domingo, 29 de março de 2026

Entalhe 




preciso escrever, ainda...

ao menos tentar.


e preciso ficar o mais longe possível do olhar crítico

que não merece a confidencialidade das veleidades rabiscadas


e quisera fossem traços esses dígitos

tão incapazes de delinear o relevo do sentimento


também que fosse num papel

com todas as fibras recebendo as cicatrizes 

dos golpes duma espada de tinta escura

marcando memórias instantes

tatuando sentimentos assim como entalhamos numa árvore os nomes


ainda preciso escrever

reabrir esta página cheia de letras e palavras

tentando traduzir essa coisa

esse limite real que meu imaginário atravessa

e se acampa no meio do tempo


escrever, escrever, escrever

até me calar por dentro

quando perceber que talvez já não haja um destinatário

senão o andar em círculos

de um sentir solitário


até quando a realidade me acolher, finalmente

de forma simples, sem fantasia

sem poemas, apenas informação

sem precisar escrever...


no fundo, talvez seja simples assim

como deveria ter sido

como deve ser...




terça-feira, 24 de março de 2026

 Braços Soltos




desistir, experiência difícil

quando parece pertencer ao seu caminho

esta essência oculta e inviolável

que sobrevive por si só, no desalinho


presente, não sei de que forma

sem razão e sem cabimento

mas sempre lá

no incerto em que se esconde

e se revela em algum momento


difícil é explicar ao corpo

encontrar um argumento

quando existe e sente

sem de fato estar presente


permitir, talvez

como se fosse uma desistência

apenas não buscar, nem lutar

se render e deixar os braços soltos...


não se importar com o tempo

nem com toda essa construção de mundo

repleta de costumes rasos, toscos

ora belos ou feios, meros, medianos


tanto faz...

talvez não faça diferença entre o vale e o monte

entre o sol e a sombra

pois a natureza é sempre maior que qualquer drama humano

ela tem todo o tempo do mundo

e estará sempre ali...


braços soltos...

olhos fechados e um vento no rosto...

um sorriso leve...


desistir?

não.

apenas guardar, com todo cuidado

e fingir não saber como pode ser encontrado...











domingo, 15 de março de 2026

Monólogo




por certo são escolhas

essas que nos apontam os caminhos a seguir

de forma aceitável

de forma quase lógica, quase inevitável

e a cada passo, mais responsabilidades

mais laços, mais nós


parece sólido

necessário a ponto de não nos permitir desvios


mesmo que em alguns momentos ensaiemos alguma fuga

logo a segunda feira nos diz, foi apenas um devaneio

algo que se esquece incompletamente com uma noite de sono

um carinhoso abandono


parece normal

existem forças que quando tudo acontece

já nos oferece um roteiro pensado

um texto reto para uma leitura seguida

numa cadência de tempos bem definidos

uma dança da vida regular

dar o braço a torcer

aceitar

ter uma segurança interna

e à sutil vontade de romper as regras, negligenciar


talvez eu não caiba nesta peça

por nunca ter aceitado de verdade

mesmo que a contragosto me contenha

não consigo representar a falsidade

mas permito conviver com ela


é o que se colhe, por escolher e tolerar

é como enfim nós nos vendemos

o salário da sociedade que nos pagam

sem a menor troca

sem diálogo

até o sentimento tornar-se este monólogo



terça-feira, 10 de março de 2026

   Expresso




não se explica o que nos move por dentro

quando tudo em volta nos orienta o contrário

não faça, não pode, não deve...

e tudo plasmou no impasse


e assim foi  até o limiar dessa consciência

quando, enfim, me permiti agir numa corda bamba

equilibrando o real e o devaneio

num risco sublime e incerto

só para estar perto


subir o monte, descer

contemplando a paisagem dourada pelo sol

até chegar na vila onde mora o sentido daquele movimento

dentro


tudo naquela ida parecia diferente

diferente de qualquer ida a qualquer lugar

ida ao trabalho, ida a outra cidade, a outra casa...


um mapa que se delineava na pele

que sentia as gotas leves da chuva naquele dia

e o frescor daquele vento da sertania

como o frescor duma lágrima num rosto quente


a proximidade me empurrava para dentro de um quadro

onde as cores vibravam e floriam

sem se importar com a geometria

era apenas ali que importava

até que finalmente encontrei


e sem palavras certas

sem pensamentos claros

era ali


um hiato no tempo

uma travessia de mundos paralelos

e todas as questões não respondidas, não resolvidas

abriram uma exceção, ficaram de lado

se calaram, pois não importavam

 

oito anos passados

e só precisava de um café

para me tornar desconsertado

com uma felicidade estranha e plena...

até precisar sair daquele quadro

me enquadrar na geometria dos mapas

ceder o devaneio à realidade daquele caminho,

mas voltei levando um sabor de café na boca

e a alegria de ter roubado pra mim

a sua companhia