sábado, 4 de abril de 2015

Sine Die

Abro os olhos fixos no infinito das coisas vazias a sua procura
a procura dos teus sentidos ou do som de teu suspiro
o ar não me basta aos pulmões nem o frescor dos ares me refrigera
calor estranho que me dilata e me verte em esponja dos males
desfilo num mergulho patético em coisas medíocres
em assuntos pobres
como se a noite não me fizera bem

(sine die)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Instante





é preciso ir agora
desdobrando os mapas
com caminhos bordados e perdidos
neste mundo aberto que desfez a cama
logo cedo, de manhã

desfazendo o círculo para a reta
invertendo o perto
rompendo os corpos
sem nada retirar-lhes

movimento que estica sem partir
confundido o abraço
com o segurar sem abandono

sempre e agora esse equívoco
quando se percebe a força do instante
ínfimo, mas que cabe todo o universo



quarta-feira, 4 de março de 2015

Nova ordem







mudaram as paredes, a terra e o piso que refresca os pés
mudaram os rostos e os olhares, sem pedir licença
sem atenção ao meu costume, assim, de vez
sem caber o cenário desta peça inacabada

cada tom de cor e forma que me rodeava
lado de fora que me guiava
agora é dentro a se esconder do mundo
é livro na estante confundindo as palavras que se juntaram
de uma e outra página, nesse espaço mínimo sobreposto

e que fazer com o novo vinho se a taça está ainda plena
ou com os caminhos que sei andar de olhos fechados

o tempo em marcha insiste tanto agora em me despir
e um arrepio de seda desliza em minha pele

a incerteza flui, gravita sob nova ordem
até que se torne íntima












terça-feira, 3 de março de 2015

Quietação








assim quieto
pensamentos cansados de correr
poucos passos depois dessa jornada
mente descalça para o corpo da estrada

alguma liberdade, ainda
ou maior que a imaginada
nascente e quieta
já sabe dos horizontes
mas não conhece a manhã seguinte

não há um fim
apenas essa pausa dura
o corpo e o sono
em prelúdio menor

o silêncio me lembra
do maduro ser doce






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

impossível
























as águas desse pequeno riacho têm mãos fortes da vida
tem nossas almas em sua correnteza
tocam forte nosso tronco
águas densas e cristalinas

estranha presença dessa vida
estranha força que nos aperta
estas carícias da existência e suas levezas imensas
suas formas tantas contradizendo as histórias que inventamos
pra sermos metáfora do impossível ou pra existir essa palavra
e nos vestirmos dela e nos aquecermos da indiferença
da falta de diálogo entre o sentimento e o real

tão simples esse riacho
cristal que molha as páginas desse caderno de sonhos com o verbo da água
tenho pena dele e da natureza
pois não conhecem o amor
nem jamais lerão esse caderno








quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Indo






indo...
despertar no silêncio
romper o vazio com sons
paisagens breves esquecidas
encrostadas nesse rosto de vida

um olhar o fio comprido do horizonte
no mistério dos tons dessa miragem
de planuras e incertezas
de devaneios de menino

expressão pouca
banindo o desnecessário
ante as profundas verdades vivas
insubstituíveis como a malva
as pedrinhas e a criação

terno encontro no espelho do tempo
na lâmina das águas
nas mil línguas do fogo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O outro lado






serra e vale
corpo do chão
adentram pelos olhos neste caminho
num tempo eterno

pontos brancos de lírios
se abrindo entre as folhinhas verdes
primeiros flocos de neve no sertão

na gruta junto à cancela
castelos de cristal e mica dormem
até que um conto, ao pé da fogueira
os desperte em noite de breu e pingos de estrelas

lá botarei um banco de madeira
pra ver na água os reflexos
que me escondem do outro lado

útero do tempo que me renasce
e me devolve o olhar de criança
pois somente sendo pequeno é que se cabe nesse berço

casa da minha casa
te beijo com meu sorriso...