domingo, 9 de agosto de 2015

Aurora






até quando sustentar a pálida aurora
que insiste silenciosa todos esses dias
sem as cores de fogo
para romper o cristal da taça vazia?

por quanto tempo o corpo
e a marcha da instituição social
ordenará leis mais importantes que o acaso de uma vida comum
que inventa fugas do seu quarto?

tantas perdas por ganhar
tanta coisa

o muito sempre foi deserto
e o desejo é uma caravana de perdidos
no meio do festival de coisas concretas

leve suspeita desse peso desajeitado
prestes a ruir ao encontro de sua natureza real

sustentação do insustentável
a qualquer custo
sem uma razão sequer
sem perguntas
elas são demasiado humanas
impróprias e proibidas
porque são simples
como um raio de sol






domingo, 26 de julho de 2015

Desafinado




perdi o tempo
aquele que é impulso
e que descansa o coração
o que se deixa levar pela cantiga
que me projeta para as esquinas
me faz identificar tons de taças
ver os desenhos na borra do café lavando os copos
e ouvir texturas com as goteiras

o tempo é sem maneiras
movimenta
é instante e tem forma de vento
como esquecimento e despertar

agora tudo parece um pós concerto
sem nova data
instrumentos recolhidos
longe dos dedos e das bocas

não sei quanto tempo demorará essa fermata
gesto imóvel, guardado
nem sei o que faço aqui neste teatro vazio

mesmo assim, em contratempo
sem desmerecer a edição de ponto e linha
ainda sou mais os manuscritos
tão incandescentes quanto inacabados
no bolso de dentro
à espreita das mãos
a qualquer momento



quarta-feira, 15 de julho de 2015

immobile






correnteza...

sem mar, nem rio
ou ventania para as represas

folha despencada com seu peso do mundo
cortando o invisível em revirada
outono desgovernado

cortina leve e cinza
de nuvens sem forma
suspiro inquieto

estrada cega
nem peixe nem barcarola
pela campina de ventre aberto

se eu soubesse essa dança
a folha seria asa
para ir ao canto desesperado
e o vento, sei que seria todo meu sentimento





















sábado, 23 de maio de 2015

Sorriso







era uma noite de rua
toda em paralelepípedos de nuvens
e céu de Van Gogh

e nela foi o abraço de sangue corrente
o toque de mãos fluorescentes
olhar vivo de brilho agudo

era apenas a existência
e tudo que é intransponível ao corpo
era uma vez eterna 
uma resposta
tão simples como panelas penduradas na cozinha

a grande obra d'um anonimato
na brevidade 
instante em que todos os problemas foram resolvidos

beco perdido
a plenitude em um banco de rua
agora guardado
como a mais bela tela na escuridão da noite
de rara visitação










quarta-feira, 20 de maio de 2015

Telhado e céu




O tempo passou como uma ventania
essa rajada, essa boca de vento
aqui mais perto, levantou a poeira
e descobriu um pouco, coisas esquecidas

exposto ao tempo
exposto à existência
esse olhar congelado sobre essas coisas
trouxe aroma dos campos, duma primavera imperceptível
das primeiras flores dessa terra de duas estações
e olho essas coisas como se fossem dois tempos
o antes e o agora
é duro o agora ser o depois

não se deve ver a vida assim, tão esticada
nem deve esticar assim esse pequeno corpo
esse ponto que caminha entre as árvores
que caminha sobre a terra
esse olhar agora para o céu
imenso céu, repleto
ver o grande vazio da imensidão
como o infinito dentro da gente quando olhamos para o céu

esqueço, lembro
mas guardo essa vontade de esquecimento
como um telhado que espera  sol, dia, noite, sereno...
e vez em quando uma chuva
depois, a ventania secando as telhas
suspirando o frio 
e o raiar do dia


sábado, 4 de abril de 2015

Sine Die

Abro os olhos fixos no infinito das coisas vazias a sua procura
a procura dos teus sentidos ou do som de teu suspiro
o ar não me basta aos pulmões nem o frescor dos ares me refrigera
calor estranho que me dilata e me verte em esponja dos males
desfilo num mergulho patético em coisas medíocres
em assuntos pobres
como se a noite não me fizera bem

(sine die)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Instante





é preciso ir agora
desdobrando os mapas
com caminhos bordados e perdidos
neste mundo aberto que desfez a cama
logo cedo, de manhã

desfazendo o círculo para a reta
invertendo o perto
rompendo os corpos
sem nada retirar-lhes

movimento que estica sem partir
confundido o abraço
com o segurar sem abandono

sempre e agora esse equívoco
quando se percebe a força do instante
ínfimo, mas que cabe todo o universo