estranho fica o corpo
desconfiado dessa estabilidade
que mais parece um salva-vidas
jogo essa pedra para cima
sem esperar que caia
imaginando que corrompeu a gravidade
sigo, já faz um tempo
nessa marcha de qualquer destino
e receio o retorno do sentimento
hoje não
por sorte, ainda não
quem sabe assim eu vá indefinidamente
e faça nascer uma outra história
sem as dores invisíveis
e sem memórias
me dói esse passo
esse que agora tenho que dar
caminho de olhos fechados
e apenas essa direção incógnita
é o meu caminho
que Deus guarde meu caminhar
porque os destinos ainda não me acolhem
sequer são destinos
que eu apenas vá
todos meus sentidos já estão cansados de lutar
e precisam de algum descanso
e eu de um recomeço...
eu já devia ter entendido
ter crescido
aprendido
já devia ter mudado
desacreditado
isso já devia me ter sido revelado
já devia ter saído
acabado
ter sido esquecido
ter me cansado
desistido
eu já devia
devo, não nego
pago quando puder
só está comigo
nem sei mais por que
por tanto tempo
não entendo
portanto, me rendo
que fique, que viva
que permaneça
que sobreviva o quanto quiser
se não posso lutar, eu abraço
eu escondo nesse silêncio
com todo carinho
com todo cuidado
só não quero perder a ingenuidade
que me tornou quem eu sou
só assim não me perco de mim
só assim não minto
admito
sigo
e não vou parar
bem lá
no horizonte da sertania
em giro aberto, no centro nordeste da solidão, surgia
o sol trazendo a borda incandescente, feito a beirada dum chapéu
levante dum cangaço chispando estrelas no encourado contra o céu
passo curto, corrido, aprumado que varia conforme o caminho
é o couro cozido, desquinado, é o fio, é a lã, é o linho
é o vaqueiro que enfrenta Lubião
lua nascendo no cume da serra
sonho desacordado que erra
no meio da escuridão
pêlo, crina, cela e destino
esperança que vai consumindo
no lombo do seu prateado
no trote, galope que ferra
o catravo dessa montaria
vai pelo descampado da terra,
na descida, é vereda, é ventania
mão-de-pilão não aponta o dedo
pra o coração do corpo fechado
vai pilando a tristeza, a esperança,
a lembrança no tempo cortado,
o verso perdendo o rimado
misturando no pó da estrada
a cantiga dessa cantoria
o improviso que é um quase nada
pro tamanho que foi do meu dia
tem aquelas onde a beleza é imperiosa
e exercem um domínio natural que se expande
que torna o estar em subjugar-se
como uma ideia fixa interminável
que habita por um longo tempo sem querer sair
até o corpo finalmente expurgar, deixando marcas de guerra
também aquelas que conquistam
com pensamentos, presença de mistérios
abismos mágicos de cores e formas, pinturas
e são do campo do impossível
essa coisa que nos prende pela estrutura
nos afasta pelo respeito e nos une pela arte
tem as que são demasiado dos momentos
sem pensar direito deixando as coisas irem acontecendo
tornando-nos apenas pontes para uma travessia
e simplesmente passam, sabe-se lá para onde
sabe-se lá onde o afeto se esconde
outras nos adotam, como algo que escolheu
experimentam momentos e lugares
encontros e viagens como se fôssemos algo delas
até cansar, até não se importar
até cortar o tédio, como se fosse o melhor remédio
tem as que trazem um mundo com elas
que superpõem fantasias sobre a realidade
talvez os seus projetos mui tradicionais
embora com afetos, os planos valem mais
tem as que são bem mais do que esperamos
que faz nosso mundo explodir em vida
dão sentido a qualquer coisa, mesmo tola
nos enriquecem, nos torna ao que somos
depois vão embora, pra bem longe
tem as que não sei contar
talvez nem mesmo eu possa fazer isso
melhor eu nem tentar, apenas aceitar este caminho
este destino que me chama, por todos os lados
para seguir só, abrir as portas e sair
e nunca mais deixar alguém entrar
muita coragem vejo
nesses que adentram em ruinas
onde tudo agora é frágil
muito cuidado ao pisar, sem sucumbir
sem magoar as vidas fragilizadas pelo tremor
agora o coração é que treme
é que teme e tem esperança
e as mãos destes parteiros do renascimento
cegas, garimpam vidas sem saber
se ali embaixo se encontra um amigo
um amor, uma criança, talvez agora sem família
tantas narrativas rotas
tantas dores nascidas deste trauma
que habita no corpo, na alma
sem crer que o motivo disso tudo foi natural
jamais seremos capazes de entender, jamais
o por quê desta fatalidade sem aviso
de tantas vidas que ainda agonizam
perdendo a esperança a cada instante
contando com a sorte de que um desses anjos
possam as encontrar
esses são os que mais sofrem
os que verdadeiramente sofrem
privados para sempre de um entendimento
com a única resposta, o sentimento
só sei o tanto que são inúteis esses versos
mesmo eu querendo beijar teus olhos fechados
para dizer a dor que me amarra os braços
de longe, bem longe
e essa dor tão perto...
[Dói demais acompanhar a situação da Venezuela após os terremotos. Celebro cada vida encontrada nos escombros, enalteço cada pessoa que se arrisca pelas vidas e choro por cada família que teve perdas...]
Hoje, apenas relendo para quem sabe aprender com minhas visões internas, já que não desejo entrar em redemoinho de versos repetidos. Muito já foi dito, pensado, sentido. Reler como revisitar o tempo passado e perceber os seus ciclos. Depois, talvez, retorne com algo novo. Mas que seja bem diferente destes caminhos trilhados ou destinos perdidos. Como a música, hoje, a pausa, o silêncio agora mais interno que nunca. Um trabalho interno lento, que escuta mais, aprende mais e espreita o salto para fora desta sela, cheia de armadilhas que renascem pelos cantos. Para elas, meu silêncio de sangue e pulsar do coração.
Polifonia (5/03/2013)
só um tolo é capaz de tantas proezas inconsequentes,
numa noite ou num dia quente
como se comesse, como se começasse, comovesse
as tripas enlaçando o coração
e o sangue não mais viesse, para prometer a redenção
tudo como de costume e mesmo que acostumasse,
não saberia dizer qual a razão.
contudo, se na guerra entrasse
vermelho no céu da aurora como uma explosão
senhora, senha, código, digo que só me tem a sanha
cenho que traduz a cólera, talvez essa coleira a que me reduz
o cão que aspira a liberdade, que não faz questão sequer da humanidade
da pena que não vale o sentimento, da asa de ícaro que foge ao vento
do sol que dilacera e que derrete a cera
saindo desse maldito labirinto que o deus do amor construiu
quem vai saber talvez dessa ingenuidade
não saberá do sabor que tem, o gosto da maldade
o peso que transporta o corpo, atravessado e morto
o caos da solidão
e o uivo ressoa no vale, como o silêncio em meio a multidão
um canto de banalidades neste parque vil de diversões
caminho, pois, entre esses tantos e tantas
que urgentes marcham com tantas coisas por fazer
ignorando a intimidade sobreposta com os planos
castelos e contos, as contas, e todos os modelos ideais
recebo, porém, o olhar das crianças, essas que me veem quando ao passar
e se tenho delas um sorriso, ganho esperança e penso em algo melhor me tornar
tornando-me o que foi esquecido, mudando de rumo para o meu regresso
talvez eu sendo novamente tolo, mas sempre acreditando ser sempre verdade
posso estar muito errado, mas para mim, isso é o que espero da humanidade.
às vezes não sabemos bem lidar com a espera
se é algo que devora inteiro ou a metade
às vezes só queremos ter uma resposta
do que não se sabe só pra entender
se o sentimento não sabe ver hora
confunde o agora, agoura o depois
devemos ter de fato só um pensamento
pra cuidar do corpo quando se está só
precisa ter cuidado, sentido do vento
ver pra onde leva, onde vai parar
só pra depois voar numa ventania
mergulhar no céu, pipa de coração
tão longo esse cordão, que fica em outra mão
tão fino tremulando quase se partindo
vida por um fio, acorda esse menino
quando o vento muda sua direção
a espera é um fio que vai esticando
feito uma corda de um violão
se passa do tom e não mais afina
perde a harmonia de nossa canção
quando eu era jovem, tinha um olhar mais puro
como quem não cresceu direito, parado no tempo
de uma ingenuidade e gentileza quase carinhosa
sempre a crer que diziam a verdade
imaginava demais, tantos devaneios
havia algo no ar que era inspirador
acreditava em qualquer pessoa
acreditava no amor
me importava mais com os mínimos detalhes
que sempre desapercebidos
ficavam quase que escondidos
diante de todo olhar comum
me encantava com a beleza
que há em tudo, em todos
e achava que qualquer um merecia mais que eu,
o que quer que fosse
mas a vida foi me consumindo
em cada nova experiência, uma nova lição
muitas investidas em que me pus aberto
senti o frio, a dor e o erro
como quem está na contra-mão
depois de colecionado muitas perdas, muitos enganos
ainda assim prefiro ser aquele menino
e não ficar brigando com o destino
e aprender de vez a não ter planos
hoje um silêncio me atravessa
e nem sei qual lição aprenderei
só me sinto como naquele tempo
colhendo os frutos de minha ingenuidade
e do amor que acreditei
bem mais perto, logo à porta
o que se abre, incerto e imenso
pra mais uma vez eu entrar nesse mundo revirado
sem apoio que me acompanhe
para me equilibrar nessa correnteza
é preciso ser forte para se estar só
é preciso ter coragem para dividir a vida com alguém
a coragem de arriscar quando a única certeza
é que se tornará vulnerável
justamente por entender que há limites
que ora são passagens, ora simplesmente pontes intransponíveis
olho meu caminho com a medida do tempo
por isso espero, antes de qualquer movimento
que me lance em mar aberto, antes de voltar ao centro
não se sabe o que virá
não se sabe como será
por enquanto, apenas essa vontade
que me retorna, que me cobra a existência
por enquanto, ausência
talvez veleidades
eu aqui de novo, querendo me resolver escrevendo
quando a falta reclama no corpo
de novo procurando articular qualquer palavra ou frase que me acalme
que me peça um pouco mais de tempo
sem um prazo definido
para romper com essa espera que é tão inerte
se o bonde anda com seu peso e não dá pra parar
assim, de repente
mesmo que seja o que mais preciso
quando o que mais preciso é o mais simples
invejo os que aí por perto
vão à padaria, comprar pão
invejo-os simplesmente por estarem aí
e é tão pouco, mas pra mim seria tudo, seria tanto
palavras são insustentáveis
permanecem em nossa companhia para ajudar com o tempo
enquanto que dizê-las nos torna um pouco mais serenos
como se fizesse alguma coisa, ao menos
mas sinto o passo, lento, o caminhar no rumo
me levar pra perto, pra sem mais palavras
o simples estar, silenciá-las
preciso cometer um erro
urgentemente...
sabendo exatamente pra o que serve
e que, depois, me faça arrepender
um que seja a expressão do que não quero
e que confunda tudo que espero
e não me permita retornar
preciso cometer um erro nada belo
e esse não poderei errar
terá que ser esculpido cuidadosamente
adentrando na mármore realidade
petrificando a suavidade
dando asas ao peso
para que ele possa se materializar
preciso cometer este erro
e que seja bem sincero
indo ao encontro de um desespero
para me salvar
algumas poucas horas
se contadas, todas, não darão a soma para um dia
foi tudo que tive
tento achar um culpado nessa conta e não encontro
tento encontrar o erro e não enxergo
mas suspeito ser eu o erro e o culpado
por não aceitar que tudo impedia
que tudo negava
que tudo atravessava
hoje o tempo parece ser mais precioso
assim como queremos parar um por de sol
para que fique por mais tempo
enquanto o vemos, em todos os detalhes
as cores e formas, tão belas
suspeito ter conhecido o impossível
por mais belo e profundo que seja
e foi como querer chegar no horizonte
que se desdobrava para longe cada vez que eu ia
vou tentar me explicar por dentro
só não sei por onde começar
pois sou mais aluno que professor
tenho mais dúvidas que certezas
e nada aprendi direito
no momento, prefiro apenas caminhar
caminhar entre os eucaliptos
até passar esse atravessamento
que vem, vai e volta sempre
caminhar, talvez, para respirar um pouco
olhando para as copas e o céu
no momento, é tudo que tenho
é tudo que posso fazer
nesse todo tempo do mundo
que parece não valer
o pouco tempo daquele dia
sim
cheguei no alto desse monte
no limite entre voar ou cair no chão
nesse instante que me cobra uma decisão
lá onde todas as cargas me pesam e descansam
sabendo do tempo breve que me demorarei
e do impasse sobre o que será levado
o que será deixado para trás
resolvo passar um pouco mais de tempo
me acampar enquanto chega uma noite fria
estelar uma pequena fogueira
e deixar que o fogo queime até cessar
como meu coração em brasa
buscando extinguir um sentimento
a mesma chama que vi em teus olhos
e que agora preciso que se apague
que não me aqueça mais
que cale as palavras que eu te disse
que as torne em silêncio e cinzas
tanto que eu queria a paz da escuridão
que me acolhesse no resfriar sereno da noite
que eu me tornasse algo sem memória
e sem qualquer lembrança
nessa minha aurora
acordo sem norte ou destino
vencido ainda, pois de nada valeu meu esforço
visto que do horizonte, ainda mais forte, ascendia
o sol, estrela do meu dia....
Minha inspiração
foi em busca de uma canção
que dissesse
que confessasse
todos meus pecados que não cometi
foi em busca do meu violão
que desafinado deixei ao luar
tão prateado, tão cinza e vazio
sob um céu estrelado
numa noite de frio
A minha inspiração saiu
saiu sim
pela porta do fundo
pela pausa do verso
pelo cais do meu mundo
partido, incompleto
E a palavra ficou esquecida
talvez enterrada em algum lugar
quem sabe ela esteja aqui bem perto
ou aqui dentro ela me fez calar
Minha inspiração ficou
ficou sem jeito de se aproximar
desse corpo que tem tanto medo
de de novo cantar esse corte
feito uma música de Belchior
ela ao menos me tem cuidado
no momento da delicadeza
no instante em que eu desisto
única mão que me toca
e que pode me resgatar
minha inspiração é tudo que me resta
mas, não quero mais saber os motivos
que a fazem nunca sair de perto...
cantar, cantar pra dentro
cantar o meu tormento que parece não ter fim
se chego ao fim parece uma chegada
uma nova estrada pra dentro de mim
sentir é pranto, nuvem mais escura
cai no meu canto a falta de amor
fico isolado, lado do sem jeito
o lado do peito, o corte, o coração
mais que de lado, já não sei ao certo
se cheguei no centro desse furacão
abro a camisa, vento no meu peito
corpo que anuncia uma nova estação
se a chuva cai, leve em sua calma
lava minha alma seca do Sertão
sei que o caminho agora não tem volta
porque escolhas são o que se quer
não cruzo a linha vermelha por nada
só quero que você seja feliz
se o mal-me-quer é a pétala que falta
vai, segue em frente sem olhar pra trás
escolho ser quem não invade o espaço
da minha metade, para nunca mais
por isso eu fiz essa sinfonia
que marca o dia do adeus
não tem concerto nem cantoria
pauto a minha vida agora sem você
só sei sentir, talvez demais
entrar num mar aberto
Agora eu sou, agora eu sei
O que amei de perto
só sei sentir, talvez demais
entrei no mar aberto
Agora eu sou, agora eu sei
O que é amar de perto
Nota - Começou como um poema, mas virou canção. Não resisti em trazer Beethoven (mestre que parece ter tocado as estrelas) com o tema da Nona Sinfonia, com uma sutil alteração modal e realizar o refrão com o prelúdio em Sol para cello de Bach (gênio imortal). E quando digo "fiz essa sinfonia", aborda o conceito do grego de sons juntos. Assim, juntei esses temas eternos no arranjo.
(Inspirada no longa metragem de Matheus Augusto, "Nosso Mundo Meu")
a primeira vez bateu à porta
ninguém atendeu
quem sabe lá dentro deve estar ocupada
está longe da sala
talvez no quintal
foi o que pensou o carteiro
a segunda vez, voltou a bater
um pouco mais alto
um pouco mais forte
e com uma certeza
onde quer que fosse seria ouvido
na sala, cozinha, talvez no quintal
sem resposta parou ponderadamente
por que bater a porta de uma casa vazia?
de noite, de dia, já não tem sentido
mas se dentro da casa tiver alguém
quem sabe no quarto
no centro da sala
alguém que agora não quer receber
a terceira vez
pode ter certeza
que o moço da porta
nunca mais vai bater
chega de tristeza...
chega de saudade,
pra que serve o mal estar
senão para perder o tempo,
desafinar o coração dos versos de Tom
e ficar sussurrando com a voz dum João
mas a tristeza também pega as almas alegres
as almas leves, os João ninguém
tristeza que serve a mesa
com um banquete repleto de pratos vazios
que fazer se isso não tem hora?
não tem dia certo e não tem lugar
não dá pra esconder dessa cruel senhora
que ainda mora lá no meu quintal
mas faço o meu contraponto
com muita harmonia para colorir
os temas ou breves poemas
com ideias pequenas só pra eu sorrir
convido o menino Mozart
com a sua graça de eterna magia
ouvindo os seus conselhos
como quem conversa no banco da praça
e sigo Mozarteando
e talvez encantando olhares rapinos
aprendendo com a natureza
sem espada, sem presa
sem pressa, sem hora
chega!
chega de tristeza
não vale a pena viver assim
pois nada é uma certeza
e por enquanto vale distrair
sei que depois ela volta
talvez não tão dura, talvez em silêncio
com passos leves, lentamente
quem sabe vem nua, mais leve, mais quente
me abrace, sem dizer nada
apenas me deixará sofrer com ternura
hoje eu mudarei minha vida
se for preciso
se for o que precisa
não cruzarei o limite
que o silêncio me avisa
serei como o soldado que foi convocado a ir à guerra
a lutar sem importar com o que pensa
sem cuidar do que sente
apenas seguir em frente
para que quem fique, seja feliz
tenha segurança
o simples direito de se sentir bem
irei só para a minha guerra
e bombardearei o meu desejo com todas as armas
me esconderei numa trincheira
marcharei para o front de batalha
sem temer qualquer dor
será hoje, se preciso for
lutarei a mais estranha das guerras
a que não tem inimigo
a que destrói o abrigo que eu haveria de me deitar
que amordaça a palavra
que me torna prisioneiro
e me força a confessar mentiras
hoje, talvez, me porei em fuga
serei um traidor
exilado de meu próprio sentimento
se for preciso
se preciso for irei além
seguirei na marcha para um outro país
me esconderei, com uma outra vida
sem dar notícias a ninguém
nem contarei por que não luto mais
posto que me darei por vencido
não importa
apenas eu saberei
e ninguém mais
um dia a conta chega
sem avisar, sem dar tempo de se preparar
e pra que mesmo se preparar
se é uma guerra perdida
que não aceita uma rendição
e não põe um fim na questão
chega para que conviva com ela
para que ocupe todos os espaços, onde quer que vá
até mesmo na hora do descanso, do repouso e do sono
para dormir contigo
a conta chega bem maior do que se espera
te envolve e te aperta
como que cobrando todos os dias que não esteve presente
cobrando um preço impagável
só resta abraçá-la
permitir que esteja perto
cuidar dela como a melhor memória que você tenha
para enganar a ambos
num acordo tácito e irônico
depois de um tempo, quem sabe, tudo se torna íntimo
quase rotineiro como se fosse o normal do dia a dia
quem sabe até comece um afeto
um desejo que acabe por ser mais esquisito
incompreensível e invasor
até fazer amor
um dia não saberá quando mesmo que a conta chegou
nem perceberá sua presença, agora invisível
talvez já a tenha devorado, digerido
e agora faz parte de seu corpo
pois agora você se tornou a conta de alguém...
preciso abrir essa porta
imagino...
essa que me abre para fora
e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral
com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente
com uma brisa que parece envolver o corpo
como um lençol invisível
leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros
preciso voltar para esses ares
que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto
para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite
faz todo o dia prometer inspiração
de cores e detalhes novos
belezas tão grandes que cabem numa canção
e como é bom transformar o olhar
reinventar a percepção
num espectro infinito
de sensibilidades possíveis
feito a mente duma criança
ou o coração de alguém apaixonado, aflito
ver tudo transformado
ver que nada é apenas o que é
que pode ter tantas narrativas que desconhecemos
mas que podemos descobrir
ou, sem o menor pudor, inventar
mais que nunca, preciso deste portal...
pra me mudar para o mundo da arte
para passear no verso das canções que gosto
preciso sim desta porta ou janela que eu fuja
deste estado de ambientes fechados
estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos
quero pegar meu violão
levá-lo como convidado e amigo
prestes a romper do silêncio para a cantiga
num tempo sem pressa
e talvez, de repente, apenas parar
recostá-lo num coqueiro
e caminhar, caminhar...
inapropriado nessa hora
em que todos dormem
fazer um café
justo porque não devia te-lo feito
tão tarde
mas fazer um café, nesta hora, expressa minha liberdade
um desvio, com muito gosto
quando pensar importa
não para me manter acordado
apenas por precisar deste café noturno
sim, fora de hora
fora de tudo
desaforado e inapropriado
inapropriado para esquecer
inapropriado para guardar
esfria, ferve, mancha, derrama
perfuma...
talvez seja ele como o céu, na noite sem lua
sem permitir sequer ter estrelas
como uma rainha que rouba os olhares
como o único tema de uma sinfonia...
aprisiona e envolve na sua bruma
e qualquer que seja o pensamento
vaga, neste mar
apenas um café
nada mais
e eu que tolo esperava
que fosse apenas isso
Entalhe
preciso escrever, ainda...
ao menos tentar.
e preciso ficar o mais longe possível do olhar crítico
que não merece a confidencialidade das veleidades rabiscadas
e quisera fossem traços esses dígitos
tão incapazes de delinear o relevo do sentimento
também que fosse num papel
com todas as fibras recebendo as cicatrizes
dos golpes duma espada de tinta escura
marcando memórias instantes
tatuando sentimentos assim como entalhamos numa árvore os nomes
ainda preciso escrever
reabrir esta página cheia de letras e palavras
tentando traduzir essa coisa
esse limite real que meu imaginário atravessa
e se acampa no meio do tempo
escrever, escrever, escrever
até me calar por dentro
quando perceber que talvez já não haja um destinatário
senão o andar em círculos
de um sentir solitário
até quando a realidade me acolher, finalmente
de forma simples, sem fantasia
sem poemas, apenas informação
sem precisar escrever...
no fundo, talvez seja simples assim
como deveria ter sido
como deve ser...
Braços Soltos
desistir, experiência difícil
quando parece pertencer ao seu caminho
esta essência oculta e inviolável
que sobrevive por si só, no desalinho
presente, não sei de que forma
sem razão e sem cabimento
mas sempre lá
no incerto em que se esconde
e se revela em algum momento
difícil é explicar ao corpo
encontrar um argumento
quando existe e sente
sem de fato estar presente
permitir, talvez
como se fosse uma desistência
apenas não buscar, nem lutar
se render e deixar os braços soltos...
não se importar com o tempo
nem com toda essa construção de mundo
repleta de costumes rasos, toscos
ora belos ou feios, meros, medianos
tanto faz...
talvez não faça diferença entre o vale e o monte
entre o sol e a sombra
pois a natureza é sempre maior que qualquer drama humano
ela tem todo o tempo do mundo
e estará sempre ali...
braços soltos...
olhos fechados e um vento no rosto...
um sorriso leve...
desistir?
não.
apenas guardar, com todo cuidado
e fingir não saber como pode ser encontrado...
Expresso
não se explica o que nos move por dentro
quando tudo em volta nos orienta o contrário
não faça, não pode, não deve...
e tudo plasmou no impasse
e assim foi até o limiar dessa consciência
quando, enfim, me permiti agir numa corda bamba
equilibrando o real e o devaneio
num risco sublime e incerto
só para estar perto
subir o monte, descer
contemplando a paisagem dourada pelo sol
até chegar na vila onde mora o sentido daquele movimento
dentro
tudo naquela ida parecia diferente
diferente de qualquer ida a qualquer lugar
ida ao trabalho, ida a outra cidade, a outra casa...
um mapa que se delineava na pele
que sentia as gotas leves da chuva naquele dia
e o frescor daquele vento da sertania
como o frescor duma lágrima num rosto quente
a proximidade me empurrava para dentro de um quadro
onde as cores vibravam e floriam
sem se importar com a geometria
era apenas ali que importava
até que finalmente encontrei
e sem palavras certas
sem pensamentos claros
era ali
um hiato no tempo
uma travessia de mundos paralelos
e todas as questões não respondidas, não resolvidas
abriram uma exceção, ficaram de lado
se calaram, pois não importavam
oito anos passados
e só precisava de um café
para me tornar desconsertado
com uma felicidade estranha e plena...
até precisar sair daquele quadro
me enquadrar na geometria dos mapas
ceder o devaneio à realidade daquele caminho,
mas voltei levando um sabor de café na boca
e a alegria de ter roubado pra mim
a sua companhia