segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Vândalo Cometa





Passarei
No instante marcado
Entre as cadeiras do bar
Como o vento que quebra a calmaria
E a onda no mar principia
Depois de longa espera

Porei em movimento
O lento como a dor
Até que voe desse atormentado
Por seus moinhos cirandeiros
Dando giros suaves nesse copo
De asa branca e pires português

O quente, o frio
A louça e o cristal
Com suas notas nobres
Soarão distantes, esquecidos
Lacrimejadas serpentinas
Na festa da vida

Finda a bebida
O gosto
Sem mais vapores
Nem o arder da euforia
Intacta a medida do querer
A visitar tantos vazios

Caminha em passo de seresta
Só a noite, o vento e a não vinda
Vestem esse rapaz de terno e de ternura
Do eterno sonho que na rua se finda
Com versos sem  papel
E um mundo sobreposto sem caneta
Vândalo cometa




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Estrela Banida




Na cidade há um mundo
D´um silêncio profundo
Silêncio de um mar
Donde é meu navegar

Por uma noite inteira
Caminhei sem destino
Um homem à beira
D´um menino

Na cidade há uma era
Que não permite a hora
Que guarda e que tem
O que é simples de alguém

Não importa se palavras
Voam como o vento
A verdade é
Um momento

Se foi por minha mão
Ou todos esses anos
Se foi só por dizer
É que agora sonhamos


Se olho o céu sem saber
Se vivo sem entender
se o mistério não diz
Resta só
viver


Recomeço meu dia
Por vezes distraindo
Da lembrança de alguém
Que só me vê sorrindo

Sem importar que a estrela
Não te fale a vida
Basta deixar no olhar
Banida

Resta só caminhar
Meus passos na areia
A canção que é do mar
Me apaga e incendeia

Se olho o céu sem saber
Se vivo sem entender
se o mistério não diz
Resta ser
Feliz

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Deserta




Volto, sem jeito
Atônito, no meio da guerra dos loucos
Na fome dos lobos
Na angustia das sementes tórridas
Na era perdida
Simplesmente, na vida

Sóbrio reencontro com as peças desarrumadas
Reencontro com as horas marcadas
Com o marco dos limites comuns
Desmembrando a unidade de minhas flores
Um outono de pétalas carinhosas
Evitando o chão, como borboletas tontas
Descolorindo o vôo

Meu atordoado pensamento de ventania
Lembro a casa deserta
Minha voz cortada
Meu deserto infestado de idas fugidias

Ainda o vento a tocar seu rosto
Ainda a geometria das sombras no elevado
Torre, intacta
Enclausurada de sonhos velhos
Como a serra da prata
Que parece um brilho de antiguidade

E tudo isso, agora
Em apenas um vago pensamento
Uma dúvida de ter existido
Um enigma
Procurando sentido...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ludens




À porta te esperei
Onde os passos faziam caminho
E somente a espera passava por ela
Como gangorra brincante
Enquanto, intenso, te imaginava
Ensaiava o movimento de um caminhar seu
Mas sempre a porta, como palco vazio
Como cenário oco

Atravessei com meu olhar tantas vezes
Até que eu fosse de vez
Descrente
Esperante
Desci, como escorregadeira
E só no pátio te avistei
Com um ensaio meu
Até que eu subisse à mesa
Como carrocel
Sem querer agora largar meus brinquedos
Sem querer crescer
Para sempre









                                                                                                    (imagem@vanilia)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

homo faber



Começar sem ter caminho
Encruzilhar as utopias
Guias de meu motor

Vida que não ensina
Não tem método para isso
Tem um infinito de simplicidades mal entendidas por seres incompletos

Homo faber, tolo
Ordinário tanto quanto necessário

Nas mãos um vazio
Um porvir de fazeres e toques
O limiar infantil do que podem as mãos
Um traduzir cego
Que entende, luta
E se rende...


domingo, 5 de agosto de 2012

Distâncias



Entro
Me acamo no largo dorso macio que plana
Por paisagens
Como lençol no rosto

A hora cavalga em largos passos
Tempos muito longes

Percorro lento, os caminhos de suas veias
Sem desviar os seus faróis
Sorrindo um sol e céu azul
Lançando percursos imaginantes
Em ternos desencontros com os meus
Enquanto os silêncios conspiram metades
Enquanto a música nos encena lírios personagens

À frente, a próxima rua
Atrás, a bagagem
O presente é ao lado
A um passo de sua mão
Que agora me segura
E logo me dará adeus




sábado, 4 de agosto de 2012

Onde





Achar a minha casa
O meu caminho
O lugar de onde verei o sol...

Ou simplesmente partir
Sem casa, caminho nem esperar o sol
E partir ser o meu caminhar
A minha casa ser esse corpo sem lugar
E o sol, será o meu olhar no mundo

Ainda que leve comigo
Uma pequenina foto de casa
A poeira do caminho em meus pés
E a lembrança do intenso calor da estrela minha

Partir
Sem importar pra onde
Nem como fui
Nem se estarei acolhido

Simplesmente terei ido