quarta-feira, 15 de março de 2017

esquina





mais uma esquina do mundo
parece única
por que é esse meu ponto de vista
que não é o único
mas é o que tenho
assim será o mais importante do mundo
não do mundo, mas do meu mundo

as esquinas se parecem
mesmo ângulo
sem serem as mesmas
pois sei que nos escapa tudo que é único
tudo que para muitos quase não tem importância

queria ter mais caminhos
como se pudesse caminhar neles
e descobrir coisas novas
mas saio carregando mapas
que desejo voltar

mesmo  essa rua sem saída
me parecia um caminho sem fim
um começo
o meio de encontrar
minha casa
meu lugar
meu endereço

e agora
parece que moro na rua
sem casa, sem quarto
sem cama
e parecia tão meu aquele lugar,,,







terça-feira, 14 de março de 2017

Segundo copo






o segundo copo...
fico olhando-o
como se fosse uma outra pessoa
em frente ao meu
onde me transponho também
em esmalte, cristal ou apenas um vidro qualquer

personagens sobre um palco
mesa singela
na qual espero me alimentar
matar a sede de um corpo vazio
por um segundo que seja

enchendo do que for para o momento
de cerveja ou vinho
de café ou água
de qualquer coisa quente
de algo frio, gelado
algo que evapore, transpire
que mude o gosto
em qualquer estado

basta apenas que seja
um outro copo
um outro corpo
ao lado










quarta-feira, 8 de março de 2017

poucas palavras





ainda não sei "pra que poetas?"
inútil a poesia, talvez
de poucas palavras
como seres que só sabem de si

palavras tão incompletas
como todas as vontades
fora das linhas
fora dos trilhos

pra que ruas, também
se tantos desencontros
andam por todos os lados, por aí?

fugir... inútil
por ruas ou poemas
perdidos, desorientados
fugir como o violeiro foge
na canção
nos tons
e nos dedos
os medos







quarta-feira, 1 de março de 2017

Devaneio














esquecemos tanto
a cada dia
do aroma que evapora
em tudo que é dito
com encanto de sorriso
em cada palavra
em cada vírgula desenhada no rosto
no canto da boca

será coincidência
o céu ter a sua essência
ao ver na nuvem branda
que só de olhar
muda o tempo da vida
e nos faz respirar?
um azul que invade o peito
como se pudesse voar

esquecemos tanto
de como a pele desperta
com o simples leve toque
esse jeito mudo de falar
bem mais do que pode a língua
bem mais que um poema
sem nada faltar

um corpo só
é um monólogo quieto
um grito sem eco
na gaiola do peito

tão presente é a incerteza
se esquecemos tanto
como algo que já foi vivido
ou terá sido sonhado
ou num devaneio, imaginado

misteriosa lembrança
essa que insiste sempre
forma estranha de se encontrar









terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Cadência






então a gente vai levando
mesmo que caia, subitamente
uma coisa qualquer

algum sentido
alguma força
ou, quem sabe, um dente
sempre algo cai
a coisa aparente que não se aguenta
a idéia da mente, sem experimento
a tez
o orgulho
o pano
a ficha

cai, cai o balão
que antes subia
que antes era canto e cabia na mão

cai a capoeira
cai bem, cai mal
cai a regra, a lei
o tronco
a semente
cai dentro, cai fora
aos pés
no chão

cai o pão, com manteiga para baixo
cai a sorte
cai o jogador
até o que cai levemente
a pétala
a folha
o orvalho na manhã

tudo cai, tudo cede
o muro que divide
a ordem geral
a conquista
a marcha
o símbolo
o pedestal

mas a gente vai levando
nas costas
na cabeça
nas mãos
na boca
uma vontade oca
de levantar

mesmo assim
a gente vai levando
a gente vai passando
a gente vai









sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Quietude




mais quieto, talvez
até tudo passar
sem vez, ficar de fora
e por fora, sem entrar

antes, o futuro
mas só se pode ter o agora
e o agora é uma ponte sem fim
que transforma toda chegada
em infindas pontes abertas
e a travessia, uma cruzada

andar, talvez mais tranquilo
e talvez seja tudo o que importa
esses passos, nada mais
ouvir cada instante
sem rumo
com prumo
no tempo desse coração batucador

andando cirandeiro
dançando na festa de qualquer dor
e se por acaso o amor for vilão
for a punhalada, o peso e o pisar
seja essa estrada
com curvas de sorriso
e olhares de improviso

apenas quieto
como a pausa que antecede a música
pra aumentar a fome
do banquete da vida







sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

por dentro, por fora...





se eu não sentisse
talvez seria branda qualquer dor
ficaria mais leve
sem tirar-lhe uma mínima parcela
seria como uma palavra num dicionário
com significado
mas sem sentido
sem corpo do texto
conseguiria o bom comportamento
o esperado e medido
com a mais alta perfeição
se eu não sentisse

trocaria os pesos por medidas
o encontro por uma reunião bem sucedida
a alegria por um bem-estar
a possibilidade por algo mais certo

só não sei se teria sentido a cor
ou o olhar que é mais que um sentido
o gosto, o toque, tudo mais, assim
não seria esse livro aberto
temendo virar a página
e os sentidos que estão por vir
daqueles que mudam por dentro
para mudar tudo por fora
como um livro que não se fecha
mas se guarda
um livro que tem nome
como se fosse alguém

não teria ouvido as canções
mesmo as que fazem perder
os sentidos das coisas por algum motivo
não me transportaria para a voz delas
não faria sentido a saudade
nem teria lido seu olhar
se eu não sentisse...