sábado, 15 de fevereiro de 2014

confronto








mundo amado...
amigo generoso a desdobrar sua riqueza
acolhe as mãos vazias e quentes
mãos que pertencem à sua primavera
que se guardam cúmplices para o cuidado que carece o mundo
se completam presentes e adornam a festa da vida

mundo que espera os visitantes raros
que passam pela invenção de sua porta

os muitos lugares que transportam para sua eternidade
parecem ficar mais felizes
quando esses te habitam, imersos em sua realidade
sua matéria, simplesmente...
no além e no instante
no possível
no encanto imortal do que existe em seu tempo
e no tempo desconhecido
mas que basta para a existência
para o real
e para o esquecimento






quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

a mãe d'água




quando pequeno quase me levou o rio
sua água de barro e meu olhar profundo
brincando com a luz turva do céu
e não sabia que fantasia fora aquela
me transpondo ao entre-mundos
plasmando aqueles pouco segundos frios
me desnascendo dos humanos
no seio da mãe d'água

pouco me lembro
mas não temi aquele novo estado
contemplando o desconhecido
como tocaria o rosto de uma fera
para sentir o seu pelo e sua forma bela

assim o destino me regressou
tragado pelos pés com o mundo invertido
estranho para o meu estado líquido
ridiculamente posto a favor da gravidade
renascido súbito pelas mãos fortes de meu pai
e o espanto dos limites do que pode um ser
quando brinca com areia a beira do abismo








domingo, 9 de fevereiro de 2014

Leveza da pele



no pouco uma mão desenha o vento
com dedos longos, inseguros

no imenso céu, plana o dia
acariciando teu ventre vazio
onde vaga o pensamento esquivo
sem o pousar leve da memória

e pode decidir por qualquer caminho
sem que o acaso afronte
sem que um canto desperte a terra
sem o reencontro dos pesos sensíveis
que ensaiam a inexistência
desesperadamente nus
silentes...










quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

As 24 horas de uma palavra







só há mesmo o que é concreto
e mesmo assim se desmorora lentamente
no limite do tempo que move o mundo
precipitando uma poeira sólida ao chão
na iminência de desenhos e rastros de uma inquietude
displicente e vaga em seu combate

melhor reduzir-se ao perto
e se entregar ao que sustenta
ter os pesos igualmente medidos
brincar com o que tem e rir da falta, desdenhar dela
ter a consciência de um rei que não passa de mais um qualquer
e sabe, ridiculamente, ao ver o reino inventado e frágil
nos requintes dos bordados

ainda melhor se se entregar à cama
ao amor do sono que sabe o que é necessário
quando persiste a invenção dos sonhos
e acontece o que precisa um corpo
pesar em um outro tempo
no suave e terno lençol
como a irrealidade de nuvens brancas

é preciso abrir os relógios
e ver que o tempo não existe
ver o engenho da vida e seus senhores,
fragmentar as coisas
os grãos da ampulheta inquietos revirando-se
até que sejam congelados por uma existência
e usados como pedras, em um whisky
boiando e reverberando sons dispersos...
e que não nos façam perceber que passou mais um dia








quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Ma Vlast







me dizes, enquanto caminho por seu rosto
enquanto bebo em sua boca cada palavra

te ouço, enquanto te habito
sem saber em que língua tua forma me fala

me perco, nesse mundo inteiro
em cada ponto que se inquieta o olhar meu

volto, e a compreensão me cala
me exila ensurdecido

e saio a cantar a minha terra
a minha falta
o meu lugar

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Lunas





me roubam a  lua cheia
impiedosamente, de meu peito
sem devolvê-la ao céu

apagam com cortinas argênteas
o rosto que contempla a noite
rochedo triste que tenta desmoronar-se no vale
até o lago

pele de mica e olhos de cristal
da gruta onde nunca seca a fonte
do mundo interno
que liga as águas como veias da terra
por onde flui o sangue errante
que atravessa os tempos
com a sede do corpo

essa lua que se esconde
como olhos fechados
um calor frio
o peso que mergulha fundo
embaralhando o espelho das águas
a inconstância estremecendo
até que retornes, plena
como o sol e o sorriso
até que se possa ver de novo
a iluminada





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

travessia




a vida se nos assenhora
inteira em todas partes nuas
brandamente, generosa e bela
torna errantes nas travessias do presente
no tempo mínimo e na eternidade
no além que nos habita como um horizonte
calmo e imenso
esse deserto, como um lago e suas ondas lentas
grãos vaporosos ao vento
vaga como nessa mesa os pensamentos
em caravana de versos naufragados
no extremo da gota e do grão
da areia e da neve
do impossível que nos atreve
que nos tece um bolso
que nos cabe as mãos
que nos guarda dentro
o tatear de lírios
das mínimas parcelas
o nosso moinho
o nosso pão