sábado, 1 de novembro de 2014

Ares outros mesmos




estes ares já não são os mesmos
mas o que ou quem mudou afinal?
se não se pode tê-los mais na pele...
neste rosto quieto e estúpido
ou ele é que é sensato e não o sabemos
mesmo sendo nosso rosto

inútil a memória diante das mutações
diante de qualquer lembrança que suscite algum vazio
do tamanho destes ares
enchendo-os até não caber
até serem insuportáveis
para ver
sentir arrepios
ou ter a impressão de ser tocado pelo vento
como nas manhãs em que ia pro colégio
caminho frio

os ares são outros agora
como uma outra língua
nesta manhã de exílio
neste corpo sem fronteiras





quinta-feira, 16 de outubro de 2014

bilhete






Lá vem o bonde
com seus metros de ferro e bronze
estridente e forte
glissando comas de sem tons na escala dos trilhos

esperam-no vidas paralelas
como um amontoado de livros e histórias cruas
o velho espera o bonde
a mala, a camisa e o doce do menino

Lá vem vindo esse bonde
para o desespero
sem dar tempo nem se importar com quem vai entrar
bastará ocupar os acentos
os limites das cargas e  das gentes
e seus pesos, concretamente

Lá vem o bonde
para atropelar qualquer sonho
imponderável
na razão do horário das 13:45
atropelar, no exato instante em que ele parar,
o doce, as cores das roupas e suas histórias sujas
em silêncio
e para qualquer desejo a bordo
parte imediatamente
e convence de que é melhor não pensar nisso
pois o preço será igual para qualquer nome










domingo, 28 de setembro de 2014

Temblores





será assim
quando a grande conspiração esperada
imaginada em suas drásticas consequências, chegar enfim
no momento que romper a madrugada
e só haver passarinhos e folhas dançando
e um silêncio cotidiano rompendo-se pouco a pouco
no acordar a cidade
será apenas assim

a ideologia se tornará ser humano
e o palácio tornar-se-á casa e cozinha
a voz recitará os versos ensaiados
textos sem improviso
de ensaístas, historiadores, psicólogos
e de jogadores experientes

será como a pia suja na manhã seguinte
ecoando os encontros e a solidão
com resto de delícias e desenhos impensados
a um passo da coragem para o trabalho da recomposição da ordem
e a inconsciência de um Pilátos de bucha e sabão

melhor querer ter pés de areia fina
para cruzar o rio sem se esperar na outra margem
liquidar os caminhos traçados para algum ideal
desejar ter mãos que sonham pensando serem nuvens
e serem apenas gestos, estarem acima das coisas
pra resplandecerem em outro rosto
serem vistas de longe

desejar não saber como será
se rosto em sombras ou mãos plúmbeas
sujas ou ensaboadas
se apontando pássaros ou catando folhas para guardar
nos cadernos entre folhas vazias

apenas pensar leve
e esquecer todas as possibilidades de como será no instante que for
assim, fora dos textos e da memória
no equívoco, na surpresa
no adjetivo mais que no verbo

num imponderável esforço de ser










terça-feira, 9 de setembro de 2014

neblina





Imensa nuvem cinza
Estendia-se por todo céu
Em neblina

À rua, descoberto, ouvia a canção francesa num jeito blues
Estranhava tudo e cada justa coisa
Obviamente como deve ser cada coisa
Imperiosa e indiferente

funcionalidades tantas
em tantas coisas
e sempre a falta essencial
de uma estória que as conte
e as inclua como cenografia
sem deixar de lado a menor das coisas

mas ainda ali
no inverso da vontade
por todos cantos vasculhados naquela noite
competindo com as infindas gotas sem sal

olhar apertado
o canto se extinguindo  um pouco para fora daquele lugar

Não era a versão que preferia
Mas era a canção
Não é assim que se deve viver
Mas é assim a vida...

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pluma






é apenas humano
ajuntamento...

é preciso, contudo
não confrontar extremos
sala a dentro

de porta aberta, porém,
a permanência, generosa e tão maior,
acerca-se nos esquivos

em cada um
a permissão ainda é um limite
às vezes do invasor
ora do invadido
ou d'um demasiado observador

íntimo e desconhecido
rendido humano entre tu e outro
seu corpo sabe
seu pensamento deflora

ainda assim, algum tipo de dor
te ensina o alívio de viver
negar ou calar-se
e atravessar
inevitavelmente...







terça-feira, 19 de agosto de 2014

Corpo e alma






não há silêncio no silêncio
se ouvimos seus passos de pausa em tempo andante
se o tempo vibra um sonho mudo
enquanto se espera a canção
para invadir carinhosa os ouvidos cansados de tantas palavras
essas frestas por onde tentam escapar em fuga
as coisas escondidas
tão certas como o olhar de um cão
que agora permanece quieto
bicho estranho
com seus instintos presos
esperando na curva de um dia
o uivo da palavra presa em seus caninos
a calma do que é vivo
e um sol quente na manhã fria