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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Ainda



Ainda é cedo
Quem sabe?
Quem sabe se cedo é acordar ou ser acordado
Quem sabe se não é medo confessar...

Quem sabe se ainda é morna a água desse rio
Se dele saindo sinto frio
Se na tarde o por-do-sol se deita nessas águas
E o meu corpo flutua
Como se o rio me dera asas...

Quem sabe agora sou ave...

Quem sabe sou apenas
Uma dúvida a naufragar poemas

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Lírio

Dentro
A beleza se esconde do louco bonde do olhar
Se esconde atrás dela mesma
Vegeta o corpo devagar
Envelhece o caminhar do peso
Envelhece o tempo

Envolta na seda fina, vestido da pele
Vestida de branca nuvem, algodão
Perdida num negro céu
Atada e firme descolorindo a espera
Pendular de ciclo breve
Cada vez mais leve
Mais semente...

E vindo o estalar do canto
Um romper  em trincos secretos
Escopo repartido em concha da estação dos ares

Expande teu leque repleta
Inclina, espalma tua flor de pétalas raras
Voa livre
Revela teu pulsar de outono
E pousa com abandono
com teu lírio no ombro meu...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Conto



meio sou
do que me completa
conto que estou e sou ao lado
conto com meu infinito
com o abraço dos meus dedos
cuidadosos e firmes
querendo vestir-me da luva de tuas mãos


conto com o poder contar
dividindo-me para ser maior
ser um todo completo
ser com tu
e ser mais perto

ser à sua volta
um invisível dentro e ser a sua pele
ser a ponte que nela possa andar
e passar pro quarto mundo
ser uma forma de te achar

Ser cúmplice seu
Ser sendo o que sou eu
Ser se comigo fores
se contar as flores que deixo em suas mãos
E ser a flor o que conto
o amor o "pronto"
a coisa
eu conto


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Estação de Ferro



quero errar todos meus caminhos
como único querer que me move o não
caminho é passo
passo a passo
compasso do coração incerto

é verso que é o outro lado
atrás da estação
onde não há linhas
descarrilhando tramas toscas
duras como ferro
pelos cantos
anunciando partidas
com o berro anti-lírico

uma cena besta
um péssimo ator
que não convence no roteiro
da interpretação de sua própria persona
esse não autor, máscara oca
é casca que do vazio dos olhos
escorre única lágrima...
e toda sua essência se esvai em cena
é quando cai o pano
é quando existe a certeza do engano

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012





Lembrando Anchieta...


Esquecer, para a calma bailar um pouco
Apagar tudo que se descreve na areia
Todo risco é coberto, é movido
Imerso n´água tudo flutua...
Todo peso é mais leve
Toda certeza é nua

Uma espera
O giro lento do dia...
Desperto sempre com o vento vivo e sem dono
Com a lembrança da pele no toque frio do mar

E como apagar, se teu texto agora é onda
Mar, é areia, céu, vento?
Se a natureza é uma estante de antigos pergaminhos
Incunábulos, papiros...
Uma primavera de páginas revoltas
Se é professora e eu apenas um aluno tolo
Por pensar apenas
Que em tudo pode haver poemas

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Esquina do Mundo


Vamos só até ali na esquina...
vem comigo.
Não há muito o que falar.
Pensar, só um pouco. Talvez nem isso.
Nada de importante acontecerá de fato.
Mas tudo acontece agora...

Nesses poucos passos,
Algumas lojas, Algum café, bar...
Um gato macaco velho
Com um certo tédio no olhar.

Um barulho de fundo como esteira.
Trilha confusa e breve,
Desenhando no imaginário imagens que escapam
Pelo norteado olhar na calçada...

Esquina perto,
Nada disse, ou que lembrasse ter dito...
e virando-se foi embora...
Só me lembro que me deu a mão...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Presente

Aquilo que é é algo que tece uma narrativa própria.
Num completo silêncio a presença se desdobra em volume, como os ventos nos lençois estendidos.
Enche palavras pequenas, atravessa, explode as palavras pequenas.
Espraia em sentidos maiores que a palavra.
Inunda, naufraga qualquer que tenha forma definida...
Transforma tudo que se diz, em ruído de fundo. Nada importa...
E uma presença fica ali ao lado da outra
E nada mais importa porque a vida se mostra
Num momento suspenso, leve
O corpo se dissolve, desaparece...
E todas as perguntas se calam...