terça-feira, 19 de agosto de 2014

Corpo e alma






não há silêncio no silêncio
se ouvimos seus passos de pausa em tempo andante
se o tempo vibra um sonho mudo
enquanto se espera a canção
para invadir carinhosa os ouvidos cansados de tantas palavras
essas frestas por onde tentam escapar em fuga
as coisas escondidas
tão certas como o olhar de um cão
que agora permanece quieto
bicho estranho
com seus instintos presos
esperando na curva de um dia
o uivo da palavra presa em seus caninos
a calma do que é vivo
e um sol quente na manhã fria











segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Lira





canto a canção do amor veloz
como tartaruga caminhando rumo ao abismo
sem sabê-lo
e nosso olhar, dando asas ao medo,
protegido deste profundo com escudo e armadura
e dentro, no casco de Apollo
delira em segredo, sentimento





quarta-feira, 16 de julho de 2014

Meio termo
















duro o olhar que não dura
olhos que não se abrem
que separam o dentro do fora

dura marcha dos passos
do caminho certo
da força maior

flor que se evapora
vontade que se condena
inteira metade

erro que invade
meio de se chegar ao fim
instante que perdura em mim





segunda-feira, 7 de julho de 2014

Primeiro dia





era apenas ver o nascer do sol
abrir dos olhos
atravessar

todos os dias claros
agradecidos
por um sorriso

presenteando
coisas infindas e breves
sem motivos

brindando a vida
uma festa de seres comuns
contentes com o pouco

apenas a permanência
dividida
nada mais





domingo, 29 de junho de 2014

sem mais perguntas...





te escrevo pra mim
ensinamentos tortos
para servirem de mapas
pra não temer o longe do desalinho

te guardo incertezas em garrafas
e escritos roucos da câmara do meu pensamento
sonhando encontrar as pedras de tua ilha
novo mundo meu

te busco com a sede de papel caindo n'água
no inevitável extremo da falta
o caminho de volta
que me repõe no ninho da vida
sem mais questões
porque elas se encontrarão mais que satisfeitas
quietas e cúmplices em silêncio


sábado, 14 de junho de 2014

Inaudito




a carga e o carregador
a posse e o possível
o tocador e o pedreiro
a parede branca, o quadro
o esquadro do sensível no olhar do morador

um sabor que passa
um poder que pode
a roupagem do corpo alienante
os riscos e as linhas
tramas de luvas de vinho
o cálice
a cena e a ausência do ser
a gaiola de ouro
que não sustenta o desejo
vergado em metal
moeda do silêncio

o vendaval e as roupas secas
o voo dos pés
o canto da cantiga
o impossível
o sonho
a casa vazia
o peso da pena
alma discreta
silente mar



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Arreios



o dia se encerra mais uma vez
nos tempos maduros
num caos que teme se reconhecer

novo ciclo, mais uma volta
carrossel com cavalinhos do apocalipse

um dia solto seus arreios
como os devaneios intimamente nos soltam pela madrugada

e vou querer ouvir seus passos
sem contá-los
sem ritmo
no irreversível