domingo, 30 de março de 2014

curador






volto ao meu banco
àquela paisagem que muda sempre
e zomba de minha memória
me confundindo as cores
as tantas formas que em vão penso serem as mesmas
e são as mesmas
ora mais, ora menos
as que nasceram e as que não se extinguiram
elas também mudam em si mesmas
apesar de minha insistência
que a quer sempre esse fim de mundo aberto
como num quadro amado

volto sem saber o que é voltar ali
a essa paisagem que expulsa
a qualquer que deseje o sempre
que não saiba permitir a liberdade da vida
ou sua condição fundamental

ainda assim, vir para encontrar algo
da curadoria dos quadros guardados
para vê-los no instante dum piscar
na fresta do fechar de olhos














quarta-feira, 19 de março de 2014

Mutações




tudo tem que continuar...
agora que já é movimento
que não se pode soltar

tão incorpóreo mas real
invadindo o presente
adentrando a intimidade como novo familiar da casa

continuará em sua queda
inclinação que dança a música eterna
como os ciclos da terra

não atende a gravidade dos momentos
leveza que rompe cada partícula dos seres e das coisas
libertando-as de suas formas
e dos corpos que retêm

o além das mãos seguras
das insistências amadas e pequeninas
ante a essa imensidade instante

tudo continuará, certamente
como incerteza sólida
como as nuvens que continuam mudando
sem precisar gerar nomes

tudo, como antes
e como agora






sábado, 15 de março de 2014

Cantata





o coral finda a sinfonia
aquieta-se como uma nação vencida
que não sustenta o olhar entre si
último movimento, vacuidade do fim
o a partir, agora, sem valor algum

é quando tudo torna-se mais leve
quando a cama desliza para o meio da rua
os sapatos dançam na pia um cinema novo
e garfos e livros juntos num trabalho de outono

a nova lei paira nos ares
com cheiro de peixes azulados
o aroma das carnes aflorando
canto dos cutelos na pedra rósea do altar
entoam uma revolução musical

o momento toma emprestado o corpo
e lhe repõe no engenho do mundo de estivadores mudos
deleitando-se com o cigarro
lenta, a fumaça desenha um corpo de mulher
se desfazendo na penumbra e na brisa...

canto, o hino dessa nova pátria
sob o mesmo céu, mesma terra
mesmo rio da aldeia
sempre ali, como os dias
sempre como espectador cego
das fábulas vivas...

ou somente rio
é o que no fundo deve ser
apesar de todos...



sábado, 8 de março de 2014

Entreaberta





Aberto. Somente...
Esquecida porta aberta
Perpassado inteiro
A mente e a mesa aberta

Objetos pousados, soltos
Hierarquia do acaso pouco
Lençol em branco

Uma noite gesta um dia nascente
A solução do mundo
Cor sépia e quente nas mãos à boca

A vida se declara desmedida
Em frente, aberta...

O que importa
O que é

Mera imaginação de sono e rendição...