lá vem o bonde
com seus metros de ferro e bronze
estridente e forte
glissando comas de sem-tons
na escala dos trilhos
esperam-no paralelas vidas
um amontoado de livros e histórias cruas
o velho espera o bonde,
a mala, a camisa,
o doce do menino
também espera o bonde
lá vem vindo esse bonde
para o desespero de todos
ele vem sem esperar
sem dar tempo a nada
sem se importar com quem vai entrar
bastará apenas ocupar os acentos
o limite das cargas e das gentes
apenas seus pesos
e não o peso das partidas
lá vem o bonde
para atropelar qualquer sonho
imponderável
na razão do horário em cumprimento
atropelar no exato instante em que ele para
atropelar o doce
as cores das roupas na mala
e suas histórias sujas
atropelar tudo em silêncio
e para qualquer desejo à bordo
parte imediatamente
e convence de que é melhor não pensar nisso
pois o preço é igual para cada nome

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