terça-feira, 10 de março de 2026

 Um Café


não se explica o que nos move por dentro

quando tudo em volta nos orienta o contrário

não faça, não pode, não deve...

e tudo plasmou no impasse


e assim foi  até o limiar dessa consciência

quando, enfim, me permiti agir numa corda bamba

equilibrando o real e o devaneio

num risco sublime e incerto

só para estar perto


subir o monte, descer

contemplando a paisagem dourada pelo sol

até chegar na vila onde mora o sentido daquele movimento

dentro


tudo naquela ida parecia diferente

diferente de qualquer ida a qualquer lugar

ida ao trabalho, ida a outra cidade, a outra casa...


um mapa que se delineava na pele

que sentia as gotas leves da chuva naquele dia

e o frescor daquele vento da sertania

como o frescor duma lágrima num rosto quente


a proximidade me empurrava para dentro de um quadro

onde as cores vibravam e floriam

sem se importar com a geometria

era apenas ali que importava

até que finalmente encontrei


e sem palavras certas

sem pensamentos claros

era ali


um hiato no tempo

uma travessia de mundos paralelos

e todas as questões não respondidas, não resolvidas

abriram uma exceção, ficaram de lado

se calaram, pois não importavam

 

oito anos passados

e só precisava de um café

para me tornar desconsertado

com uma felicidade estranha e plena...

até precisar sair daquele quadro

me enquadrar na geometria dos mapas

ceder o devaneio à realidade daquele caminho,

mas voltei levando um sabor de café na boca

e a alegria de ter roubado pra mim

a sua companhia





Nenhum comentário: