sábado, 22 de dezembro de 2012

Baile dos iluminados

                                                                                                


Pequenos pontos de luz
Parecendo de brincadeira
Como o que é delicado
Como tudo que é visto em miniatura
Mas são sérios planetas
Imensos...
Um pouco mais que os de Exuperry
Não tão redondos
Talvez como vaga-lumes que abriram os olhos
E não piscam mais
Pálidos de espanto...
Sem o senso d´um Olavo
Nem a piedade de três Marias

Manto do céu
Cheio de furos
Por onde trespassam as luzes dos camarins dos signos...
Das Celestes
Das Estelas...

Pai
Perdoa seus filhos
Não chores o leite derramado
Nem seja eterno o imenso
Como o silêncio de tua voz


(Pelo magnífico alinhamento desses misteriosos planetas do nosso sistema)






 foto: Luiz Braga http://www.galeriadagavea.com.br/category/artistas/



domingo, 16 de dezembro de 2012

Ainda nos sentidos




Me ensinou a beber um gole de cachaça
E a olhar com sabor...
A festa e o rito
Destilados nesses sabores que a alma condensa
A boca beija
E escorrem palavras
O lábio do copo
Na ponta da língua
Prova a primeiridade
E deixa que a espada do gosto mergulhe
E o aroma, emplumado, suspira
Um prazer que mancha a memória
Brevemente...
E insiste, esmaecendo
Como quem aos poucos adormece 
Com um olhar de sonhos...











domingo, 25 de novembro de 2012

Apenas




Queria te tocar
Com o indecifrável dos meus sentidos
Que não transpõem do corpo para um além imaginário

Tocar com um silêncio de escultor
Com a entrega das mãos que mergulham no barro
Como mãos de cozinheira
Tão rudes a preparar o sublime
Sem saber como tocar o próprio rosto

Queria deixar minhas mãos leves
Lentas como o azeite
Para te alimentar dum calor sadio
Como criança que só sabe o mais perto
Inteiramente nua para receber a primavera
Com o intenso dos odores
O brilho em sua pele
E banhar-se  inteira
Depois adormecer...


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Kunderiana


                                                                                                                                                   foto Carlor R.



Alma fatigada pelos excessos de uma vida reta
Transporta o dobro que aguentam os braços
Quando ainda mesmo cheios os vagões
No obstinado caminho
Das implacáveis estações
O inquestionável move-se
Retumbando uma nação de palavras
Que apelam a essa maltratada vida
E presenteiam elos tão estranhos

A devoção que pertence aos esquecidos
A coroa dos amores decapitados
A revolução que encobre as verdades
Que não cabem nessa língua
Que não protestam
Que estiolam em cantigas

Ser andante descarrilado
Teu cigarro suspira
Desalinhado
Na pausa de tua nudez
No contentamento dos pobres
Na grandeza da noite de um mísero catador
Na brincadeira dos cães
Por um olhar maior
Um silêncio maior
Pra esquecer a contagem
Pra desaprender de vez
Pra caber as roupas sujas duma viagem
Pra certeza do quanto sustenta um sorriso





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

sinos





Ainda ouço os sinos
não aqueles das cidades de Minas
aos ouvidos de Drumond
e das beatas que neles se consolam
na solidão da fé
na chama que eles acendem n´alma
caminhantes pelas ruas de pedra
na villa da serra

Mas ouço aqueles pequeninos
que não deixam, no mato e na mata
perdidas as cabrinhas
as teimosas que insistem em novos caminhos
nas alturas e nas lonjuras
onde as gardênias se escondem
do destino de jarro
sem sair do lugar

Ou serão os sinos como flores
com pétalas de sons
ornando a esperança
pontuando como botões que afloram
num compasso de desejo
um dia cor
num outro a dor
um dia chamando
noutro um adeus...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Vândalo Cometa





Passarei
No instante marcado
Entre as cadeiras do bar
Como o vento que quebra a calmaria
E a onda no mar principia
Depois de longa espera

Porei em movimento
O lento como a dor
Até que voe desse atormentado
Por seus moinhos cirandeiros
Dando giros suaves nesse copo
De asa branca e pires português

O quente, o frio
A louça e o cristal
Com suas notas nobres
Soarão distantes, esquecidos
Lacrimejadas serpentinas
Na festa da vida

Finda a bebida
O gosto
Sem mais vapores
Nem o arder da euforia
Intacta a medida do querer
A visitar tantos vazios

Caminha em passo de seresta
Só a noite, o vento e a não vinda
Vestem esse rapaz de terno e de ternura
Do eterno sonho que na rua se finda
Com versos sem  papel
E um mundo sobreposto sem caneta
Vândalo cometa




terça-feira, 25 de setembro de 2012

Estrela Banida




Na cidade há um mundo
D´um silêncio profundo
Silêncio de um mar
Donde é meu navegar

Por uma noite inteira
Caminhei sem destino
Um homem à beira
D´um menino

Na cidade há uma era
Que não permite a hora
Que guarda e que tem
O que é simples de alguém

Não importa se palavras
Voam como o vento
A verdade é
Um momento

Se foi por minha mão
Ou todos esses anos
Se foi só por dizer
É que agora sonhamos


Se olho o céu sem saber
Se vivo sem entender
se o mistério não diz
Resta só
viver


Recomeço meu dia
Por vezes distraindo
Da lembrança de alguém
Que só me vê sorrindo

Sem importar que a estrela
Não te fale a vida
Basta deixar no olhar
Banida

Resta só caminhar
Meus passos na areia
A canção que é do mar
Me apaga e incendeia

Se olho o céu sem saber
Se vivo sem entender
se o mistério não diz
Resta ser
Feliz

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Deserta




Volto, sem jeito
Atônito, no meio da guerra dos loucos
Na fome dos lobos
Na angustia das sementes tórridas
Na era perdida
Simplesmente, na vida

Sóbrio reencontro com as peças desarrumadas
Reencontro com as horas marcadas
Com o marco dos limites comuns
Desmembrando a unidade de minhas flores
Um outono de pétalas carinhosas
Evitando o chão, como borboletas tontas
Descolorindo o vôo

Meu atordoado pensamento de ventania
Lembro a casa deserta
Minha voz cortada
Meu deserto infestado de idas fugidias

Ainda o vento a tocar seu rosto
Ainda a geometria das sombras no elevado
Torre, intacta
Enclausurada de sonhos velhos
Como a serra da prata
Que parece um brilho de antiguidade

E tudo isso, agora
Em apenas um vago pensamento
Uma dúvida de ter existido
Um enigma
Procurando sentido...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ludens




À porta te esperei
Onde os passos faziam caminho
E somente a espera passava por ela
Como gangorra brincante
Enquanto, intenso, te imaginava
Ensaiava o movimento de um caminhar seu
Mas sempre a porta, como palco vazio
Como cenário oco

Atravessei com meu olhar tantas vezes
Até que eu fosse de vez
Descrente
Esperante
Desci, como escorregadeira
E só no pátio te avistei
Com um ensaio meu
Até que eu subisse à mesa
Como carrocel
Sem querer agora largar meus brinquedos
Sem querer crescer
Para sempre









                                                                                                    (imagem@vanilia)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

homo faber



Começar sem ter caminho
Encruzilhar as utopias
Guias de meu motor

Vida que não ensina
Não tem método para isso
Tem um infinito de simplicidades mal entendidas por seres incompletos

Homo faber, tolo
Ordinário tanto quanto necessário

Nas mãos um vazio
Um porvir de fazeres e toques
O limiar infantil do que podem as mãos
Um traduzir cego
Que entende, luta
E se rende...


domingo, 5 de agosto de 2012

Distâncias



Entro
Me acamo no largo dorso macio que plana
Por paisagens
Como lençol no rosto

A hora cavalga em largos passos
Tempos muito longes

Percorro lento, os caminhos de suas veias
Sem desviar os seus faróis
Sorrindo um sol e céu azul
Lançando percursos imaginantes
Em ternos desencontros com os meus
Enquanto os silêncios conspiram metades
Enquanto a música nos encena lírios personagens

À frente, a próxima rua
Atrás, a bagagem
O presente é ao lado
A um passo de sua mão
Que agora me segura
E logo me dará adeus




sábado, 4 de agosto de 2012

Onde





Achar a minha casa
O meu caminho
O lugar de onde verei o sol...
Ou simplesmente partir
Sem casa, caminho nem esperar o sol
E partir ser o meu caminhar
A minha casa ser esse corpo sem lugar
E o sol, será o meu olhar no mundo
Ainda que leve comigo
Uma pequenina foto de casa
A poeira do caminho em meus pés
E a lembrança do intenso calor da estrela minha
Partir
Sem importar pra onde
Nem como fui
Nem se estarei acolhido
Simplesmente terei ido







quinta-feira, 26 de julho de 2012

.....



















quando tiver tempo
pensarei comigo...
apenas eu sem que o tempo marque o compasso
sem que ele cadencie minhas palavras que dialogam comigo
sem que me conduza
nesse momento serei o tempo
reinante em silencio de flor
e tentarei me situar no mapa da vida
saberei claramente o que me confesso
o que me digo gostar
saberei eu
enfim..
e quando voltar
uma coisa saberei, também
que me calarei para sempre...


domingo, 22 de julho de 2012

Casmurro






sustenta...
um tempo de pedra
um muro de grandes vazios
sempre a imaginar o outro lado
sempre a tocar suas paredes
onde possa desenhar seu nome

aguenta seu olhar que recua
e esquece teu retrato de criança
visita esse campo que se esconde
no pó da estrada
repara tua fera
a ira é um canto de saudade
lembra...





segunda-feira, 9 de julho de 2012

Meu sertão



Quando falo sertão
Minha voz ecoa nos cantos de meu peito
Como numa sala vazia
D´um casarão abandonado
No fundo do sertão, casa de fazenda
Como o vento que faz redemoinhos pelo chão empoeirado
Sertão d´um tempo esquecido
de estórias que só as nuvens contam
Vidas de couro
De tempos de horizontes azuis
De silêncio agreste
Conversas de garranchos
Chispados pela ventania
Como o som de um mar
Um sertão que é em volta
que é laço e tronco
Silêncio de rosto de vaqueiro
Descanso de jornada
Cavalo reclinado na porta da venda
Único lume bailando formas nas paredes
Alumiando as "idéa" que pinga
Até que a hora se deita
Noiva dos solitários tropeiros
Se junta e entra 
Pro fundo de nóis...

(em viagem para Caetité...)

sábado, 7 de julho de 2012

Anti-poema




Sem poesia
Mesmo saltando assim para próxima linha
Dando essa forma, enganosa
Devo rir de quem pensar que é algum poema
Mas a força da "forma de poema" é tamanha
O ritmo das frases
Dissecados por estas minhas palavras
Como um espelho, com olhos de um analista
Só querem assustar a quem ler
Apagar qualquer significado que se forme
Não é poema, é um buraco
Apenas cavando um buraco com palavras
Nesse monte de terra sem nada
Cavando com muita energia
E nenhum raciocínio
Nenhum sentimento, ou talvez um sentimento revolto
Cavar estupidamente...
Não permitir o sentir um poema
Escrever des-escrevendo
Não é nada
É cavar e criar vazios
Até que me caiba
E me tornarei semente

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Viagem





Subo...
Algumas moedas sujas no bolso
Sem a certeza de jogador para escolher o assento
A sorte corrompeu-se demais de realidade
Café de posto
Gosto de sobrevivência
Lenta como os fios que crescem no rosto
Uma questão de tempo
E tantas questões perdidas
Tantos balcões
O doce que já acompanha
E quantas bocas já beijaram esse copo
Seguindo
Volto para o número par
O carro ja vai buscar
Como animal de carroça
Um outro abrigo da estrada
Berço dos retirantes
Barca das almas secas
Morada de errantes





Elevado





Chegar...
Apenas...
À dimensão que ocupamos no elevado
Ou será que as escadas nos transportam com suas asas?

Até o outro é o mais longe que se pode ir
O caminho d´um poema
Nos fazendo curvas
Inventando paisagens
Abrindo cortinas
Como uma camisa abre um peito
Como um livro aberto, abre-se uma janela
Como um livro fechado, fecha-se a porta
Chegar
Sentir o silêncio do mundo que se apaga
E nada mais
Nesse meu lugar nenhum...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Persona





o invisível oculto,
dentro...
sombra que mancha profunda o outro lado da face
como as construções palacianas escondem as mãos rudes
um fantasma  que não teme o esquecido
reclina-se ao chão
volta ao seu lugar inverso
vulto de sentimento
encerra em si o instante
e canta sua ária no tácito sorriso
silencia seu olhar no azul do orvalho
faz-se comum
segue destronado
e encontra teu iluminado






sábado, 30 de junho de 2012

....







Ho detto al vuoto, che ho amato voi
Ho detto per le strade deserte, ti ho amato
E dentro di me diceva: mio amore ...






Adeus







pequeno homem
muda de vida
a poesia do corte abre caminhos estranhos
com a virtude
com o sabor metálico das mãos
com o riso e a dor
olha o monte
a pedra
o céu
o amor deve pairar como as nuvens
acima do mundo
como o teto das igrejas
como a melodia que sobe
pequeno homem
a vida mudou
o passo
a passagem
o adeus
sejas fogo
sejas a lua
muda
desteme seu caminho
vai sozinho...




quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cavaleiro inexistente






E o corpo continua a dizer "frio", para o que é frio
 E "quente" para os calores...
Mesmo que dentro, habite em pensamento
No sentimento, a maior das dores
Continua ainda assim o corpo
Em paralelo...
Obediente
A traduzir o mundo 
Entre esse abismo do real e do profundo
Corpo, vida... amado...
Por que é o amor além 
Para além da única condição possível de vida,
Corpo?







terça-feira, 26 de junho de 2012

Cantiga








Minha fortuna de garranchos, pedras e estio
poucos lugares
velho sofá junto à janela
fim de caminho à beira da lagoa
imenso nada
meu capucho de algodão
pequeno livro que o vento folheia
além da a serra longe vai minha memória enriquecida
em cada pouco, o bastante
a sombra amiga,  a estrada
a espera
a cancela
e o nada









segunda-feira, 25 de junho de 2012

Velha estante






Velhos livros
Tanto tempo fechados
O tempo de uma vida
Silenciosos 
Esbeltos como templos
Em ruínas como o eterno
Somos tão fechados quanto os livros
Estante da infância
Muro dos conhecimentos
Corredores mágicos onde me escondia, em miniatura
Onde se escondiam meus personagens
Entre esses imensos blocos 
Que agora vejo 
Me assustando reconhecer seus nomes
Quando nem sabia ler direito
Mas sabia brincar com eles
E me arrancam do tempo
Apenas em vê-los
Sem que seja preciso nenhuma palavra... 









sábado, 23 de junho de 2012

Parsifal







A espera é a própria guerra...

O tempo são golpes de espada apurando o cavaleiro

Ainda protege dentro da armadura
Um coração de leão
Uma alma de ovelha
E a solidão dum vale

















quarta-feira, 20 de junho de 2012

Miniaturas do olhar







não soube levantar meus olhos pra ver seus objetos
como se meu olhar fosse invadir, intruso, um mundo além do meu
um além  mais antigo, de antes, nesses tempos que são intangíveis
que abrem uma memória sem os delírios instantes
um limiar de simplicidades
como peça que esconde a chave de uma transformação
como qualquer objeto seu sobre a mesa

a esfinge ainda paira sobre os tebanos...
assim como paira o ignorar de cada dia
o grande silêncio do estrondoso ruído do mundo
que veste a nuda alma de cada, toda, pessoa
como um rio que corre sem que digamos: corra!

e agora, confrontado entre a incerteza da vida e a beleza da existência
não sei em que lugar devo pôr  as minhas mais preciosas miniaturas
para além do tempo de além
um além meu
que sabe a intensidade do entendimento de sábios desconhecidos
e teme a proximidade dessas misantropias

não soube manter meu olhar em qualquer mínima peça,
porque queria tecer abraços
pelo portal, de cada uma, que se abria
e sim... não consegui olhar, apenas...
(tanto que queria...)



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Beleza










Que é do amor para os que sofrem no corpo?
Amarga o doce das palavras
Os raros requintes não pintam cores de horror aos que padecem?
Não será inútil a beleza?


Talvez...


Ainda que não possam saborear o beijo, os que tem fome
Nem saber o belo, diante de uma perda imensa
Mesmo assim, importa ao espírito ir além...
Banhar o corpo num rito solene, mísero, mas verdadeiro
Ainda assim importaria dizer
Que "viver não é pobreza"
Que é preciso invadir a ferida e corromper os sentidos
Trair a fatalidade
Com um amor doentio 
Sempre a proclamar a vida...









sexta-feira, 15 de junho de 2012

Tango brasileiro



Sempre lhe disseram, seja homem
Seja homem, seja mulher
E eles sempre repetiam,
Por aqui é bem melhor
O azul do teu caminho
Abre o céu que o dia traz
Embora a cor de rosa do final da tarde
É flor da noite que enfeita teu belo vestido
Para o teu marido

Rainha da noite de céu estrelado
Seja homem o luar
Seja mulher a lua
Seja o português
Seja a guitarra ou seja meu violão
Seja a música que toca-me
Seja minha canção

Será que o sentido nasce em todo lugar
Onde, então, terá nascido esse mar?
Ou será a natureza uma coisa só
Será com certeza apenas um par
Um casal de flor e espinho
Rosa do balcão de bar

Dança o teu contrário
Vestida de azul
Teu caminho, uma passarela
E te chamam de "Flor-Bela"
Com a fita de Noel
Que enfeita teu cabelo
Que enlaça meu olhar
Dando voltas de refrão

Toca o trombone
O violão sete cordas
O pandeiro e vem dançar
O meu tango brasileiro
Vem que Moura vai tocar
E já ficando lá, de fora
Vai ficando, eu vou embora
É hora de voltar


quarta-feira, 13 de junho de 2012






voltamos a cada noite
para o horizonte poente dos olhos...
cerram e se acendem trêmulos
como a luz dum candeeiro no ermo escuro da sala
como o nosso amor que definha
cintilante candeia perdida
sob o imenso céu estrelado...



domingo, 3 de junho de 2012

fim do mundo







Apenas um banco de madeira
Nada bem feito, mas feito com o desejo de ser um banco
Ali...
Onde podemos sentar e somente ficar olhando a paisagem
Olhar um vôo e unir o vôo à música
Banco onde sentam meus amores
Onde assento tão belos momentos
De onde Van Gogh pintaria uma tela
Também um Priciliano ou Portinari
Até eu mesmo me arriscaria escondido deles
Só pra dizer que foi pintura
Esse quadro impecável
Que pode mudar de cor
Azul, prateada água
Terra argilosa
Casinhas, árvores em suas estações
Num lugar, esse banco, onde não há mais caminho
Somente sentar e ver quem está ao lado
um lugar tão nosso
um lugar tão singelo
um lugar que parece ir a muitas partes singelas no mundo
um lugar que quero para sempre....




segunda-feira, 21 de maio de 2012

Pelos bons motivos







Me dê um bom motivo
Ou me ofereça um café
Pois assim saberei esperar
E sentir-me feliz com o cheiro que vier da cozinha
E depois estarei tão grato, ao menos farto desse pouco
Que não farei questão de nada por um tempo
Pelo tempo que o sabor ficar na minha boca
Até quando me lembrar que me oferecestes

Um bom motivo pelo incompreendido
Pela força que sustenta as coisas tênues
Pelas colunas de cristal
Pelo vinho derramado
Esse gosto roubado pelo desejoso aroma
Pelo preço da garrafa dado ao balconista do bar
Pelo que não se compra nem se pode pagar

Por saber que talvez não haja um motivo
E mesmo assim esperar
Porque o canto é por um motivo, não pelo cantar da canção
Pelo  esquecido que existiu
E renascido morre a cada gole
E ter que engolir
Porque assim deve ser feito sem explicar
O não fazer
O não fazer, bem feito...












sexta-feira, 11 de maio de 2012

corpus










Alma de chumbo mira a leveza das brumas aneladas d´um cigarro
Alma de ouro contempla a discreta luz d´uma taça de cobre
Esperando conselhos ocultos do tempo presente
Pra esse corpo que pesa e se move...

Deixar que o sentimento se expanda novamente
Que inunde as veias
Que visite o pensamento de perto
E onde quer que habite esse sentimento

Lembrar que o sangue que circula em meus pés
Passa em meu coração








domingo, 29 de abril de 2012

Incorpóreo




Não se espera
Apenas mover-se é o bastante
Enquanto não há sentido que ordene
Enquanto tudo que existe é um estranhamento incorpóreo
Que ri enquanto se desconhece a si
Não importa se as mãos nada tocam
Se perderam a métrica
Se o corpo parece um monte de partes reunidas
Que ainda não se entenderam, nem sabem quem as reuniu

Se se perdeu o olhar,
A voz e qualquer palavra que soubesse

Se o corpo perdeu a formação
E busca inerte a vocação de corpo

Em um momento...
Ele se encontra
E sai a procura do que o habitava
Ou de alguém que o habite
Ou de um outro corpo
Para acolherem-se mutuamente
Num encontro de ninguém








quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pátria




Do elevado ir além, por terra
Perder de si um pouco
Por todo caminho

Mudar o som do nome
Água, vinho, mar
Colher de cada canto
A poeira que sangra o turvo na maré
Sem saber de onde 
De quem
De qual curva de rio

E só saber do frio
Do morno
Do quente
Das quedas, das pedras
Dos barcos e das pontes
E um pouco das gentes





terça-feira, 24 de abril de 2012

Lider ....




A máscara da dor
É alma que assombra-se na luz dos olhos
Magro, perfilando um amargo sabor
Da boca do destino
Que devora
Pergunta
E responde:
Apenas um ser humano





segunda-feira, 23 de abril de 2012

Zéfiro

"Eis o que faltava, um pouco de música..."

Beijar as notas, cada uma...
Com o cuidado e a intensidade dos que se tocam
Assim o corpo da música tocará o seu corpo
Dançará com cada célula

Voará como voo de pássaro
E olhará o voo, não com o olhar de um turista
Mas com o olhar de um prisioneiro
Olhar com os pulmões
Como se fosse junto
Como uma verdade
Ainda que tudo em volta diga
O contrário silente de pés no chão


domingo, 22 de abril de 2012

Breve canto


Que volte mais tarde
Enquanto não se pode restar nada do íntimo
Nem dos mínimos sentidos
Dissipados pelo espanto que consome o tempo...
Mas permanecem como poeira
Numa sala
Num casarão
Poeira sobre um livro
Livro numa Janela
De onde se vê um riacho
Onde tem uma gruta
Perto duma árvore
Com muitos ramos de flores
Que foram colhidas pelo outono
Que foram bebidas
Com doces olhares
Tão longe de tudo isso aqui agora...
Mas que ao menos volte mais tarde
Como as canções que voltam
Como voltamos nas canções
Se ainda lembrarmos como se canta
Como se dança
Não importando como
Talvez, nem quando
E se não voltar
Escreve na poeira
O menor poema...





sábado, 21 de abril de 2012

Anima




A alma habita um poço
Profundo e secreto.

Uma escada dentro circunda esta morada...
Uma descida onde na penumbra
Ainda adentra centelhas de luz...

Uma escada de pedra, sonora,
Na escala de seus degraus,
Desalinhada como o compasso de um coração temeroso

E cada vez mais perto
Mai fundo nessa chegada.
Como um pouso
Uma pausa

Como um cristal límpido a água cintila...
Água dessa única alma
Do lençol do mundo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O pássaro-besouro


...










O beija-flor não conhece o beijo,
Mas sabe o essencial para a vida...
Tão ligeiro e breve
Como pessoas queridas
Que têm sempre muitas outras flores
que vivem num tempo-futuro
Tempo-de-beija-flor





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Casca

.......



A maior distância que pode existir
É a entre a existência e a realidade...
Entre o que é e o que achamos que é.
Entre um ponto de vista e outro.
Entre o corpo e o pensamento.
Mas a menor distância
É entre o corpo e o sentimento,
Entre o ser e o momento,
Entre a hora e o agora...
Distância é apenas o "entre"
E esse "caminho" é tudo o que pode existir...

domingo, 15 de abril de 2012

O resto de nossas vidas









"...o resto de nossas vidas..." Não me lembro quando, mas lembro que essa frase ficou em meus ouvidos. Não sei se é preciso, em algum dia, calcular o que quer que seja, já que não temos controle mesmo sobre a vida. Mesmo que a cabeça, no subconsciente reflita e suspeite de algum cálculo sutil que sempre permanece escondido, latente, ainda assim ou ignoramos ou mudamos... às vezes o que falta é energia. Uma insensatez capaz de reverter o mundo com todo o peso que possa sobrecair nos tempos que estamos mais afastados de uma euforia ou de um sentimento de revolução interna. No momento que nos entregamos num refúgio diário, num lugar seguro... O reconhecido, permanente e estável como um vale natal. Onde se pode acordar por muitas manhãs... muitas...

Temo perceber que a árvore de minha infância se encontra envelhecida... que, talvez, minha vida vá além da vida dessa minha árvore. Essas poucas que ainda são as que alí nasceram e nos ligam a uma história, um passado no qual éramos mais admiráveis pela ausência de tantas coisas...

Subir no terraço e mirar o céu... O som que do vento dissipando nas folhagens do  flanboyant... minha árvore...Pensar... no falso dos projetos de vida... e em tudo que vive, simplesmente...

Hoje estou entre dois continentes, esperando aportar em um outro mundo... onde tenha um pequeno deserto. Para caminhar por uma noite e descobrir, para onde vão todos esses barcos se o mar não tem fim nem começo... ou encontrar um motivo banal de uma viagem. Um carregamento. Uma série de carregamentos como pretexto para sempre criticar as viagens de barco e seus destinos. Destinos miseráveis, definhantes, precisos e implacáveis com suas rotas. Ou nada disso.

Quem sabe devia apenas invadir a casa de meu vizinho para desafiá-lo a uma luta de espadas com muita honra e por uma causa desconhecida, senão a própria aventura. Eu com uma bagem seca de sementes do flanboyant e ele com outra, como incansavelmente lutávamos, como incansavelmente morríamos...
como morríamos! incansavelmente...







...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Caminhamento






meu pobre olhar empobrecido...
que me fizeram, pelos meus ouvidos, para  perdê-lo tanto assim
e tão lento esse descortinar em minha memória...

as cores que cansei e não mais vi
as formas que se moviam e criavam breves estórias
os sabores da casa de meus avós...
os sentidos que emudecidos de sua própria linguagem
ficaram nessa fôrma de queijo e não como janelas
nesses recipientes limítrofes e não campos abertos...

hoje esmago docemente pequeninas frutas
para ficar com o cítrico perfume em minhas mãos
para tingir-me da doçura
e seguir provando
do esquecimento...
no meu quintal...






quarta-feira, 11 de abril de 2012

Olhar de Lucrécio





Suave e imenso mar...

Movias, arrastando tudo em volta
Meu mundo se perdia
A cada passo, estendia diante de mim
Uma caminho de pedra nua
Rua de prata brilhando em meus olhos
Como uma espada fria...

( atravessou-me aquele momento...)
Tudo mais se revestia de costas para o mar

Talvez fosse apenas eu que deslizava meus passos
 como uma barcarola
Asverus marinheiro comum
Para longe duma redoma impenetrável


O separador de mundos
O brinquedo imaginante...
Máquina do mundo.
Engenho da Bahia
Um mundo-ilha

Aquela barca,
Incontável entre os ancorados...
Nem era eu que mirava da praia as naus em chamas

Nem percebi
O esplendor daquela tarde

O imenso e eterno céu
O incandescente crepúsculo
O Porvir sem tempo
Nem a carícia do momento
Tão suave em meu  rosto de pedra

nenhuma palavra é capaz de te dizer
nem de cantar seu nome

mas, uma ciranda de palavras
chega bem perto

enche o copo de café
e observa os desenhos que a borra faz
como Palomar, olhando cebolas, peitos e a areia do mar

um longo silêncio tem todos os nomes
todas as mais belas frases dos mais belos livros dos...
Mas apenas escolhemos as que mais nos tocam

qualquer palavra pode dizer
até as que nada têm a ver
a haver....

a boca parece mais do beijo que da palavra
mais do beijo que da fome
e nem sei por que me toca tanto teu nome?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Punctus

"Sempre quis estar à frente,
para estar presente nesse tempo
que se nega ser o que nem sei.
Mas descobri que estar à frente
é estar por dentro,
é achar o centro,
arrematando as pontas que deixei"

Nota conquistense sobre o público

Um dos indicativos significativos que dão uma impressão, como todas as impressões que são apenas um recorte, porém, um recorte de uma multiplicidade e não de um corpo coeso, é a impressão que nos causa uma platéia.
Me senti movido a comentar um pouco sobre o público conquistense nesse último período de atividades que têm acontecido na cidade e que tenho assistido.
Em primeiro, a massiça comparecimento do público ao Centro de Cultura para assistir desde ao Verão Cênico à Mostra Conquista de Teatro. Em maioria teve entre uma boa quantidade de público a casa cheia. Isso nos faz questionar sobre o que que é de interesse da população, em relação a espetáculos artísticos, principalmente se o público vai assistir a trabalhos nunca vistos e que, em boa parte deste público, não tem uma referência sobre o que exatamente é a peça. Mas existe uma predisposição ao novo, ao desconhecido que renova o ânimo desses atores que há um bom tempo estiveram desestimulados. Algo simples que justifica o fazer sem que necessite de justificativas outras, utilitárias, acadêmicas ou de outra natureza. O fazer teatro, o ir ao teatro é um rito. A arte é uma rotunda de todo esse processo. Envolve amplamente aspectos presentes, sempre como parte que completa e permeia a vida, se essa merece dividir com aquilo que é essencial a alma, às coisas imateriais. Ir ao teatro é uma execução de arte, pois os leitores são executores, parte do mecanísmo no qual opera a performance. Ir ao teatro, ou a qualquer espaço que abrigue o fazer artístico em exposição, é contemplar a parte que lhe ocupa esse campo imaterial essencial.

Com poucas ressalvas, no geral o público conquistense tem se mostrado presente e com um comportamento invejável, como foi o caso das seis mil pessoas no espaço Miraflores, assistindo a execuções sinfônicas da Neojiba em silêncio. Mas também as manifestações de riso, ou breves interjeições no hilário de algumas cenas de teatro dos grupos conquistenses, como nas palmas ao final das peças.

Todos nós temos muito o que aprender com cada espetáculo, ou temos apenas que sentirmo-nos mudados, transformados pelo simples ato de conviver, viver-com, estar junto, presentes. Criticando, elogiando, protestando... da forma que for, mas de alguma forma, mais perto.

segunda-feira, 9 de abril de 2012



Ao ver um sabiá
Estaca, antes que eleve o pensamento acima das árvores
Pondera

Pena
O cair duma ideia

As poucas folhas do pomar da musa
Colhas

À sombra, ouve o canto
Pranto

Antes da primavera
Espera
Depois da alvorada
Nada...


quinta-feira, 5 de abril de 2012

....

nenhuma palavra é capaz de te dizer
nem de cantar seu nome

mas, uma ciranda de palavras
chega bem perto

enche o copo de café
e observa os desenhos que a borra faz
como Palomar, olhando cebolas, peitos e a areia do mar

um longo silêncio tem todos os nomes
todas as mais belas frases dos mais belos livros dos...
Mas apenas escolhemos as que mais nos tocam

qualquer palavra pode dizer
até as que nada têm a ver
a haver....

a boca parece mais do beijo que da palavra
mais do beijo que da fome
e nem sei por que me toca tanto teu nome?

terça-feira, 27 de março de 2012

O contador de barcos












Ela via no reflexo das águas daquele mar
Tantas embarcações...
Barcos de pesca, navios
Até mesmo uma canoa
Dividindo as águas...
Ondulando e desfazendo o céu que invertia o mundo...
E fazia desses barcos quase aves,
Distraindo-se a olhar de um para o outro...
Até que veio a surpresa...


O misterioso que navegava escondido como os peixes,
Num outro mundo...
Como  no mundo do céu onde desenham as nuvens paisagens,
Ele, um submarino.
Despontava mágico e lento...
podia ver todos dos navios a contemplá-lo:
Capitães, marujos, cozinheiros tripulantes.
Mágico como uma baleia...


Não era nada. Nada existia.
Nem capitães, nem tripulantes, nem marujos...
Os navios eram alguns restos de lixo flutuando.
A canoa, uma casca.
Uma lata de cerveja que não tinha afundado direito...  o submarino...


Tudo aquilo era apenas num esgoto da favela
No mar, puro mar da imaginação duma criança...











O Canto do Corvo ou: Kafkiana nº1







Eu descia, descia em curvas...
Com toda aquela gente...

E nem sabia onde dariam todas aquelas portas
Já não importava em que mundo sairia

À frente, também descias, descias com o mesmo silêncio...

E a cada degrau, badalava, badalava permanentemente:
_ Culpados

quinta-feira, 22 de março de 2012

parole

qualquer palavra pode pesar muito.
ou ser leve...
ser um vapor ou uma semente emplumada flutuando...
pode ser mais que dois sentidos.
ser todos os sentidos que cantam nela,
e pode ser o não dizer, sendo mais que o silente...
pode ser os contrários num beijo entre o falso e a verdade
como diante do espelho
pode ser a palavra bem dita
a força ou a alma
o tom ou o sussurro
o inominável...
desses faladores, faladores,

quarta-feira, 21 de março de 2012

série fakebook nº1





Sejamos honestos, está tudo errado. É quase tudo em vão
Sejamos honestos, não precisam de nós todos os dias. E tanto disso
tudo parece ser desnecessário...


Sejamos honestos ou trapaceemos logo de vez. Embora sabendo da
trapaça... pois isso não haveria como esconder de nós mesmos, ou será que
aceitamos a loucura?


Sejamos honestos, sabe quando seremos realmente honestos?
Talvez nunca...

























sábado, 17 de março de 2012





Poesia,
Manto que envolve,
conforto estranho que cobre e deslisa
cúmplice nos íntimos percursos do corpo. 
Corpo que nela encontra voz,
encontra uma boca, 
instrumento de virtudes e de zombarias,
de cânticos e gritos,
de silêncios esculturais...

poema, um outro que é também o próprio poeta,
esse tal que se promete além,
sem ver a si,
tão qualquer, tão comum por fora e nos lugares
Este se envolve nessas páginas como no manto.
Essa ilusão que cerca, 
que retorna,
que gira sobre si,
assim como a terra
E não evita suas estações

Corpo retorcido, controverso
transpirando a alma que é sempre mais presente
essa que é sempre a que espera,
que sucumbe ante a integridade das formas.
Alma, água capaz de fazer os seres beberem-se
sedentos de essência nua...
Capaz de apaziguar a guerra da insatisfação e do desejo,
Com silêncios de derrotados e sorrisos de estúpidos delírios,
de novos vazios
esses nadas que se manifestam
e conhecemos pouco de seus tamanhos...
estes sempre estranhos...







quarta-feira, 14 de março de 2012







poemas tergiversam o olhar
uma cruel brandura de inocentes famintos... 
um romper de colunas
de pernas que sustentam o credo das coisas
na vertigem que se entrega em extase a uma dor amiga


queda...

nesses  braços que tornam leve essa ferida










quarta-feira, 7 de março de 2012

Conto de fados



"Ele morava na mesma rua"
E ela tão nua e deserta
Tão suave como as curvas dos trilhos
Ébrio, em desalinho, comigo

Cada esquina é um caminho
Dando voltas de canção

Encontro muita gente
E sou livre, como um cão das ruas
Um coração sem dono
E pulso no peito da cidade...

Não é preciso amar
É preciso viver como as ondas que marejam o Danúbio
É preciso saber morrer como as folhas desta estação
Sim, é preciso cultivar
Amar não

É preciso encontrar a perdição
Ter estômago
aceitar a razão dos atos
Desvendar a feição das cenas
Matar a personagem e descobrir o autor
É preciso saber a dor
Morder a maçã e saber o gosto da abóbora
Mas, já são 10:35, minha carruagem vai partir

Mas é preciso guardar o encanto
O enquanto
Voltar e rir
Quando lembrar
Quando partir...

(Linz, 24/08/07)