terça-feira, 22 de dezembro de 2015

mundo








o mundo às vezes não existe
não existe sem o tu, sem o alguém, o nós
ou bem mais que essas pessoas confusas
a sobrepor outros sentidos de mundo

o mundo é um mundo de mundos
mundo de adjetivos, de substantivos
de verbos sem lei
de gramáticas com terno e gravata
e outras com camiseta e sandália

mundo onde dança o verbo
um mundo de gestos
misturas e encontros
um caos de escolhas
umas mais pra lá, outra mais pra cá

não se pode falar do mundo sem ser pequeno
pois não cabe se for dito com todas as palavras que existem
nem se conhece seu corpo
cabe apenas um silêncio de estar no mundo
dialogar com ele como se fora dele

mundo que é como Deus
mundo que nos assiste
mundo só uno

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

traditore




as palavras me cansam
pois são dum texto inúmeras vezes dito
ou pensado
enquanto espero

se eleva dentro o que não tem voz
voz na voz, voz no corpo
vai sendo carregado
com sua forma inconstante

vai querendo ficar perto
ensaiando e aprendendo
a conjugar as pausas
e a imaginar o que virá depois delas

pausas sem ritmo
pulsam o ir e vir
como o que não se ignora
por pertencer

rascunhos breves
estes guardados
valem mais que livros

tem língua própria
o não dizer




domingo, 15 de novembro de 2015

sobrenome






José ou João
tanto faz...
trocou o lugar na mesa
trocou a esperança pela hora do almoço
o prazer dum beijo pelo sabor do café, depois de comer
trocou os pensamentos pelo sono,
sem se lembrar dos sonhos
enterrou suas questões como se enterra um pássaro
e se tiver nele, em seu intestino, alguma semente,
que brote ao acaso
como as plantas que nascem entre concretos
trocou o ser pelo que já é
sem se importar com o nome
deixou o juízo para os outros
deixou de se inventar
para transformar as respostas em meros sons
barulho de chuva, de riachos
de folhas no vento
de máquinas ou instrumentos
perdeu a condição de ator
transferiu-se de Édipo para esfinge
desvelou suas roupagens
para ficar mais leve que o lençol
para cuidar dos instantes
no tamanho deles

como tem Zé no mundo!
como tem João
e poucos o são



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Impromptu





o mesmo caminho.
sempre o mesmo de repetidos dias
com muitos desvios possíveis
mas seria o mesmo
naquela e em tantas outras tardes

já sabia onde pisar sem levar tropeço
conhecia o melhor canto por onde ir nele
sabia onde eram as fendas, os relevos
e até as pedras que mudaram de lugar
sabia mais que as casas, das vidas imóveis

tanto sabia que não me preocupava
ia como cavalo que volta do serviço do campo
já dispensando as rédeas do vaqueiro
desarmado dos arreios
sem discordar das coisas
qualquer delas

naquela tarde o caminho já não existia
além de um pensar bem distante dos pés
era um lugar nenhum, tempo algum

a tarde não se repetia nunca
mas esse mergulho era a saída
que me fazia ser cavalo
que ouve o som de suas ferraduras
improvisando melodias na pauta da rua

ia levando um sorriso
por estar inapropriável, indômito
porque era uma estranha liberdade
o não debater-se com o mundo
e seguir apenas improvisando
bem baixinho pra ninguém ouvir








domingo, 18 de outubro de 2015

tragicomédia




eu tento convencer minha vida
que os passos que dou nessa rua
parte em pedaços o chão
pedra nua do coração
se ela fosse minha avenida
eu subiria na contra mão
ou seria rua esquecida
beco sem saída, esquina
dos bares de muitas canções
casa de poeta alugada
árvore da beira da estrada
em noites de breu e luar

vou pela rua dos desenganos
tentando fazer outros planos
sem de novo ficar na mão
dum verso de uma poesia
corda bamba cada dia
que fica iludindo meus pés
achando que tudo é destino
um circo no olhar de menino
achando que era uma vez
uma flor numa folha vazia
a espera de uma melodia
do pantomineiro outra vez

eu preciso sair dessa vida
preciso achar a saída
e encontrar de vez meu lugar

eu preciso perder esse costume
essa coisa que me consome
de sempre querer, de querer te encontrar

preciso sair dessa vida
de me afogar na bebida
depois ir tombando pra beira do mar

preciso perder essa memória
subir a ladeira da glória
depois ir sambando pra beira do mar
tombando e cantando, pra beira do mar








segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Fuga Nº 2





narrativa silenciosa dos objetos
numa língua morta
Lázaro instante em que as vejo
e contemplo de minha frágil trincheira

dias de guerra fria
mutilações incorpóreas
mapas perdidos nas travessias
guerra sem lados
sentinela insone
confrontos da espera

são apenas os dias
nada mais que isso
nada mais que o exército de coisas
o pão da padaria
o café, o vinho
o preço e os produtos
a lista de necessidades em marcha

no pouso dessa jornada
mesmo que a fumaça do cigarro
insista em me lembrar de nuvens
e a me desarmar a pele
será como um soldado
deitado na campina
desertor da guerra
olhando o céu


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Abarcar




É preciso urgentemente um barco
sem descobridores

veloz e amplo pra recolher a vergonha dos mares
para acolher as lágrimas
essas mil gotas do alto mar

um barco que abarque
a esperança e o infortúnio

Não o barco de Caronte
sem farol e sem porto
no qual naufraga da humanidade

um barco sem a solidão do jangadeiro
sem a odisséia e as estrelas em cruz
para cruzar os mundos, não os braços
para reinventar a geografia
pra expandir o olhar e o sentimento


é preciso um barco, uma barcarola
feito canção de ninar
que livre do pesadelo
e da tempestade humana

um barquinho de papel
que possa, na travessia do profundo,

flutuar...