Um Café
não se explica o que nos move por dentro
quando tudo em volta nos orienta o contrário
não faça, não pode, não deve...
e tudo plasmou no impasse
e assim foi até o limiar dessa consciência
quando, enfim, me permiti agir numa corda bamba
equilibrando o real e o devaneio
num risco sublime e incerto
só para estar perto
subir o monte, descer
contemplando a paisagem dourada pelo sol
até chegar na vila onde mora o sentido daquele movimento
dentro
tudo naquela ida parecia diferente
diferente de qualquer ida a qualquer lugar
ida ao trabalho, ida a outra cidade, a outra casa...
um mapa que se delineava na pele
que sentia as gotas leves da chuva naquele dia
e o frescor daquele vento da sertania
como o frescor duma lágrima num rosto quente
a proximidade me empurrava para dentro de um quadro
onde as cores vibravam e floriam
sem se importar com a geometria
era apenas ali que importava
até que finalmente encontrei
e sem palavras certas
sem pensamentos claros
era ali
um hiato no tempo
uma travessia de mundos paralelos
e todas as questões não respondidas, não resolvidas
abriram uma exceção, ficaram de lado
se calaram, pois não importavam
oito anos passados
e só precisava de um café
para me tornar desconsertado
com uma felicidade estranha e plena...
até precisar sair daquele quadro
me enquadrar na geometria dos mapas
ceder o devaneio à realidade daquele caminho,
mas voltei levando um sabor de café na boca
e a alegria de ter roubado pra mim
a sua companhia