domingo, 19 de abril de 2026

Minha Inspiração

 



Minha inspiração

foi em busca de uma canção

que dissesse

que confessasse

todos meus pecados que não cometi


foi em busca do meu violão

que desafinado deixei ao luar

tão prateado, tão cinza e vazio

sob um céu estrelado

numa noite de frio


A minha inspiração saiu

saiu sim

pela porta do fundo

pela pausa do verso

pelo cais do meu mundo

partido, incompleto


E a palavra ficou esquecida

talvez enterrada em algum lugar

quem sabe ela esteja aqui bem perto

ou aqui dentro ela fez me calar


Minha inspiração ficou

ficou sem jeito de se aproximar

desse corpo que tem tanto medo

de de novo cantar esse corte

feito a música de Belchior


ela ao menos me tem cuidado

no instante da delicadeza

no instante em que eu desisto

única mão que me toca

e que pode me resgatar


minha inspiração é tudo que me resta

mas nunca mais quero saber os motivos

que a fazem nunca sair de perto... 








segunda-feira, 13 de abril de 2026

Uma ode à alegria




cantar, cantar pra dentro

cantar o meu tormento que parece não ter fim


se chego ao fim parece uma chegada

uma nova estrada pra dentro de mim

sentir é pranto, nuvem mais escura

cai no meu canto a falta de amor


fico isolado, lado do sem jeito

o lado do peito, o corte, o coração

mais que de lado, já não sei ao certo

se cheguei no centro desse furacão


abro a camisa, vento no meu peito

corpo que anuncia uma nova estação

se a chuva cai, leve em sua calma

lava minha alma seca do Sertão


sei que o caminho agora não tem volta

porque escolhas são o que se quer

não cruzo a linha vermelha por nada

só quero que você seja feliz


se o mal me quer é a pétala que falta

vai, segue em frente sem olhar pra trás

escolho ser quem não invade o espaço 

da minha metade, para nunca mais


por isso eu fiz essa sinfonia

que marca o dia do adeus

não tem concerto nem cantoria

pauto a minha vida agora sem você


só sei sentir, talvez demais

entrar num mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que amei de perto


só sei sentir, talvez demais

entrei no mar aberto

Agora eu sou, agora eu sei

O que é amar de perto



(Inspirada no longa metragem de Matheus Augusto, "Nosso Mundo Meu")

Link para a composição musical sobre a letra.




sexta-feira, 10 de abril de 2026

Carteiro

 



a primeira vez bateu à porta

ninguém atendeu

quem sabe lá dentro deve estar ocupada

está longe da sala

talvez no quintal

foi o que pensou o carteiro


a segunda vez, voltou a bater

um pouco mais alto

um pouco mais forte

e com uma certeza

onde quer que fosse seria ouvido

na sala, cozinha, talvez no quintal


sem resposta parou ponderadamente

por que bater a porta de uma casa vazia?

de noite, de dia, já não tem sentido


mas se dentro da casa tiver alguém

quem sabe no quarto

no centro da sala

alguém que agora não quer receber


a terceira vez 

pode ter certeza

que o moço da porta 

nunca mais vai bater



quinta-feira, 9 de abril de 2026

Mozarteando

 



chega de tristeza...

chega de saudade,

pra que serve o mal estar

senão para perder o tempo, 

desafinar o coração dos versos de Tom

e ficar sussurrando com a voz dum João


mas a tristeza também pega as almas alegres

as almas leves, os João ninguém

tristeza que serve a mesa

com um banquete repleto de pratos vazios


que fazer se isso não tem hora?

não tem dia certo e não tem lugar

não dá pra esconder dessa cruel senhora

que ainda mora lá no meu quintal


mas faço o meu contraponto

com muita harmonia para colorir

os temas ou breves poemas

com ideias pequenas só pra eu sorrir


convido o menino Mozart

com a sua graça de eterna magia

ouvindo os seus conselhos

como quem conversa no banco da praça 


e sigo Mozarteando

e talvez encantando olhares rapinos

aprendendo com a natureza

sem espada, sem presa

sem pressa, sem hora


chega!

chega de tristeza

não vale a pena viver assim

pois nada é uma certeza

e por enquanto vale distrair


sei que depois ela volta

talvez não tão dura, talvez em silêncio

com passos leves, lentamente

quem sabe vem nua, mais leve, mais quente


me abrace, sem dizer nada

apenas me deixará sofrer com ternura






quarta-feira, 8 de abril de 2026

Alistamento

 


hoje eu mudarei minha vida

se for preciso

se for o que precisa

não cruzarei o limite

que o silêncio me avisa


serei como o soldado que foi convocado a ir à guerra

a lutar sem importar com o que pensa

sem cuidar do que sente

apenas seguir em frente

para que quem fique, seja feliz

tenha segurança

o simples direito de se sentir bem


irei só para a minha guerra

e bombardearei o meu desejo com todas as armas

me esconderei numa trincheira

marcharei para o front de batalha

sem temer qualquer dor

será hoje, se preciso for 


lutarei a mais estranha das guerras

a que não tem inimigo

a que destrói o abrigo que eu haveria de me deitar

que amordaça a palavra

que me torna prisioneiro

e me força a confessar mentiras


hoje, talvez, me porei em fuga

serei um traidor

exilado de meu próprio sentimento

se for preciso


se preciso for irei além

seguirei na marcha para um outro país

me esconderei, com uma outra vida

sem dar notícias a ninguém


nem contarei por que não luto mais

posto que me darei por vencido

não importa

apenas eu saberei

e ninguém mais






Volare

 



Todo voo é queda que se deixa demorar no abraço dos ventos...
Embaixo miro as águias, plenas de planura e imensidão.
Voos que vão longe, que olham longas distâncias.

Um voo longo pousou em meus ombros
com garras rapinas e apertos ferinos.
Vindo de tão longe para Arrancar-me a alma serena.
E sem saber se é alegria ou tristeza,
Se é perda ou ventura o alçar que ascende o pobre homem
Que abismado pensa tolo estar voando...

Não sabe que adormecido caiu
Perdeu-se no tempo, nos dias,
Bem mais que nos 10 anos.
Dormiu e deu asas ao seu pesado sono, apenas...

Velho Tango

 



A dor é uma dança que sabe o compasso do meu coração.
Sabe tanger esperanças
Gritar lembranças, sabe bem confundir.
Sabe d´uma casa chamada ilusão com estranha alegria os canteiros florir.

Sabe cada passo meu
Cada cor, cada cheiro,
Cada tom de canção.
Cada peça de roupa
Sabe o corpo inteiro.
Sabe conduzir.

Sabe cada melodia,
Da filosofia, sabe o ideal.
Só não sabe que é tango
Nem se é bem ou se é mal.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Metamorfose 2




um dia a conta chega

sem avisar, sem dar tempo de se preparar


e pra que mesmo se preparar

se é uma guerra perdida

que não aceita uma rendição

e não põe um fim na questão


chega para que conviva com ela

para que ocupe todos os espaços, onde quer que vá

até mesmo na hora do descanso, do repouso e do sono

para dormir contigo


a conta chega bem maior do que se espera

te envolve e te aperta

como que cobrando todos os dias que não esteve presente

cobrando um preço impagável


só resta abraçá-la 

permitir que esteja perto

cuidar dela como a melhor memória que você tenha

para enganar a ambos

num acordo tácito e irônico


depois de um tempo, quem sabe, tudo se torna íntimo

quase rotineiro como se fosse o normal do dia a dia

quem sabe até comece um afeto

um desejo que acabe por ser mais esquisito

incompreensível e invasor

até fazer amor


um dia não saberá quando mesmo que a conta chegou

nem perceberá sua presença, agora invisível

talvez já a tenha devorado, digerido

e agora faz parte de seu corpo

pois agora você se tornou a conta de alguém...









sexta-feira, 3 de abril de 2026

 



preciso abrir essa porta

imagino...

essa que me abre para fora

e me vejo como que saindo de uma casa de taipa, frente ao litoral

com os pés descalços, num caminho de areia cristalina e quente

com uma brisa que parece envolver o corpo

como um lençol invisível

leve e dançante feito as folhagens dos coqueiros


preciso voltar para esses ares

que se misturam entre o calor e o frescor do mar, perto

para esses ares de ventura, quando a cantoria que será à noite

faz todo o dia prometer inspiração

de cores e detalhes novos

belezas tão grandes que cabem numa canção


e como é bom transformar o olhar

reinventar a percepção

num espectro infinito

de sensibilidades possíveis

feito a mente duma criança

ou o coração de alguém apaixonado, aflito


ver tudo transformado

ver que nada é apenas o que é

que pode ter tantas narrativas que desconhecemos

mas que podemos descobrir 

ou, sem o menor pudor, inventar


mais que nunca, preciso deste portal...

pra me mudar para o mundo da arte

para passear no verso das canções que gosto

preciso sim desta porta ou janela que eu fuja

deste estado de ambientes fechados

estado estanque, mesmo com todos seus movimentos certos


quero pegar meu violão

levá-lo como convidado e amigo

prestes a romper do silêncio para a cantiga


num tempo sem pressa

e talvez, de repente, apenas parar

recostá-lo num coqueiro

e caminhar, caminhar...






inapropriado 




inapropriado nessa hora

em que todos dormem

fazer um café


justo porque não devia te-lo feito

tão tarde


mas fazer um café, nesta hora,  expressa minha liberdade

um desvio, com muito gosto

quando pensar importa


não para me manter acordado

apenas por precisar deste café noturno


sim, fora de hora

fora de tudo

desaforado e inapropriado

inapropriado para esquecer

inapropriado para guardar


esfria, ferve, mancha, derrama

perfuma...


talvez seja ele como o céu, na noite sem lua

sem permitir sequer ter estrelas

como uma rainha que rouba os olhares


como o único tema de uma sinfonia...


aprisiona e envolve na sua bruma

e qualquer que seja o pensamento

vaga, neste mar

nada...


apenas um café

nada mais

e eu que esperava que fosse apenas...






domingo, 29 de março de 2026

Entalhe

Entalhe 




preciso escrever, ainda...

ao menos tentar.


e preciso ficar o mais longe possível do olhar crítico

que não merece a confidencialidade das veleidades rabiscadas


e quisera fossem traços esses dígitos

tão incapazes de delinear o relevo do sentimento


também que fosse num papel

com todas as fibras recebendo as cicatrizes 

dos golpes duma espada de tinta escura

marcando memórias instantes

tatuando sentimentos assim como entalhamos numa árvore os nomes


ainda preciso escrever

reabrir esta página cheia de letras e palavras

tentando traduzir essa coisa

esse limite real que meu imaginário atravessa

e se acampa no meio do tempo


escrever, escrever, escrever

até me calar por dentro

quando perceber que talvez já não haja um destinatário

senão o andar em círculos

de um sentir solitário


até quando a realidade me acolher, finalmente

de forma simples, sem fantasia

sem poemas, apenas informação

sem precisar escrever...


no fundo, talvez seja simples assim

como deveria ter sido

como deve ser...




terça-feira, 24 de março de 2026

Braços Soltos

 Braços Soltos




desistir, experiência difícil

quando parece pertencer ao seu caminho

esta essência oculta e inviolável

que sobrevive por si só, no desalinho


presente, não sei de que forma

sem razão e sem cabimento

mas sempre lá

no incerto em que se esconde

e se revela em algum momento


difícil é explicar ao corpo

encontrar um argumento

quando existe e sente

sem de fato estar presente


permitir, talvez

como se fosse uma desistência

apenas não buscar, nem lutar

se render e deixar os braços soltos...


não se importar com o tempo

nem com toda essa construção de mundo

repleta de costumes rasos, toscos

ora belos ou feios, meros, medianos


tanto faz...

talvez não faça diferença entre o vale e o monte

entre o sol e a sombra

pois a natureza é sempre maior que qualquer drama humano

ela tem todo o tempo do mundo

e estará sempre ali...


braços soltos...

olhos fechados e um vento no rosto...

um sorriso leve...


desistir?

não.

apenas guardar, com todo cuidado

e fingir não saber como pode ser encontrado...











domingo, 15 de março de 2026

Monólogo

Monólogo




por certo são escolhas

essas que nos apontam os caminhos a seguir

de forma aceitável

de forma quase lógica, quase inevitável

e a cada passo, mais responsabilidades

mais laços, mais nós


parece sólido

necessário a ponto de não nos permitir desvios


mesmo que em alguns momentos ensaiemos alguma fuga

logo a segunda feira nos diz, foi apenas um devaneio

algo que se esquece incompletamente com uma noite de sono

um carinhoso abandono


parece normal

existem forças que quando tudo acontece

já nos oferece um roteiro pensado

um texto reto para uma leitura seguida

numa cadência de tempos bem definidos

uma dança da vida regular

dar o braço a torcer

aceitar

ter uma segurança interna

e à sutil vontade de romper as regras, negligenciar


talvez eu não caiba nesta peça

por nunca ter aceitado de verdade

mesmo que a contragosto me contenha

não consigo representar a falsidade

mas permito conviver com ela


é o que se colhe, por escolher e tolerar

é como enfim nós nos vendemos

o salário da sociedade que nos pagam

sem a menor troca

sem diálogo

até o sentimento tornar-se este monólogo



terça-feira, 10 de março de 2026

Expresso

   Expresso




não se explica o que nos move por dentro

quando tudo em volta nos orienta o contrário

não faça, não pode, não deve...

e tudo plasmou no impasse


e assim foi  até o limiar dessa consciência

quando, enfim, me permiti agir numa corda bamba

equilibrando o real e o devaneio

num risco sublime e incerto

só para estar perto


subir o monte, descer

contemplando a paisagem dourada pelo sol

até chegar na vila onde mora o sentido daquele movimento

dentro


tudo naquela ida parecia diferente

diferente de qualquer ida a qualquer lugar

ida ao trabalho, ida a outra cidade, a outra casa...


um mapa que se delineava na pele

que sentia as gotas leves da chuva naquele dia

e o frescor daquele vento da sertania

como o frescor duma lágrima num rosto quente


a proximidade me empurrava para dentro de um quadro

onde as cores vibravam e floriam

sem se importar com a geometria

era apenas ali que importava

até que finalmente encontrei


e sem palavras certas

sem pensamentos claros

era ali


um hiato no tempo

uma travessia de mundos paralelos

e todas as questões não respondidas, não resolvidas

abriram uma exceção, ficaram de lado

se calaram, pois não importavam

 

oito anos passados

e só precisava de um café

para me tornar desconsertado

com uma felicidade estranha e plena...

até precisar sair daquele quadro

me enquadrar na geometria dos mapas

ceder o devaneio à realidade daquele caminho,

mas voltei levando um sabor de café na boca

e a alegria de ter roubado pra mim

a sua companhia