sexta-feira, 3 de abril de 2026

 



preciso abrir essa porta

imagino...

essa que me abre para fora

e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral

com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente

com uma brisa que parece envolver o corpo

como um lençol invisível

leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros


preciso voltar para esses ares

que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto

para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite

faz todo o dia prometer inspiração

de cores e detalhes novos

belezas tão grandes que cabem numa canção


e como é bom transformar o olhar

reinventar a percepção

num espectro infinito

de sensibilidades possíveis

feito a mente duma criança

ou o coração de alguém apaixonado, aflito


ver tudo transformado

ver que nada é apenas o que é

que pode ter tantas narrativas que desconhecemos

mas que podemos descobrir 

ou, sem o menor pudor, inventar


mais que nunca, preciso deste portal...

pra me mudar para o mundo da arte

para passear no verso das canções que gosto

preciso sim desta porta ou janela que eu fuja

deste estado de ambientes fechados

estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos


quero pegar meu violão

levá-lo como convidado e amigo

prestes a romper do silêncio para a cantiga


num tempo sem pressa

e talvez, de repente, apenas parar

recostá-lo num coqueiro

e caminhar, caminhar...






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