terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Cadente





não sei por que, mas
lembrei duma folha
que pensei ter caído, leve
ou não terá sido?

uma folha
leve dúvida
certamente que não sei
apenas o que sei mesmo
é que as folhas caem

sei também que minha dúvida
 é quase como o vento
para quedas
e voos breves

e em toda dúvida
sempre sopra leve uma brisa
ao pé do ouvido
quase que como a pele do tempo
tocando no rosto
enquanto os galhos dançam

e somente no meu olhar
aquela folha que não sei se caiu
ainda flutua...

apenas uma certeza tenho
que essa ventania
adentra no outono da memória cadente





quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Destino





se existe ordem nas coisas
em tudo que acontece
nos infinitos caminhos
dos novelos dos dias,
quem saberá?

se vem das estrelas
força que acaso nos guie
ou do acaso simplesmente,
este caos aparente...
conspirando quieto

ou será o inexistente
medo que assombra o poeta
mas por ser palavra dita
existe contraditoriamente
sem verbo, oco, ilusão

mais certo o momento
que a situação
mais forte o instante
que o entendimento
mais leve o sentimento
que a permissão

depois, apenas o inevitável
para se viver
irreversivelmente

um encontro pode mudar o mundo
desmontar o mundo
e tudo vai parecer
daqui para frente...






sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Disma periódica






há muito o que fazer
o que resolver
solucionar essa equação
que parece infinita
com suas incógnitas
suas variáveis...

sempre há coisas para fazer
pequenas, importantes ou banais
cada uma com seu tempo
com suas exigências
com a necessidade braçal
de suas imobilidades

mas aos poucos você vem
no meio, em volta, dentro...
como mínimo detalhe
mesmo que tente ignorar que seja
a chave para religar-me com tudo
até mesmo com as coisas a fazer

momento de um café
com o sabor do café
cheiro, cor de café
e logo você vem
na pequena pausa entre uma coisa e outra
silenciosamente
serenamente
rindo das coisas
do quanto são apenas elas mesmas

e aos poucos percebo
a inevitável presença dessa quietude
da vontade de não pensar em mais nada
quando você vem

hora de fazer outra coisa...
qualquer delas
e sei que é apenas esperar fazendo
esse pulsar de vai e vem

às vezes ali, escondida
quase como calmaria...
ora gentil

e às vezes vem demais na minha vida...






terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Rio















um rio sempre parece tentar se esvaziar
sem nunca ter a mesma água
e mesmo assim, quando vejo um rio,
parece estar sempre ali, o mesmo rio

olhar, olhar o rio
sem parar...

ouvir o rio
imaginar...

correnteza que me pega
flutuar...

às vezes me pego estar como um rio
de águas quentes
correndo nas veias
desconjuntando os braços
todo o corpo

às vezes
apenas um barco
plena represa

às vezes
transbordo...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Disto





Afinal, que peso tem o tempo?
um "daqui a pouco",
"em breve",
"me dê um minuto",
"já já eu volto..."

que peso tem um dia?
uma noite,
uma lembrança...?

quanto tempo tem uma distância,
ou quanta distância tem num tempo?

quem espera conta cada centímetro...

queria não dizer nada além do olhar
nem medir nada
perder a escala num abraço...

quem sabe parecerá ontem
quando reencontrar...




sábado, 19 de novembro de 2016

Vez




às vezes a gente perde...
apenas
o que seria
o tempo que esperou
o momento que se soltou

por esperar muito de algo
não contamos, senão, com o que queremos
que talvez ordenamos
ou tememos

às vezes não perdemos
mas somos roubados
por um outro desejo
um outro querer
pela liberdade do indesejável

às vezes pagamos o dobro
às vezes a metade
noutras, é como se fosse de graça
ou bem menos do que vale

às vezes percebemos
o valor de um instante
dos dias e dos anos
no reino do tempo

sempre será uma vez
de alguém ou de alguma coisa
de sim ou de não
só não será a única

  

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nova






sim,
seria só dizer uma palavra
uma que mudasse a forma de pensar
que tivesse o maior sentido possível
e repetisse dizendo ela
para ecoar
para que ficasse viva, vibrante
que me aumentasse o fogo dos olhos
que fosse música para o texto de minha vida

que recuperasse sua vocação
algo mais que sua categoria gramatical
no apelo do som que reverbera

que fosse útil como um alimento para um faminto
ou como um banho para fechar os olhos
num desejo de alívio no corpo

uma que dita tivesse corpo, olhos, boca, nariz, mãos
um temperamento e personalidade próprias
que pudesse me fazer companhia como amiga
que eu pudesse pensar ser minha

que desse um nome ao que sinto
para que eu pudesse dizer, finalmente
bem-vinda ao meu mundo