quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Como dois e dois

 


preciso equacionar minha vida

buscar a matemática, ao invés de me quebrar em pensamentos

do Zéfiro ao infinito, encontrar um teorema

que me dê melhores estimativas que esta mera tabuada de dias seguidos


preciso reaprender a somar os bons momentos

subtrair os que foram indesejáveis

dividir as alegrias

mesmo que em muitas investidas tenha eu igualado a zero


guardar segredos em nova matriz

encontrar a raiz dos problemas mal resolvidos

encontrar os valores incógnitos, quer sejam mais ou sejam menos


quem sabe eu encontre um caminho periódico, que não se repete

mesmo em companhia dos pares, dos primos


mesmo multiplicando as incertezas

vou rabiscar mil cálculos de pedras preciosas

formando colares e terços infindos

rabiscar mil palavras, poemas diversos

na areia da praia, esperando o apagar das ondas marinhas

a me dizer: era apenas risco na areia, no mar, nada






Passarela

 


é hora de dobrar a esquina

antes de ser atropelado pela desistência

é hora de trocar a cidade pelo vilarejo de dentro

aquele abandonado, empoeirado pelo tempo

esse velho endereço escondido pelo futuro

este monumento que não é invulnerável ao tempo


talvez seja necessário transportá-lo para a metafísica da arte

que é onde se pode eternizar uma flor, mesmo que passem muitas estações

ingenuamente, mas, com simplicidade

e desde que ao revisitar essa representação lhe venha um sorriso


é hora de não ter hora certa, de dar tempo

e ser como o tempo que muda

tornar inevitável o ser para além de qualquer modelo

para além do olhar de todos que estão aquém do seu

olhar esse, talvez, perdido

que espera tanto algo acontecer

esse que nem se vê

nem mesmo diante dum espelho

olhar de pedra, paralelepípedo

nesta via sem passarela



domingo, 20 de abril de 2025

Cacarecos


Não sei se por cansaço, não sei, dos redemoinhos, talvez, que não nos permite pensar
quando nada consola ou abre o dia, nessa pausa breve que muda o sentido é um momento das pequenas coisas. Coisas pequenas, sempre em volta, mínimas, as que têm apenas uma história própria.
Pequenos quebra-cabeças, miniaturas de todos os tipos, dadas por alguém. alguém conhecido, que se viveu por anos, ou apenas conheceu em um dia. Um amigo, um amor, um estranho...

Pedacinhos de papel, que se guarda por algum rabisco, como se fosse importante guardar.
Para guardar ridiculamente um momento.
cadernos de música com muitos escritos que não notas musicais, desenhos, versos...
Tantos papeis, pedrinhas, conchas pequenas, uma infinidade
Memória em pedaços que segredam seus valores, sem o valor aparente.
Coisas sem lugar, fora de lugar

Sei que tudo isso que não tem lugar cabe em mim e se uma delas sumisse, sentiria falta
e perceberia o lugar dela.
Só existem em nós. Nem é guardar coisas. O sentimento é que faz isso.

Nem sabia por que guardava com tanto cuidado, mas agora vejo mais claramente e terei cuidado se eu vir algo pequeno por aí. Pois pode ser de alguém.

E não.
isso não é um poema...




Dois Tons



Tem uma moça que é leve feito uma pluma
Mas não tem pena de quem a vê
Castiga sem dó aquele seu sorriso
Quieto querendo se esconder

Sei de  uma nuvem que é só dela
Como a vela dum barco no imenso mar
Que ora chove, ora parece pintura
Que esconde o sol e veste o luar

Ela some, ela vem à minha janela
Como flor abrindo seus botões
Breve ciranda faceira
Meninas dos olhos de dois tons

Se muda seu tempo, sai de baixo
Perigoso raio de olhar peregrino
Mas se se acalma, é doce e mansa fera
É sorte de quem se desespera
É norte e sul
Perdição e caminho
Paz e tormentos
Rosa dos ventos