quinta-feira, 30 de maio de 2013

Alvorada





Me liberta...
Dessa coleira dos dias
Desses dias de cólera
Que não me suportam esse costume meu

Me dá o tempo
Da vida desacostumada
De cores sem formas
De pedra e folhas verdes

Vida entre as ruínas
Heras retorcidas
Laureando colunas rotas
Em sinfonia de ventos frios

Dá-me uma porta sem trincos
Um portal
Que possam atravessar por ele, meus sentimentos
De como ia brincar no quintal

Dá-me um tempo
Que não deixe o amanhecer
Arrancar-me desses braços
Do sonho, da madrugada
Da brincadeira
Do pouco que é meu









sábado, 18 de maio de 2013

Correnteza







Quis subir pra ver o céu da noite
Mas tinha um sol no meu peito

Quis também vestir-me do sol do dia
E um manto a me dizer, faz frio, mentia...

E tanto a me enganar, a dor florindo
Em tantos desiguais sentidos

A sede em mim nascia
Por um copo d´água de rio corrente
Um elo que solta e que chove
Na alma, o vapor que corre
Que no leito, são afluentes
A cruzar o paralelo e o infinito

Pela regra do ser, que nunca cabe
Pela regra da vida, desconhecida...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Mãos finas



O dia se me desdobra
Em cada tom do céu, irrepetível, cinza, azul
Também em cada lugar que mudo e sinto a umidade ficar diferente
Ou sombra ou sob as luzes pálidas
Os clarões de telas e olhos apagados, me desdobram
A mansidão do anoitecer me eleva em íntimas provas tão desconhecidas
Que nenhuma outra nau é mais segura que a que me devaneia nos mares do sono
O avançar da hora não sabe me lembrar que a terra dança sua vida
Mas cada pequena parte da natureza me silencia discursando um mundo paralelo
E vejo tudo tão fora de lugar
Tão fora quanto meu pensamento
Me exilando dum real das coisas
Até que num hiato desse exílio eu simplesmente reconheça
E me confesse, tomar muito cuidado com os dias
Pois não sabem o que são eles os historiadores
Nem os filósofos sabem mais que os estivadores
Nem quanta inveja deles devem sentir
Por eles simplesmente carregarem sacos de um lugar a outro
Pesos tão repetidos
Mas ao final estão leves e risonhos
Livres de qualquer peso, até a próxima carga
Levitando qualquer dúvida
Piedosos com os fracos com suas cargas insuportáveis
Com suas mãos finas
E suas dores divinas



Tris







Por um tris...Por um tris de um momento
Por um tris de uma palavra, ou qualquer circunstância que nos acompanha, imperceptível
Essa coisa nos permanece, como o detalhe que muda o todo
E se tudo mudar, o detalhe é o que ficará
Intacto como um pequeno objeto. Mínimo e essencial
Para não mudar nunca. Pra guardar nessa pequenina parte do todo que já não há
Por toda a vida, aquele instante tris, por muitos momentos que nem sequer lembramos que existe
Escondido e vivo, capaz de mudar as cores das cores e o som dos sons
Mudar dentro e fora
Capaz de nos fazer voltar
Depois de tudo, fazer nos reconhecer
Porque tanto nada nos faz parte verdadeiramente
Porque muito pouco vale a pena guardar


terça-feira, 16 de abril de 2013

Mancha







Minha alma
Lençol que sangra o vinho de meu tempo
Aquieta-se como espada na bainha

Ignoro qualquer questionamento sobre o injustificável
Sobre o que tenho feito
Ou desfeito no caminho de minha vocação

Não exijo um lugar melhor para o almoço
Com tantos dissabores já  experimentados
Mas não deixo empobrecer meu gosto
Escondo um requinte de delícias para poucos e raros momentos...
E sei que meu olhar espreita a beleza
Que minhas mãos não esquecem a linguagem dos que se calam

Mesmo assim, quietos meus sentidos
Guardam flores sob a neve
Admiram as manchas do acaso humano
Do descuido do mundo
Que apenas vive
Sob o sol e o luar
Nas janelas de luz nos prédios
Nos becos escuros
Nas paredes de minha alma

sábado, 13 de abril de 2013

Zumbido




Meu pequeno caderno
Que se abre como uma porta
Pra um canto meu
Onde minimamente desenho meus sentidos
Onde procuro uma voz pra cada palavra
Como flores que parecem ser o canto dos arbustos

Hoje, um lamento entoa um canto em cores quentes
E são apenas meus garranchos toscos florindo
Minha fragilidade vibrando um zumbido de abelha

E sei que tão pouco é preciso
No meio de tudo
Quase nada é preciso
Apenas o que falta
Não uma sinfonia
Basta a canção
Um sorriso...










domingo, 24 de março de 2013

Soledad




Enfim à sós com o inesperado, com o tempo e mais umas coisas poucas para o caso de precisar delas.
Insisto com este corpo irreversível. Máquina experimental de uma vida inquieta
descascando todas as fotografias até chegar na semente
solamente...

e tantas lembranças flamulando como bandeirolas num dia de festejo.
Incontáveis e sem que eu possa sabê-las por inteiro.
Mas as sinto como numa rua, numa praça de interior. Meu interior, minha vida....
festejo a vida com as ruínas e as plantinhas verdes brotando nelas
Com o olhar das janelas, com as luzes na noite e o brinco de estrelas que não sei o nome
e canto...

Um gole e uma canção pra saber que a solidão não pertence a apenas um
Ela nos iguala, nos diminui, nos torna mais humanos, humanamente inspirados ás cantigas
Para passar os dias todos e cada dia inesperado
Pra resistir, pra permitir um sorriso
pra voltar e esquecer que não somos para sempre...
solamente...