segunda-feira, 20 de julho de 2026

Casca




não tenho tempo para sentir

tão ocupado que está meu tempo 

e a responsabilidade me obriga a seguir 


tão estranho fica o corpo

desconfiado dessa estabilidade 

que mais parece um salva-vidas 


jogo essa pedra para cima

sem esperar que caia

imaginando que corrompeu a gravidade 


sigo, já faz um tempo 

nessa marcha de qualquer destino 

e receio o retorno do sentimento 


hoje não 

por sorte, ainda não 


quem sabe assim eu vá indefinidamente 

e faça nascer uma outra história 

sem as dores invisíveis 

e sem memórias 





segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Depois

 


me dói esse passo

esse que agora tenho que dar


caminho de olhos fechados

e apenas essa direção incógnita

é o meu caminho


que Deus guarde meu caminhar

porque os destinos ainda não me acolhem

sequer são destinos


que eu apenas vá

todos meus sentidos já estão cansados de lutar

e precisam de algum descanso

e eu de um recomeço...





domingo, 5 de julho de 2026

 


eu já devia ter entendido

ter crescido

aprendido

já devia ter mudado

desacreditado

isso já devia me ter sido revelado


já devia ter saído

acabado

ter sido esquecido

ter me cansado

desistido


eu já devia

devo, não nego

pago quando puder


só está comigo

nem sei mais por que

por tanto tempo

não entendo

portanto, me rendo


que fique, que viva

que permaneça

que sobreviva o quanto quiser

se não posso lutar, eu abraço

eu escondo nesse silêncio

com todo carinho

com todo cuidado


só não quero perder a ingenuidade

que me tornou quem eu sou


só assim não me perco de mim

só assim não minto


admito

sigo

e não vou parar







sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ventania

 

bem lá

no horizonte da sertania

em giro aberto, no centro nordeste da solidão, surgia

o sol trazendo a borda incandescente, feito a beirada dum chapéu

levante dum cangaço chispando estrelas no encourado contra o céu


passo curto, corrido, aprumado que varia conforme o caminho

é o couro cozido, desquinado, é o fio, é a lã, é o linho


é o vaqueiro que enfrenta Lubião

lua nascendo no cume da serra

sonho desacordado que erra

no meio da escuridão

pêlo, crina, cela e destino

esperança que vai consumindo

no lombo do seu prateado

no trote, galope que ferra

 o catravo dessa montaria

vai pelo descampado da terra, 

na descida, é vereda, é ventania


mão-de-pilão não aponta o dedo

pra o coração do corpo fechado

vai pilando a tristeza, a esperança, 

a lembrança no tempo cortado, 

o verso perdendo o rimado

misturando no pó da estrada

a cantiga dessa cantoria

o improviso que é um quase nada

pro tamanho que foi do meu dia








quarta-feira, 1 de julho de 2026

Portas abertas

 


tem aquelas onde a beleza é imperiosa

e exercem um domínio natural que se expande

que torna o estar em subjugar-se

como uma ideia fixa interminável

que habita por um longo tempo sem querer sair

até o corpo finalmente expurgar, deixando marcas de guerra


também aquelas que conquistam

com pensamentos, presença de mistérios

abismos mágicos de cores e formas, pinturas

e são do campo do impossível

essa coisa que nos prende pela estrutura

nos afasta pelo respeito e nos une pela arte


tem as que são demasiado dos momentos

sem pensar direito deixando as coisas irem acontecendo

tornando-nos apenas pontes para uma travessia

e simplesmente passam, sabe-se lá para onde

sabe-se lá onde o afeto se esconde


outras nos adotam, como algo que escolheu

experimentam momentos e lugares 

encontros e viagens como se fôssemos algo delas

até cansar, até não se importar

até cortar o tédio, como se fosse o melhor remédio


tem as que trazem um mundo com elas

que superpõem fantasias sobre a realidade

talvez os seus projetos mui tradicionais

embora com afetos, os planos valem mais


tem as que são bem mais do que esperamos

que faz nosso mundo explodir em vida

dão sentido a qualquer coisa, mesmo tola

nos enriquecem, nos torna ao que somos

depois vão embora, pra bem longe


tem as que não sei contar

talvez nem mesmo eu possa fazer isso

melhor eu nem tentar, apenas aceitar este caminho

este destino que me chama, por todos os lados

para seguir só, abrir as portas e sair

e nunca mais deixar alguém entrar