terça-feira, 23 de maio de 2017

Perdedor





ando perdendo
não como mal jogador
pois não há jogo
que entenda a regra do amor

colecionando horas
pequenas
longas
maiores que o tempo

ando perdido
no momento
no cálculo exato
que é certo e preciso
plano, liso, que é fato
sem poder dividir
elevar, equacionar
sem ter raiz

bom perdedor talvez
de datas, de cotidianos que sejam
de sono, de sons e toques
de chegadas e de partidas

perder sem ter
privado à revelia
semente jogada ao fogo
que um desejo fantasia

perdedor
no corpo
no movimento
cavaleiro vencido
aqui parado,
e por dentro
a sensação de ter partido




segunda-feira, 22 de maio de 2017

Presente






ficou no corpo
o toque alumbrado
das tão poucas vezes presente
na porção vital do perto
vezes tão poucas

uma raridade
que não permite o domínio
seja de reis ou senhoras
não cede ao império das normas
nem mesmo a sensatez da ética
ou a sua crueldade

seja o que for
o que será mais que o presente?
presente, condição inigualável
nada mais que o estar
maior ação que o verbo pode ter

presente, em silêncio, ser
em silêncio sim
forma mais eficaz de usar o tempo
a vez

talvez, seja a forma de se encontrar
ou o porquê para este perdido

sem o encontro
o caminho será todo lugar
qualquer lugar não haverá destino
serão apenas coisas, muitas
tempos, muitos
coisas demais
tempos demais
tudo demasiado

poucas vezes
vezes tão poucas
e em cada,
demasiadamente tanto...








quinta-feira, 18 de maio de 2017

Calenda
























seria apenas mais um dia
se não fosse esse ponto cardeal
que me põe um norte
que me faz girar lentamente
e contemplar essas estrelas

se não fosse esse signo que rege
as constelações de flores
e o desabrochar de desejos tantos
em um além que é dentro
em um silêncio que é canto

se não fosse um bem-me-quer
despetalado no rosto
nas mãos se abrindo
ou no botão que guarda
o segredo de uma espera

uma gestação de sonhos
presos no imaginário
nesta conjunção distante
que se esconde no meu calendário

seria mais um dia
se não fosse essa vontade que aflora
se não fosse nessa noite
minha aurora....



segunda-feira, 15 de maio de 2017

sobreviventes





a vida não espera...
não nos espera entender
nem nos dá tempo de decifrar seus códigos
imediatos
lentos

ela nos acorda, ainda com sono
por vezes nos deixa surpreender com o sol do meio dia
com a idade que avança sobre o corpo
e nos faz parecer com um lugar que não reconhecemos mais

não espera mesmo

se acaso insistir em pensar sobre a vida
em tentar entender qualquer que seja o destino
se existe ou não
o que quer que seja isso
isso que é maior que qualquer entendimento
que não fala outra língua que não a do sentimento
por que não olhá-la nos olhos e sorrir para ela?

se a brincadeira que a vida lhe põe for dolorosa
se for a falta que te subtrai  por dentro
que te rouba o centro
cante... e tire ela para dançar contigo

se no meio da canção travar a voz
esse instrumento que vibra como a vela
na ventania dos momentos
se não tiver jeito de atravessar

melhor não pensar...








quarta-feira, 19 de abril de 2017

estorinha pra dormir





nada mais belo que o olhar brilhando duma criança
acreditando em uma estória de mentira
como uma pequena fogueira no meio da noite
como a primeira estrela
e ela sorri
porque crer nessa estória
é vencer o impossível
será o amor uma crença?
uma estrela?
uma fogueira?
talvez seja o coração uma criança....





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre a mesa




tem seres que nos roubam absurdamente
roubam nossos filósofos
o céu e todo universo admirado
canções
desejos
tantas coisas...
porque todas elas
tornaram-se metades

nem o tempo e os pensamentos escapam
tornando tudo um grande vácuo
tudo isso sem nada sair do lugar de fato

talvez sequer tenham roubado
não.
nós é que perdemos
o caminho de reencontrar as coisas

apenas apostamos alto e perdemos
e as cartas já não estão sobre a mesa
mas o jogo sempre vai continuar
até depois da meia-noite
novos apostadores talvez
mais fichas
para lançar
para dobrar, perder

para cair...





quinta-feira, 13 de abril de 2017

Cinzeiro



deixa ir
sem que ficar seja um adeus
sem parar seu mundo
sem se separar do mundo

imóvel ainda
no instante que pesa
que não sai
que não vai

cerca por dentro
o medo da permissão
de soltar a mão
de mudar

é assim
como as cinzas do que não queimou
um calendário sem ter sido usado
sem pequenas marcas nos dias

e só bastaria ser simples
ser leve
bastaria apenas deixar ir