terça-feira, 28 de maio de 2019

fantasia





estamos sempre em algum lugar...
assim, não há por quê ser mais
qualquer distância
qualquer que seja o fim
que te separa tanto

se de dia somos atores
na noite somos o eu
pois a noite nos cobra os sonhos
procura sentido
mas alivia docilmente
com a carícia de um sono estrelado

depois desperta
cercados dum mesmo cenário 
que nos põe no mesmo roteiro de ontem
na mesma semana passada
nos trilhos que cortam os campos
os mundos de cada um

volta teu sonho
sonhar é um verbo futuro do presente
sonhar é semente
aurora depois do crepúsculo

sorria para tudo que ainda não foi
gesta no corpo 
cuida que as vezes dói

e cante
pois tristeza quer alegria
torna a solidão em fantasia
e tenha sempre perto 
uma boa lembrança
o que é bom recordar

invente a sua frente
encontre essa saída
aonde estiver
algum dia
em qualquer lugar



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Breve




Não sei voltar
Assim como o dia
Que nos engana ao renascer
Feito um dia da semana
Como se repetisse
lento

Nem sei ir direito
Como se tivesse melhor caminho
Ou como se desse voltas
Sabendo demais do lugar
À minha volta
Lar

Só sei que não paro por dentro
Quando me dou por insatisfeito
Ou quando me lembro disso
Quando me sento
Quando me deito
Ou quando vou me embora
Aguento

Ensaio esse texto de retorno pardo
Sem motivo certo
Ou com motivos cansados
Como um alívio breve
Mas que no pouco que me cabe
Serve

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

inútil




se eu tivesse mais cuidado
não teria ido
não teria visto
nem encontrado

tudo seria mais trivial
dormiria sete horas
faria tudo do dia
sem esperar por ninguém

não seria essa metade
que não cabe direito nos encontros
que não se encaixa nos bares
que não se conforta na cama

iria mais no quintal
e me alegraria com cada planta
ao invés de serem elas agora
uma beleza intransferível

se eu não tivesse ido
mas fui

se não tivesse visto
mas olhei demais

se não tivesse encontrado
mas me perdi...





segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Da cordis






que presente estranho dado ao corpo é o coração
será uma máquina de fazer a vida
que pouco se percebe, ofuscado pelos olhos
ávidos e curiosos como se tudo fosse o ver?

tem gente que tem o coração nos pés
para a marcha de fazer
para ir adiante
para fugir ou para voltar

tem quem tenha o coração na boca
a dizer tantas palavras
como se inventasse o mundo
e fosse preciso dar nomes a tudo
e vez em quando o contratempo de se calar

se o coração está na mente
será ora lógico, ora estúpido
terá todas as contradições pendentes
e terá que sempre jogar

ter o coração em alguma parte
será esta a que mais passa o tempo
a que no fim define
que fecha os olhos
que se omite
que para e já não permite o pensamento

se tem o coração nas mãos
é bom saber que nem sempre seguram
que às vezes estão vazias
que podem fazer tudo

que nem sempre tocam
e nem sempre são suas





Calendário




como pode ser um Domingo ou Segunda
como se pudesse ser um Domingo ou uma Segunda?
se não os sinto da mesma forma no calendário
se o corpo não é o mesmo Domingo de antes
se de um dia para o outro pode se parecer anos
pode nem sequer ter mudado direito mesmo tendo mudado

chega um dia que é mais que todos outros
o dia do tempo
do giramundo
dia segundo
dia adiado, adiantado

dia que pesa tudo que esperei
que sustenta um longo vão de pisos ornados
lisos, foscos, alinhados, espelhados
dia da medida dos enquadrados

talvez dia de um suspiro
dos barris tapados
de virar a taça
de saber que passa
de mudar a coluna para outro vão

instante que começa outros pisos lentos
a marcha uniforme
do soldado e da causa
da liberdade de costume

e tudo que eu precisava
era do mar

e meus pés descalços na areia...










quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Afago






ando, vejo, leio,
penso, resolvo, faço
estudo, aprendo, entendo
depois esqueço

sempre esqueço
o começo, o fim
mas algo não se perde
nesse meio

meio tempo, meia vida
meio de campo
meio do caminho

desse esquecimento
dessa rendição e fadiga
algo se abriga

e sei que guardo
lembro, escondo
penso, emudeço

algo não apago
pois me apego
e secretamente me afaga








terça-feira, 28 de novembro de 2017

Que será





ainda assim está presente
mais que nunca
descontente, fazendo-se estar mais ainda
quando se ignora

inventa algum estado de normalidade
para a tantos convencer que passou

muralha que se ergue
para poder romper os dias
e os sentidos que se perdem das coisas
mas que se desmorona na mínima dúvida
de que não passa de uma invenção de normalidade

sem pensar
é apenas preciso
preciso desviar
ser um outro que me sobreponha
ser uma marionete
mover-me
seguir algum roteiro
um que me engane
que me dê tempos, ordens, gritos
que me canse
que me preserve do insustentável

que me derrube
e eu seja sono
que me dê noite
mesmo que ainda assim esteja presente
mesmo estando ausente

de algum jeito será alguma coisa
algo sem jeito
que será